Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Estudo

As doze estratégias para melhorar o negócio dos media

A receita proveniente dos leitores e os conteúdos pagos são as duas primeiras estratégias de crescimento referidas, numa lista de doze, pelo Relatório sobre “Inovação nos Media 2019-2020”, agora revelado pela FIPP – International Federation of Periodical Publishers. E a que aparece em terceiro lugar é, curiosamente, a da publicidade, que “não está morta”, mas subiu 7,2% em 2018  - a maior taxa de crescimento desde 2010.

Esta 10ª edição do Innovation in Media 2019-2020 World Report  foi apresentada a meio milhar de responsáveis pelos media de mais de 40 países, durante a Cimeira dos Inovadores Digitais, realizada em Berlim a 25 de Março.

O texto de síntese do documento, no site da FIPP, afirma que são estas “as doze melhores e mais comprovadas estratégias de negócio já usadas para aumentar fontes de receita” e que as actuais empresas de media “precisam de adoptar pelo menos três destes modelos de negócio para terem hipótese de ser bem sucedidas nesta indústria, no séc. XXI”.

O texto do estudo é de acesso gratuito aos membros da FIPP, podendo ser adquirido online por outros interessados. Na impossibilidade de citar o original, mencionamos aqui alguma da informação prestada. 

Cada um dos doze capítulos referidos cita exemplos concretos. John Wilpers, um dos dois autores do relatório, diz que a receita proveniente dos leitores é o grande “tema do dia”: 

Um dos grandes motivos para isto é que as pessoas estão cada vez mais disponíveis para pagarem bons conteúdos num mundo em que há uma proliferação de maus conteúdos espalhados pela Internet. 

“Há por aí tanto mau conteúdo que as pessoas estão, finalmente, desejosas de pagar por bom conteúdo. Seguros disto, os editores estão a sentir-se mais confiantes em vender o seu conteúdo.” 

Wilpers acrescenta que “os que tiveram êxito em converter o alcance [de audiência] em assinaturas pagas usaram várias estatégias para lá chegar, desde as newsletters regulares, cobrindo temas ‘de nicho’, oferta de assinaturas personalizadas e apontando a grupos de afinidade, no Facebook e na Google, com posts pagos e palavras-passe de busca pagas”. 

O seu exemplo é The New Yorker, “onde a receita dos leitores já ultrapassa a da publicidade, em 65% contra 35%”. 

O que ele descreve como “a cereja em cima do bolo” é o facto de “os editores terem compreendido que o crescimento das assinaturas está a trazer novas receitas da publicidade, porque o crescimento da circulação paga é um argumento de venda para as marcas”. 

Outra revelação do estudo foi a de que a flexibilidade nas paywalls “teve o maior sucesso na conversão do alcance dos conteúdos para assinaturas”. Os editores aprenderam que não é verdade que “o mesmo formato sirva para tudo”. 

O exemplo citado é o do Neue Zürcher Zeitung, um diário suíço de língua alemã, de Zurique, que personalizou a paywall  em função de 150 variáveis, derivadas de análise de dados, incluindo a frequência de visitas e machine learning, entre outras. 

“Esta estratégia de paywall flexível  - agora conhecida como ‘portagens’ -  aumentou a conversão de alcance para assinaturas em cinco vezes mais, ao longo de três anos. O site do NNZ tem quase 600 mil utentes registados, um aumento de mais de 40 por cento desde 2017, acrescentando entre dez mil e vinte mil utentes por mês.” (...) 

O segundo dos autores citados, Andrew Rolf, afirma que “os editores começam a compreender que a melhor forma de combaterem o assim chamado ‘duopólio’ é oferecerem algo que estes ‘enormes gigantes tecnológicos’ não podem oferecer  - competência editorial.” (...)

 

Mais informação no site da FIPP  e em Innovation.Media

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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Francisco Sarsfield Cabral
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Agenda
02
Jul
The Children’s Media Conference
16:00 @ Sheffield,Reino Unido
21
Ago
Edinburgh TV Festival
09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigeria