Quinta-feira, 17 de Outubro, 2019
Media

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

“O modo como os jornalistas guardam a memória das suas entrevistas parece dividir-se, de muitas formas, segundo linhas geracionais, com os antigos repórteres confiando mais nos seus blocos de notas e os mais novos dependendo dos gravadores  - que eram desajeitados e quase proibitivos, mas tornaram-se de uso corrente por volta do fim do séc. XX, com a chegada da tecnologia digital.” 

“Mas também depende das pessoas. Gay Talese, por exemplo [jornalista e autor, associado ao que se chama, nos EUA, literary journalism], opõe-se veementemente aos gravadores, e considera o seu uso generalizado como tendo sido a sentença de morte desse tipo de reportagem.” 

Mas explica, no seu depoimento, que repete a mesma pergunta várias vezes, para ter a certeza de compreender e recolher o entendimento exacto daquilo que o seu entrevistado queria dizer. 

Jill Abramson, que foi editora-chefe em The New York Times, afirma que nunca gravou uma entrevista em décadas de carreira. “Sou muito rápida a tomas notas”  - disse num questionário que lhe foi feito, e que teve por consequência uma chuva de críticas online, de quantos consideraram isto uma prova de negligência. 

Gustavo Aureliano, do Los Angeles Times, defende-a, perguntando  – “o que é que está errado nisso?” -  e diz de si próprio: 

“Quase nunca gravo entrevistas. Acho que é uma muleta de que muitos repórteres dependem, e que os impede de escutarem realmente o que a pessoa está a dizer, porque calculam que, já que fica tudo na gravação, não é preciso o incómodo de prestar cem por cento de atenção.” 

“Também não confio na tecnologia, e fico sempre com a paranóia de que a entrevista que gravei pode desaparecer.” (...) 

À semelhança de Jill Abramson, considera-se rápido a tomar notas. 

Hannah Dreier, que faz reportagem sobre imigração na ProPublica, explica que não grava as pessoas que lhe falam não oficialmente, ou lhe prestam informação assumindo que não serão identificadas pelo nome, porque  - como diz  - “descobri que os gravadores enervam as fontes”. 

Mas acrescenta que, depois de ter trabalhado com fact-checkers, numa revista, percebeu “como era realmente útil estar em condições de lhes mostrar gravações”. (...) 

“Algumas pessoas negaram ter falado comigo, ou negaram ter dito o que disseram, e provavelmente teríamos de cortar essa parte do relato se eu não estivesse em condições de dar as gravações aos fact-checkers. Agora procuro gravar tudo o que possa, a menos que tenha uma boa razão para não o fazer.” (...) 

O repórter de investigação Bryn Stole, do diário The Advocate, de New Orleans, explica que em muitas circunstâncias puxar de um gravador e pô-lo diante de uma pessoa “pode ser intimidante, acrescentando tensão à conversa, ou apagando uma voz potencialmente iluminadora, de um modo como uma simples caneta e bloco de notas não fazem”. 

Recorda também que os tribunais habitualmente proibem todo o tipo de electrónica no seu interior, “o que significa que temos de deixar os gravadores fechados no carro e confiar na caneta e no bloco para entrevistas de corredor com advogados, testemunhas e parentes”. 

Rex Reed, do semanário Observer, de Nova Iorque, conta a sua história dos dois lados: quando era mais novo confiava na sua “memória fotográfica” e ainda guarda os blocos de notas de muitas entrevistas que fez; mas à medida que foi avançando na idade começou a usar gravadores de fita: 

“Mas eram toscos, desconfortáveis, e era uma maçada ficar a escutá-los durante horas  - além de se acabar sempre a fita nos momentos mais importantes.” (...) 

Por segurança, Amanda Petrusich, da revista The New Yorker, leva dois gravadores, com baterias novas dentro do bolso. 

Lizzie Johnson, do San Francisco Chronicle, explica que grava as entrevistas, mas nem sempre volta a escutar tudo, porque vai tomando notas no gravador portátil ou num bloco. Mas volta atrás e escuta de novo quando se trata de ter a certeza dos termos usados de uma declaração importante. (...)

 

 

O texto aqui citado, na íntegra, na Columbia Journalism Review

Connosco
Ser jornalista no México é tornar-se “correspondente de guerra sem sair da sua terra” Ver galeria

Marcela Turati foi reconhecida com o Prémio Maria Moors Cabot 2019, atribuído pela Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, pela sua excelência profissional e por promover, com as suas reportagens, um melhor entendimento interamericano.

É fundadora, com outros jornalistas, da rede Periodistas de a Pie e do portal de investigação Quinto Elemento Lab, colectivos que procuram defender a liberdade de expressão e apoiar o exercício do jornalismo em regiões pobres e perigosas.

A jornalista deu uma entrevista ao Knight Center, na qual falou do seu percurso profissional e das dificuldades enfrentadas no México para o exercício da profissão.
Para Turati, ser jornalista no país é um “desafio constante” e uma responsabilidade, equivalente a tornar-se “correspondente de guerra sem sair da sua terra”.

Desde 2008, que cobre casos de vítimas de violência, lidando regularmente com pessoas que têm familiares desaparecidos, testemunhas de massacres, entre outros. Como profissional, procura cobrir a violência a partir de uma abordagem de direitos humanos e o seu objectivo é continuar a contar estas histórias sem as normalizar.

O Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual o CPI tem um acordo de parceria, publicou a entrevista com a jornalista no seu site.

Jornalistas deverão estar prevenidos para identificar e corrigir notícias falsas... Ver galeria

Existem várias lacunas na pesquisa de desinformação política e os debates contínuos sobre o que constitui as fake news e a sua classificação acabam por ser uma distracção, desviando as atenções das “questões críticas” relacionadas com o problema.

É importante reconhecer que as fake news existem, que estamos expostos a essas falsas informações, mas, se quisermos combatê-las, é indispensável procurar a sua origem, a sua forma de disseminação e analisar as consequências sociais e políticas.

É, ainda, imprescindível que os jornalistas estejam preparados e informados para não colaborarem na propagação deste tipo de informação.

Por vezes, o objectivo que se esconde em algumas fake news é que os media acabem por disseminá-las, acelerando a sua difusão. Por esse motivo, foi identificado o chamado “ponto de inflexão”, que representa o momento em que a história deixa de ser partilhada exclusivamente em “nichos” e acaba por atingir uma dimensão maior, alcançando várias comunidades. 

A jornalista Laura Hazard Owen abordou o tema num texto publicado no NiemanLab, no qual também faz referências à melhor forma de reconhecer os de conteúdos manipulados.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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