Quarta-feira, 11 de Dezembro, 2019
Media

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

“O modo como os jornalistas guardam a memória das suas entrevistas parece dividir-se, de muitas formas, segundo linhas geracionais, com os antigos repórteres confiando mais nos seus blocos de notas e os mais novos dependendo dos gravadores  - que eram desajeitados e quase proibitivos, mas tornaram-se de uso corrente por volta do fim do séc. XX, com a chegada da tecnologia digital.” 

“Mas também depende das pessoas. Gay Talese, por exemplo [jornalista e autor, associado ao que se chama, nos EUA, literary journalism], opõe-se veementemente aos gravadores, e considera o seu uso generalizado como tendo sido a sentença de morte desse tipo de reportagem.” 

Mas explica, no seu depoimento, que repete a mesma pergunta várias vezes, para ter a certeza de compreender e recolher o entendimento exacto daquilo que o seu entrevistado queria dizer. 

Jill Abramson, que foi editora-chefe em The New York Times, afirma que nunca gravou uma entrevista em décadas de carreira. “Sou muito rápida a tomas notas”  - disse num questionário que lhe foi feito, e que teve por consequência uma chuva de críticas online, de quantos consideraram isto uma prova de negligência. 

Gustavo Aureliano, do Los Angeles Times, defende-a, perguntando  – “o que é que está errado nisso?” -  e diz de si próprio: 

“Quase nunca gravo entrevistas. Acho que é uma muleta de que muitos repórteres dependem, e que os impede de escutarem realmente o que a pessoa está a dizer, porque calculam que, já que fica tudo na gravação, não é preciso o incómodo de prestar cem por cento de atenção.” 

“Também não confio na tecnologia, e fico sempre com a paranóia de que a entrevista que gravei pode desaparecer.” (...) 

À semelhança de Jill Abramson, considera-se rápido a tomar notas. 

Hannah Dreier, que faz reportagem sobre imigração na ProPublica, explica que não grava as pessoas que lhe falam não oficialmente, ou lhe prestam informação assumindo que não serão identificadas pelo nome, porque  - como diz  - “descobri que os gravadores enervam as fontes”. 

Mas acrescenta que, depois de ter trabalhado com fact-checkers, numa revista, percebeu “como era realmente útil estar em condições de lhes mostrar gravações”. (...) 

“Algumas pessoas negaram ter falado comigo, ou negaram ter dito o que disseram, e provavelmente teríamos de cortar essa parte do relato se eu não estivesse em condições de dar as gravações aos fact-checkers. Agora procuro gravar tudo o que possa, a menos que tenha uma boa razão para não o fazer.” (...) 

O repórter de investigação Bryn Stole, do diário The Advocate, de New Orleans, explica que em muitas circunstâncias puxar de um gravador e pô-lo diante de uma pessoa “pode ser intimidante, acrescentando tensão à conversa, ou apagando uma voz potencialmente iluminadora, de um modo como uma simples caneta e bloco de notas não fazem”. 

Recorda também que os tribunais habitualmente proibem todo o tipo de electrónica no seu interior, “o que significa que temos de deixar os gravadores fechados no carro e confiar na caneta e no bloco para entrevistas de corredor com advogados, testemunhas e parentes”. 

Rex Reed, do semanário Observer, de Nova Iorque, conta a sua história dos dois lados: quando era mais novo confiava na sua “memória fotográfica” e ainda guarda os blocos de notas de muitas entrevistas que fez; mas à medida que foi avançando na idade começou a usar gravadores de fita: 

“Mas eram toscos, desconfortáveis, e era uma maçada ficar a escutá-los durante horas  - além de se acabar sempre a fita nos momentos mais importantes.” (...) 

Por segurança, Amanda Petrusich, da revista The New Yorker, leva dois gravadores, com baterias novas dentro do bolso. 

Lizzie Johnson, do San Francisco Chronicle, explica que grava as entrevistas, mas nem sempre volta a escutar tudo, porque vai tomando notas no gravador portátil ou num bloco. Mas volta atrás e escuta de novo quando se trata de ter a certeza dos termos usados de uma declaração importante. (...)

 

 

O texto aqui citado, na íntegra, na Columbia Journalism Review

Connosco
A cientista Fabiola Gianotti recebeu Prémio Helena Vaz da Silva Ver galeria

O Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian acolheu novamente a cerimónia de entrega do  Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, atribuído , este ano, a Fabiola Gianotti,  cientista italiana em Física de partículas e primeira mulher nomeada directora-geral do Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN), por ter contribuido para a divulgação da cultura científica de uma forma atractiva e acessível.

Este Prémio Europeu,  instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura (CNC) em cooperação com a  Europa Nostra e o Clube Português de Imprensa (CPI)  recorda a jornalista portuguesa, escritora, activista cultural e política (1939 – 2002), e a sua notável contribuição para a divulgação do património cultural e dos ideais europeus. 

É atribuído anualmente a um cidadão europeu, cuja carreira se tenha distinguido pela difusão, defesa, e promoção do património cultural da Europa, quer através de obras literárias e musicais, quer através de reportagens, artigos, crónicas, fotografias, cartoons, documentários, filmes de ficção e programas de rádio e/ou televisão.

O Prémio conta com o apoio do Ministério da Cultura, da Fundação Calouste Gulbenkian e do Turismo de Portugal.

Controlo de informação agrava-se e contamina vários países Ver galeria

A China e a Rússia utilizam técnicas de controlo de informação invasivos, desde as comunicações privadas dos cidadãos à censura. 

O uso de sistemas tecnológicos autoritários, por actores estatais, com o objectivo de diminuir os direitos humanos fundamentais dos cidadãos é algo que ultrapassa todos os limites. 

Valentin Weber, do Programa de Bolsas de Estudo de Controlo de Informações do Fundo Aberto de Tecnologia, decidiu realizar uma análise sistemática dos seus drivers e obteve sintomáti cos resultados. 

Através da pesquisa, Valentin descobriu que, até ao momento, mais de cem países compraram, imitaram ou receberam treino em controlo de informação da China e da Rússia.

Verificou, ainda,  casos de países cujos objectivos de controlo e monitorização da informação são semelhantes, como a Venezuela, o Egipto e Myanmar. 

Na lista surgiram, também, países possivelmente menos suspeitos, nos quais a conectividade se está a expandir, como Sudão, Uganda e Zimbábue; várias democracias ocidentais, como Alemanha, França e Holanda; e até mesmo pequenas nações como Trinidad e Tobago. 

“Ao todo, foram detectados 110 países  com tecnologia de vigilância ou censura importada da Rússia ou da China”, refere o artigo da OpenTechnology Fund, publicado no Global Investigative Journalism Network.

O Clube

Este site do Clube, lançado em Novembro de 2016, e com  actividade regular desde então, tem-se afirmado tanto como roteiro do que acontece de novo na paisagem mediática, como ainda no aprofundamento do debate sobre as questões mais relevantes do jornalismo, além do acompanhamento e divulgação das iniciativas do CPI.

O resultado deste esforço tem sido notório, com a fixação de um crescente número de visitantes, oriundos de uma alargada panóplia de países, com relevo para os de língua portuguesa, facto que é muito estimulante e encorajador. 


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