Quarta-feira, 19 de Junho, 2019
Media

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

“O modo como os jornalistas guardam a memória das suas entrevistas parece dividir-se, de muitas formas, segundo linhas geracionais, com os antigos repórteres confiando mais nos seus blocos de notas e os mais novos dependendo dos gravadores  - que eram desajeitados e quase proibitivos, mas tornaram-se de uso corrente por volta do fim do séc. XX, com a chegada da tecnologia digital.” 

“Mas também depende das pessoas. Gay Talese, por exemplo [jornalista e autor, associado ao que se chama, nos EUA, literary journalism], opõe-se veementemente aos gravadores, e considera o seu uso generalizado como tendo sido a sentença de morte desse tipo de reportagem.” 

Mas explica, no seu depoimento, que repete a mesma pergunta várias vezes, para ter a certeza de compreender e recolher o entendimento exacto daquilo que o seu entrevistado queria dizer. 

Jill Abramson, que foi editora-chefe em The New York Times, afirma que nunca gravou uma entrevista em décadas de carreira. “Sou muito rápida a tomas notas”  - disse num questionário que lhe foi feito, e que teve por consequência uma chuva de críticas online, de quantos consideraram isto uma prova de negligência. 

Gustavo Aureliano, do Los Angeles Times, defende-a, perguntando  – “o que é que está errado nisso?” -  e diz de si próprio: 

“Quase nunca gravo entrevistas. Acho que é uma muleta de que muitos repórteres dependem, e que os impede de escutarem realmente o que a pessoa está a dizer, porque calculam que, já que fica tudo na gravação, não é preciso o incómodo de prestar cem por cento de atenção.” 

“Também não confio na tecnologia, e fico sempre com a paranóia de que a entrevista que gravei pode desaparecer.” (...) 

À semelhança de Jill Abramson, considera-se rápido a tomar notas. 

Hannah Dreier, que faz reportagem sobre imigração na ProPublica, explica que não grava as pessoas que lhe falam não oficialmente, ou lhe prestam informação assumindo que não serão identificadas pelo nome, porque  - como diz  - “descobri que os gravadores enervam as fontes”. 

Mas acrescenta que, depois de ter trabalhado com fact-checkers, numa revista, percebeu “como era realmente útil estar em condições de lhes mostrar gravações”. (...) 

“Algumas pessoas negaram ter falado comigo, ou negaram ter dito o que disseram, e provavelmente teríamos de cortar essa parte do relato se eu não estivesse em condições de dar as gravações aos fact-checkers. Agora procuro gravar tudo o que possa, a menos que tenha uma boa razão para não o fazer.” (...) 

O repórter de investigação Bryn Stole, do diário The Advocate, de New Orleans, explica que em muitas circunstâncias puxar de um gravador e pô-lo diante de uma pessoa “pode ser intimidante, acrescentando tensão à conversa, ou apagando uma voz potencialmente iluminadora, de um modo como uma simples caneta e bloco de notas não fazem”. 

Recorda também que os tribunais habitualmente proibem todo o tipo de electrónica no seu interior, “o que significa que temos de deixar os gravadores fechados no carro e confiar na caneta e no bloco para entrevistas de corredor com advogados, testemunhas e parentes”. 

Rex Reed, do semanário Observer, de Nova Iorque, conta a sua história dos dois lados: quando era mais novo confiava na sua “memória fotográfica” e ainda guarda os blocos de notas de muitas entrevistas que fez; mas à medida que foi avançando na idade começou a usar gravadores de fita: 

“Mas eram toscos, desconfortáveis, e era uma maçada ficar a escutá-los durante horas  - além de se acabar sempre a fita nos momentos mais importantes.” (...) 

Por segurança, Amanda Petrusich, da revista The New Yorker, leva dois gravadores, com baterias novas dentro do bolso. 

Lizzie Johnson, do San Francisco Chronicle, explica que grava as entrevistas, mas nem sempre volta a escutar tudo, porque vai tomando notas no gravador portátil ou num bloco. Mas volta atrás e escuta de novo quando se trata de ter a certeza dos termos usados de uma declaração importante. (...)

 

 

O texto aqui citado, na íntegra, na Columbia Journalism Review

Connosco
António Carrapatoso: concorrência distorcida em comunicação social fraca Ver galeria

O País “que vai a votos” não está bem, segundo António Carrapatoso, e a sua comunicação social também não está.
Nosso mais recente convidado, o gestor e empresário António Carrapatoso afirmou que o País “não está bem” porque a forma como a sociedade está organizada e funciona “não permite aproveitar e desenvolver as capacidades dos portugueses”.

Quanto à comunicação social que temos, definiu-a como “uma instituição fraca, que não cumpre suficientemente o seu papel do ponto de vista do interesse do cidadão” , por não ser suficentemente independente, inovadora e diversificada.
“A sua qualidade, acutilância, capacidade de investigação, de escrutínio e explicativa, estão aquém do desejável”  - disse.

Sobre as causas desta situação, a seguir à reduzida dimensão do mercado, apontou a “concorrência distorcida”, as deficiências da regulação e legislação e motivos de outra ordem:

Em sua opinião, não se faz mais para mudar porque “muitos partidos e líderes políticos estão contentes com a situação actual, não querem uma comunicação social verdadeiramente independente, investigadora, escrutinadora e qualificada”;  e ainda porque os próprios cidadãos “não ligam assim tanto à importância da comunicação social”  - motivo porque também "não fazem subscrições que poderiam fazer".
ERC aprova e Rádio Observador vai começar a emitir "muito em breve" Ver galeria

A Rádio Observador, cujo lançamento esteve previsto para a data do quinto aniversário do diário digital com o mesmo título, a 22 de Maio, vai finalmente entrar em funcionamento. Segundo notícia que citamos do jornal Observador, a transmissão será em 98.7 FM, na Grande Lisboa, “a curto prazo também no Porto e noutras zonas do país, e online”.

Conforme também aqui foi referido, o projecto já estava pronto naquela data, “faltando apenas o ‘visto’ da ERC, entidade à qual compete por lei autorizar a nova estação”. Poucos dias depois, a 28 de Maio, era assinada a Deliberação ERC/2019/150 [AUT-R], que autoriza as alterações solicitadas pela sociedade Observador on Time, S.A., para criar a Rádio Observador, a partir da antiga Rádio Baía – Sociedade de Radiodifusão, Lda.

A notícia do Observador não indica ainda a data exacta do início de emissão, mas conclui que “muito em breve teremos mais novidades. Estamos quase no ar.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
Sejam de direita ou de esquerda, há uma verdadeira inflação de políticos no activo - ou supostamente retirados - ,  “vestidos” de comentadores residentes nas televisões, com farto proveito. Alguns deles acumulam mesmo os “plateaux” com os microfones  da rádio ou as colunas de jornais, demonstrando  uma invejável capacidade de desdobramento. O objectivo comum a todos é, naturalmente,  pastorearem...
Ao longo do último ano os jornais britânicos The Times e The Sunday Times têm desenvolvido esforços consideráveis para conseguir manter os assinantes digitais que foram angariando ao longo do tempo. A renovação das assinaturas digitais é uma das crónicas dores de cabeça que os editores de publicações enfrentam, tanto mais que estudos recentes comprovam que uma sólida base de assinantes e leitores...
“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
Lançar notícias falsas sobre adversários políticos ou outros existe há séculos. Mas a internet deu às mentiras uma capacidade de difusão nunca antes vista.  Divulgar no espaço público notícias falsas (“fake news”) é hoje um problema que, com razão, preocupa muita gente. Mas não se pode considerar que este seja um problema novo. Claro que a internet e as redes sociais proporcionam...
Agenda
21
Jun
Social Media Day: Halifax
09:00 @ Halifax, Nova Escócia, Canadá
22
Jun
Google Analytics para Jornalistas
09:00 @ Cenjor, Lisboa
25
Jun
Big Day of Data
09:00 @ Savoy Place, Londres
02
Jul
The Children’s Media Conference
16:00 @ Sheffield,Reino Unido