Sábado, 20 de Abril, 2019
Media

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

“O facto de alguns leitores cancelarem a assinatura pela publicação de um exclusivo que afecta uma ministra de determinado partido político é uma má notícia. Em primeiro lugar, porque implica pôr a política na frente, para deixar em segundo lugar a verdade. Implica dar maior credibilidade a uma pessoa, que alegadamente fez algo de mal, do que ao meio de comunicação encarregado de o investigar e publicar.” 

Segundo o texto que citamos, de Media-tics, o jornal eldiario.es já tinha revelado que a ex-presidente Cristina Cifuentes, da Comunidade Autónoma de Madrid, ostentava no seu currículo um mestrado obtido de modo irregular. Mas quando procedeu de modo semelhante em relação a uma ministra do PSOE teve baixas entre os assinantes. 

“O curioso deste caso é que o mesmo diário de Ignacio Escolar reuniu dez mil assinantes en poucos meses, os da sua frenética ‘Primavera’ de reportagens exclusivas sobre mestrados alegadamente fraudulentos, nascidos numa Universidade pública que também soube pela Imprensa do que estava a acontecer.” 

“Agora, e depois de lermos as palavras de Escolar, não sabemos quantos daqueles assinantes (uns seis mil) vieram porque o primeiro exclusivo afectava exclusivamente a Cristina Cifuentes, que era então presidente da Comunidade de Madrid e política do Partido Popular, e quantos o fizeram para animar os jornalistas de eldiario.es a continuarem a destapar, sem quererem saber da cor.” 

“Outros quatro mil chegaram depois dos exclusivos sobre Pablo Casado e Carmen Montón, ainda que esta última (literalmente, porque depois dela não vieram mais) fora a que fizera perder, em paralelo e entre queixas de alguns assinantes.” (...) 

Segundo Miguel Ossorio Vega, autor do artigo que citamos, “agora é difícil saber por que motivo alguém se torna assinante de um meio de comunicação”: 

“Já não sabemos se por detrás de um leitor que paga há uma pessoa que procura que lhe contem a verdade, ou uma pessoa que procura quem lhe conte a sua verdade. Não sabemos se querem que lhes abram os olhos ou que lhos mantenham fechados.” 

“Não sabemos se essa assinatura mensal está realmente a apoiar um meio de comunicação para que funcione como correia de transmissão de um partido político em particular. Se for assim, o meu humilde conselho é que esses 60 euros anuais sejam directamente destinados a pagar a quota do partido em questão.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra em Media-tics, que inclui também o link para o vídeo da entrevista com Iñaki Gabilondo.

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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