Quarta-feira, 23 de Outubro, 2019
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Televisão espanhola condenada por uso de câmara oculta

No cumprimento da sua missão de vigilante dos abusos de todos os poderes  - e de todos os protagonistas -  o jornalismo tem de prestar atenção à possibilidade de ser ele mesmo considerado abusador. A questão tornou-se muito aguda com os chamados hackers  éticos, que tornam públicas informações que os Estados, os bancos, as empresas, ou apenas milhares de cidadãos iguais a eles, preferiam manter guardadas; serão sempre considerados whistleblowers (denunciantes cívicos) por uns, e meros piratas informáticos por outros.

Há situações mais simples, a nível do jornalismo de investigação, mas que entram também neste debate. Há pouco tempo, em Espanha, dois jornalistas da televisão espanhola Antena 3 usaram uma câmara oculta para expor os procedimentos menos terapêuticos de um suposto autor de curas. O Tribunal de primeira instância deu-lhes razão, em nome da liberdade de informação. Mas o caso subiu ao Tribunal Constitucional, que acabou por multar a estação “por intromissão ilegítima nos direitos fundamentais à intimidade pessoal e à própria imagem”.
A história vem contada na Red Ética, da FNPI – Fundación para el Nuevo Periodismo Iberoamericano.

O caso passou-se em 2010, na ilha de Mallorca, quando uma equipa do programa Espejo Público, emitido pelo canal de televisão Antena 3, foi investigar as histórias de curas milagrosas de Thomas Erich Hertlein, descrito como “coach, mentor e consultor pessoal”. Os jornalistas Ana Regalado e Enrique Campo foram ao seu consultório, fingindo o último sofrer de um cancro. A reportagem, recolhendo imagens de uma câmara oculta, descrevia Hertlein como “mulherengo” e fazendo terapias que incluíam “algo mais que carícias”. 

O protagonista desta história pôs o caso em tribunal, queixando-se de que tinha sido posto em causa o seu direito à privacidade pessoal. Em primeira instância, o Tribunal deu razão aos jornalistas, considerando que tinha primazia a liberdade de informação, já que a reportagem procurava denunciar “uma actividade que podia trazer riscos para a saúde pública”. 

Hertlein manteve a queixa, que acabou por chegar ao Tribunal Constitucional. Foi a este nível que, em Fevereiro de 2019, a Antena 3 foi condenada a pagar ao queixoso uma indemnização de 92 mil euros, considerando que os repórteres podiam ter utilizado meios menos intrusivos, por exemplo recolhendo entrevistas com outros clientes. 

O texto que citamos, de Red Ética, põe as seguintes questões: 

“Em que casos pode ser reconhecido como válido o uso de uma câmara oculta em jornalismo?
A condenação da Antena 3 pela Justiça espanhola poderá ter consequências a nível internacional?
O direito à privacidade pode ficar acima do direito à liberdade de Imprensa? E o direito dos cidadãos a conhecerem a verdade consente sempre o uso da câmara oculta?” 

Para responder a estas e outras perguntas, a Red Ética convocou, mesmo, um “twit-debate” aberto a todos os interessados, prometendo divulgar, em publicação posterior, os melhores comentários chegados à sua conta @Etica [entrando por  #ÉticaEnRed].

 

Mais informação no artigo aqui citado, de Red Ética, e no El País, que descreve mais em pormenor o ocorrido.
A sentença do Tribunal Constitucional, em pdf.

Connosco
Jornalistas deverão estar prevenidos para identificar e corrigir notícias falsas... Ver galeria

Existem várias lacunas na pesquisa de desinformação política e os debates contínuos sobre o que constitui as fake news e a sua classificação acabam por ser uma distracção, desviando as atenções das “questões críticas” relacionadas com o problema.

É importante reconhecer que as fake news existem, que estamos expostos a essas falsas informações, mas, se quisermos combatê-las, é indispensável procurar a sua origem, a sua forma de disseminação e analisar as consequências sociais e políticas.

É, ainda, imprescindível que os jornalistas estejam preparados e informados para não colaborarem na propagação deste tipo de informação.

Por vezes, o objectivo que se esconde em algumas fake news é que os media acabem por disseminá-las, acelerando a sua difusão. Por esse motivo, foi identificado o chamado “ponto de inflexão”, que representa o momento em que a história deixa de ser partilhada exclusivamente em “nichos” e acaba por atingir uma dimensão maior, alcançando várias comunidades. 

A jornalista Laura Hazard Owen abordou o tema num texto publicado no NiemanLab, no qual também faz referências à melhor forma de reconhecer os de conteúdos manipulados.

Suspensão de acordo do “Brexit” dividiu a imprensa britânica Ver galeria

Suspensa a aprovação do acordo no Parlamento britânico até que haja a regulamentação apropriada, a imprensa londrina apresentou-se dividida em relação ao Brexit.

Por um lado, a esperança de evitar um “não acordo” e uma saída abrupta, por outro a exaltação em relação à votação. 

Os media ingleses evidenciaram posições antagónicas em relação aos últimos acontecimentos e isso foi claro pela forma como abordaram a situação. 

Enquanto que o Sunday Express assumiu uma postura pró-Brexit e foi mais hostil com os deputados, acusando-os de atrasarem o processo, o Independent preferiu focar-se nas ruas, onde perto de um milhão de cidadãos se manifestaram para exigir que lhes seja dada a palavra final. Por sua vez, o Observer realçou a derrota do primeiro ministro, que se viu forçado a suspender a aprovação do acordo.

Le Monde publicou, entretanto, um texto no qual é feita uma análise dos media britânicos neste contexto.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
Ainda a nova legislatura não começou e já surgiu o primeiro caso político em torno da RTP. Infelizmente foi causado pelo comportamento recente da Direcção de Informação da estação em relação a um dos programas dessa área com maior audiência, o “Sexta às 9”, de Sandra Felgueiras, que regularmente apresenta investigações sobre casos da actualidade nacional.   O...
O chamado “jornalismo de causas “  voltou a estar na moda. E sobram os temas:  a “emergência climática”,   assumida por António Guterres enquanto secretário geral da ONU,  numa capa caricata da “Time”;  o “feito” de uma adolescente nórdica,   que atravessou o Atlântico num veleiro de luxo -  a pretexto de assim  reduzir o impacto ambiental -, para participar...
As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
J.-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de...
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