Sexta-feira, 21 de Fevereiro, 2020
Media

Dos "apóstolos da certeza" ao jornalismo de dados

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O autor descreve o modo como, depois do 11 de Setembro, “queria contribuir de alguma forma para tentar pensar sobre o que estava acontecendo na América”: 

“Fiz isso até 2003 e depois voltei para a pós-graduação, porque estava interessado na maneira como o jornalismo estava mudando. E também o que significava tantas pessoas podendo participar nos media e como isso estava transformando o jornalismo.” 

Na Universidade de Columbia, encontrou uma comunidade profissional de jornalistas “que não se importava com a audiência”.

“A questão agora é que talvez isso tenha ido longe demais: os jornalistas estão muito dependentes de clicks ou de métricas e tomam muitas de suas decisões por causa dessas coisas. Por outro lado, é importante que os jornalistas saibam o que a audiência quer e o que precisa para ser informada. Qualquer jornalista que afirma que não precisa de saber o que o público quer ler está se iludindo.” 

“Mas o jornalismo, como categoria profissional, precisa de tomar decisões por si mesmo a respeito do que considera importante. É isso que faz uma comunidade profissional. É um grupo de pessoas que possui uma certa quantidade de conhecimento e, então, pode decidir por si mesma o que é importante. O jornalismo como comunidade profissional está altamente ameaçado. E isso é um problema, porque é importante que os jornalistas sejam profissionais.” 

“Então, não acho que clicks e métricas sejam terríveis para o jornalismo. Mas acho que, na medida em que contribuem para uma maior desprofissionalização dessa ocupação tão importante, podem ser parte de uma tendência negativa. A resposta curta seria: jornalistas devem saber o que o público pensa, mas não devem tornar-se escravos disso e têm que continuar pensando sobre o que a audiência precisa.” (...) 

C.W. Anderson faz a comparação entre o que designa como jornalismo “de elite” e o que se faz na News Corp, de Rupert Murdoch, na Austrália, lembrando que uma sua doutoranda lhe contou que “eles eram totalmente regidos por clicks, completamente governados por métricas de notícias”: 

“Mas se você conversar com algumas pessoas no The New York Times ou no The Guardian, elas dirão  - ‘bem, não, nós não somos assim, nós usamos as métricas como uma das muitas outras coisas e nós certamente não estamos vivendo nesta cultura do click’.” (...) 

O seu propósito declarado, nesta como noutras áreas, é o de “combinar etnografia e história  - não história de cem anos atrás, mas história de dez anos atrás. Porque a forma como as redacções eram em 2009 é muito diferente do que são em 2019. As mudanças foram muito rápidas. A ideia era: e se combinássemos uma perspectiva histórica com uma perspectiva etnográfica? Assim, podemos observar como o caminho da redacção ou o caminho do jornalismo muda à medida em que passa pelo tempo.” (...) 

“Certos aspectos do jornalismo de dados são mais parecidos com o que eram há cem anos do que há 50. Isso porque a nossa compreensão dos dados mudou e nossa compreensão do que entendemos por dados mudou. A ideia de big data levou a muitas mudanças também. De certa forma voltei um pouco ao passado para entender o presente.” (...)  

Sobre o Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, escrito com Emily Bell e Clay Shirky, explica que “foi em grande parte baseado em entrevistas, um pouco de análise de conteúdo de diferentes redacções e relatórios”: 

“Também tivemos um grupo de discussão que trouxe diferentes profissionais da indústria para Columbia e fizemos conversas com quatro ou cinco pessoas ao mesmo tempo. Mas era mais um relatório do que um trabalho académico, diria. Escrevemos para académicos, mas também para jornalistas e publishers.” 

“A ideia, quando escrevemos o relatório, era de que o jornalismo pós-industrial é um estado de coisas caótico e muito instável, ao contrário do jornalismo industrial, que era relativamente estável, pois as formas de fazê-lo estavam relativamente definidas. E eu acho que a mudança que vamos ver agora é que o jornalismo pós-industrial acabará sendo como o jornalismo antigo, ou seja, ele se estabilizará.” (...) 

“Dito isso, se você me perguntasse há um ano qual seria o novo modelo, eu provavelmente teria dito BuzzFeed ou Vice. Mas eles também estão passando por enormes dificuldades. Então, talvez o caos dure mais tempo do que eu pensava, porque pareceu-me há dois ou três anos que estávamos começando a ver alguma estabilidade.” (...) 

Sobre as diferenças entre o jornalismo praticado nos Estados Unidos e noutros países, nomeadamente o Brasil, C.W. Anderson afirma: 

“O problema nos Estados Unidos é que o jornalismo lá tradicionalmente tem sido muito local, historicamente porque a América é muito grande e também devido à sua natureza federalizada, na qual as decisões são tomadas localmente. Por causa disso, o jornalismo tem sido local e não há um modelo de negócios para os jornais locais nos EUA, quero dizer, parece que não existe ainda.” 

“Então a questão lá é: o que vai acontecer com o jornalismo local? O jornalismo nacional é apenas Trump o tempo todo, é o mais recente escândalo político que explode e se torna notícia por 48 horas.”  (...) Acho muito difícil para a Imprensa nos EUA saber o que fazer quando ela se torna alvo de um tipo particular de ataque político.” 

“Trump fez da Imprensa americana o seu inimigo. E suspeito que o novo Presidente brasileiro fará o mesmo, ou já fez. A questão é como você responde. (...) Você pode responder dizendo  - ‘não, nós não somos o inimigo, somos apenas jornalistas objectivos fazendo o nosso trabalho’, o que eu acho que é a escolha errada. Ou você diz que  - ‘na medida que o Presidente é contra ideais democráticos básicos, nós somos seus inimigos’.” 

“Isso é diferente de dizer que vamos tomar partido, que vamos apoiar os Democratas, Liberais ou o Partido dos Trabalhadores.”

Em última instância, segundo C.W. Anderson, todos os investigadores perseguem “uma grande pergunta que levará algumas décadas para ser respondida”. Interpelado sobre qual é a sua, responde: 

“Minha grande pergunta é: como sabemos o que sabemos para operar como cidadãos democráticos? E que tipos diferentes de profissões nos dizem o que sabemos e como nos dizem o que sabemos de diferentes maneiras? Essa é a minha grande questão.” 

“Como sabemos o que sabemos, o que não quer dizer ‘existe uma realidade?’, mas descobrir como diferentes tipos de instituições e pessoas operam de uma forma liberal democrática, como elas interagem. E o jornalismo é uma dessas instituições, uma das principais.” 

“Mas também a Academia e seus vizinhos, suas redes sociais. Então o jornalismo é realmente importante, mas também uma das coisas sobre minha própria pesquisa é que o jornalismo nunca foi o único foco. E considero isso um problema para os pesquisadores de jornalismo, eles se importam demasiadamente  - e somente -  com o jornalismo.” (...) 

“Não é incrível a quantidade de estudantes que querem fazer jornalismo e não gostam de conversar com pessoas? Todo ano isso me choca. Eu acho que a chave para ser jornalista é que você tem que gostar das pessoas. E isso é uma das coisas torna a etnografia e o jornalismo semelhantes.” 

“Em última instância, muitos académicos não gostam de pessoas também. A Academia é uma boa carreira se você não gosta de pessoas, porque pode ir à biblioteca e trabalhar sozinho. Mas se você quer fazer pesquisa etnográfica você tem que ser diferente, como um jornalista deveria ser.”

 

A entrevista aqui citada, na íntegra no Observatório da Imprensa do Brasil

Connosco
Literacia mediática como ferramenta contra desinformação Ver galeria

Para além da infecção provocada pelo novo coronavírus, identificado na China, estamos, agora, a assistir à disseminação indiscriminada de notícias falsas sobre o tema, conforme refere Ricardo Torres, num artigo publicado na revista “objETHOS”.

De acordo com Torres, o volume e a nocividade das informações propagadas através dos “media” digitais, são o reflexo de formatos comunicacionais imersos num “ecossistema” que favorece a desinformação.

Em temas sensíveis, como a saúde, os riscos da disseminação maciça de informações falsas são ampliados e podem, mesmo, conduzir ao caos social e a um estado de pânico generalizado. 

A OMS tem tentado evitar situações de pânico e insegurança, fortalecendo a posição científica, desmistificando rumores e esclarecendo dúvidas. No entanto, o cenário difuso e hiperbólico, fortalecido pelo sensacionalismo, torna a missão informativa confusa e complexa.

A era digital veio complicar a narrativa jornalística Ver galeria

A era digital e a revolução tecnológica vieram alterar o panorama do jornalismo. Se, anteriormente, os jornalistas apenas tinham de  preocupar-se com o conteúdo produzido na redacção onde trabalhavam, hoje, terão de manter-se competitivos com outras plataformas, e escrever com base nos artigos de outros jornais.

Muitos jornalistas, da chamada “velha guarda”, ainda não  conseguiram adaptar-se à nova realidade, e continuam a depender de uma cultura profissional baseada num jornalismo linear e sequencial, o que impede, por vezes, a tão desejada diversidade dos formatos de apresentação informativa.

O jornalista Carlos Castilho, especializado em “media” digitais, escreveu um artigo para o “Observatório da Imprensa”, no qual reflecte sobre a urgência de adaptação aos novos modelos. 

O Clube


Três jornais açorianos celebram este ano aniversários redondos. O Diário dos Açores completa século e meio de existência , o que é marcante. O Jornal dos Açores perfaz cem anos, outra vitória sobre o tempo. E o Açoriano Oriental , chega aos 185 anos , uma longevidade qualificada , que o coloca entre os diários mais antigos em publicação. A todos o Clube Português de Imprensa felicita , pela resistência e pelo mérito , numa época em que floresce a falta de memória nas redações. E associa-se neste site às respectivas efemérides.
Houve tempo em que os jornais se felicitavam com júbilo, e parabenizavam os concorrentes aniversariantes. Tempos idos. Agora , ignoram-se como se houvesse um deserto à volta de cada um.
Ser diário centenário num arquipélago de pouca gente, de onde tantos emigraram, e sobreviver em confronto com a agressividade da Internet e dos audiovisuais , é proeza de vulto.
São uma lição que merece relevo, cheia de ensinamentos para outros que desistiram antes de tempo.

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Opinião
Neste primeiro semestre, três jornais açorianos comemoram uma longevidade assinalável. Conforme se regista noutros espaços deste site, o Diário dos Açores acabou de completar século e meio de existência;  em Abril, será a vez do Açoriano Oriental,  o mais antigo, soprar 185 velas; e, finalmente em Maio, o Correio dos Açores alcança o seu primeiro centenário. Em tempo de crise na Imprensa,...
O volume de investimento publicitário na imprensa tem estado em queda, mas vários estudos indicam que os leitores de jornais e revistas continuam a ser influenciados pela publicidade que encontram nas páginas das publicações que consomem regularmente. Por outro lado a análise dos dados do mais recente estudo Bareme Impresa, da Marktest, revela que os indivíduos da classe alta têm níveis de audiência de imprensa 40% acima dos...
Graves ameaças à BBC News
Francisco Sarsfield Cabral
A BBC é, provavelmente, a referência mundial mais importante do jornalismo. Foi uma rádio muito ouvida em Portugal no tempo da ditadura, para conhecer notícias que a censura não deixava publicar. E mesmo depois do 25 de Abril, durante o chamado PREC (processo revolucionário em curso) também o recurso à BBC News por vezes dava jeito para obter uma informação não distorcida por ideologias políticas.Ora a BBC News...