Segunda-feira, 19 de Agosto, 2019
Media

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

“O modo como os jornalistas guardam a memória das suas entrevistas parece dividir-se, de muitas formas, segundo linhas geracionais, com os antigos repórteres confiando mais nos seus blocos de notas e os mais novos dependendo dos gravadores  - que eram desajeitados e quase proibitivos, mas tornaram-se de uso corrente por volta do fim do séc. XX, com a chegada da tecnologia digital.” 

“Mas também depende das pessoas. Gay Talese, por exemplo [jornalista e autor, associado ao que se chama, nos EUA, literary journalism], opõe-se veementemente aos gravadores, e considera o seu uso generalizado como tendo sido a sentença de morte desse tipo de reportagem.” 

Mas explica, no seu depoimento, que repete a mesma pergunta várias vezes, para ter a certeza de compreender e recolher o entendimento exacto daquilo que o seu entrevistado queria dizer. 

Jill Abramson, que foi editora-chefe em The New York Times, afirma que nunca gravou uma entrevista em décadas de carreira. “Sou muito rápida a tomas notas”  - disse num questionário que lhe foi feito, e que teve por consequência uma chuva de críticas online, de quantos consideraram isto uma prova de negligência. 

Gustavo Aureliano, do Los Angeles Times, defende-a, perguntando  – “o que é que está errado nisso?” -  e diz de si próprio: 

“Quase nunca gravo entrevistas. Acho que é uma muleta de que muitos repórteres dependem, e que os impede de escutarem realmente o que a pessoa está a dizer, porque calculam que, já que fica tudo na gravação, não é preciso o incómodo de prestar cem por cento de atenção.” 

“Também não confio na tecnologia, e fico sempre com a paranóia de que a entrevista que gravei pode desaparecer.” (...) 

À semelhança de Jill Abramson, considera-se rápido a tomar notas. 

Hannah Dreier, que faz reportagem sobre imigração na ProPublica, explica que não grava as pessoas que lhe falam não oficialmente, ou lhe prestam informação assumindo que não serão identificadas pelo nome, porque  - como diz  - “descobri que os gravadores enervam as fontes”. 

Mas acrescenta que, depois de ter trabalhado com fact-checkers, numa revista, percebeu “como era realmente útil estar em condições de lhes mostrar gravações”. (...) 

“Algumas pessoas negaram ter falado comigo, ou negaram ter dito o que disseram, e provavelmente teríamos de cortar essa parte do relato se eu não estivesse em condições de dar as gravações aos fact-checkers. Agora procuro gravar tudo o que possa, a menos que tenha uma boa razão para não o fazer.” (...) 

O repórter de investigação Bryn Stole, do diário The Advocate, de New Orleans, explica que em muitas circunstâncias puxar de um gravador e pô-lo diante de uma pessoa “pode ser intimidante, acrescentando tensão à conversa, ou apagando uma voz potencialmente iluminadora, de um modo como uma simples caneta e bloco de notas não fazem”. 

Recorda também que os tribunais habitualmente proibem todo o tipo de electrónica no seu interior, “o que significa que temos de deixar os gravadores fechados no carro e confiar na caneta e no bloco para entrevistas de corredor com advogados, testemunhas e parentes”. 

Rex Reed, do semanário Observer, de Nova Iorque, conta a sua história dos dois lados: quando era mais novo confiava na sua “memória fotográfica” e ainda guarda os blocos de notas de muitas entrevistas que fez; mas à medida que foi avançando na idade começou a usar gravadores de fita: 

“Mas eram toscos, desconfortáveis, e era uma maçada ficar a escutá-los durante horas  - além de se acabar sempre a fita nos momentos mais importantes.” (...) 

Por segurança, Amanda Petrusich, da revista The New Yorker, leva dois gravadores, com baterias novas dentro do bolso. 

Lizzie Johnson, do San Francisco Chronicle, explica que grava as entrevistas, mas nem sempre volta a escutar tudo, porque vai tomando notas no gravador portátil ou num bloco. Mas volta atrás e escuta de novo quando se trata de ter a certeza dos termos usados de uma declaração importante. (...)

 

 

O texto aqui citado, na íntegra, na Columbia Journalism Review

Connosco
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No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

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