Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Media

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

“O facto de alguns leitores cancelarem a assinatura pela publicação de um exclusivo que afecta uma ministra de determinado partido político é uma má notícia. Em primeiro lugar, porque implica pôr a política na frente, para deixar em segundo lugar a verdade. Implica dar maior credibilidade a uma pessoa, que alegadamente fez algo de mal, do que ao meio de comunicação encarregado de o investigar e publicar.” 

Segundo o texto que citamos, de Media-tics, o jornal eldiario.es já tinha revelado que a ex-presidente Cristina Cifuentes, da Comunidade Autónoma de Madrid, ostentava no seu currículo um mestrado obtido de modo irregular. Mas quando procedeu de modo semelhante em relação a uma ministra do PSOE teve baixas entre os assinantes. 

“O curioso deste caso é que o mesmo diário de Ignacio Escolar reuniu dez mil assinantes en poucos meses, os da sua frenética ‘Primavera’ de reportagens exclusivas sobre mestrados alegadamente fraudulentos, nascidos numa Universidade pública que também soube pela Imprensa do que estava a acontecer.” 

“Agora, e depois de lermos as palavras de Escolar, não sabemos quantos daqueles assinantes (uns seis mil) vieram porque o primeiro exclusivo afectava exclusivamente a Cristina Cifuentes, que era então presidente da Comunidade de Madrid e política do Partido Popular, e quantos o fizeram para animar os jornalistas de eldiario.es a continuarem a destapar, sem quererem saber da cor.” 

“Outros quatro mil chegaram depois dos exclusivos sobre Pablo Casado e Carmen Montón, ainda que esta última (literalmente, porque depois dela não vieram mais) fora a que fizera perder, em paralelo e entre queixas de alguns assinantes.” (...) 

Segundo Miguel Ossorio Vega, autor do artigo que citamos, “agora é difícil saber por que motivo alguém se torna assinante de um meio de comunicação”: 

“Já não sabemos se por detrás de um leitor que paga há uma pessoa que procura que lhe contem a verdade, ou uma pessoa que procura quem lhe conte a sua verdade. Não sabemos se querem que lhes abram os olhos ou que lhos mantenham fechados.” 

“Não sabemos se essa assinatura mensal está realmente a apoiar um meio de comunicação para que funcione como correia de transmissão de um partido político em particular. Se for assim, o meu humilde conselho é que esses 60 euros anuais sejam directamente destinados a pagar a quota do partido em questão.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra em Media-tics, que inclui também o link para o vídeo da entrevista com Iñaki Gabilondo.

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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21
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09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
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