null, 19 de Maio, 2019
Media

Jornalismo precisa de "revisão radical de rotinas, normas e valores"

A observação crítica da Imprensa é neste momento posta à prova por dois fenómenos de efeito cumulativo: por um lado, a digitalização e globalização levaram ao seu limite as capacidades do jornalismo convencional; por outro, a explosão das redes sociais traduz-se numa omnipresença crescente das fake news.

Esta “dupla pressão sobre o jornalismo”, uma limitando a capacidade de atendimento da procura de notícias, e a outra ampliando a mesma procura “por meio de uma vertiginosa inclusão de novos leitores”, leva a profissão à “necessidade de uma revisão radical das suas rotinas, normas e valores”.

Cabe agora aos Observatórios da Imprensa a difícil função de meta-fact-checking  - isto é, a de verificação dos verificadores de factos.

A reflexão é de Carlos Castilho, pesquisador associado do ObjEthos, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

“O maior problema é que esta necessidade surge [precisamente] no momento em que são cada vez maiores os obstáculos materiais para viabilizar uma reflexão sobre os rumos da actividade jornalística no mundo inteiro.” 

“As empresas jornalísticas mal conseguem tempo e recursos para buscar sua sobrevivência enquanto as universidades e instituições de pesquisas sofrem pressões financeiras de todos os tipos, o que acaba reforçando a resistência à mudança e à busca de novos paradigmas.” 

Como recorda o autor, os Observatórios da Imprensa “conquistaram uma grande credibilidade, fruto do monitoramento crítico dos media nos tempos pré-Internet, quando a concentração em poucas empresas permitia um mínimo de acompanhamento sistemático dos conteúdos jornalísticos publicados”. 

Depois da revolução digital, “a crise valorizou o papel do monitoramento crítico, mas, ao mesmo tempo, criou dificuldades ainda maiores para que os observatórios cumpram a sua função”. 

“Tanto o exercício quotidiano do jornalismo em ambiente digital como a performance dos observatórios foram drasticamente afectados pela explosão do fenómeno das notícias falsas, responsáveis pelo agravamento da crise de credibilidade pública na Imprensa e no jornalismo.” 

“Tentando neutralizar o descrédito, mais de 150 projectos de combate às fake news foram lançados em pelo menos 40 países diferentes, mas o que foi apresentado como uma tábua de salvação acabou também sendo contaminado pelo vírus da dúvida, quando políticos e movimentos ideológicos politizaram o combate à disseminação de notícias falsas.” (...) 

Carlos Castilho refere-se a seguir à experiência em verificação da veracidade das notícias desenvolvida nos EUA, citando a tese Lucas Graves (Deciding what’s true: Fact checking journalism and the new ecology of news), segundo o qual as três etapas mais importantes do processo de “checagem” de notícias são: a selecção do material a ser verificado, os procedimentos metodológicos usados e a avaliação dos níveis de credibilidade. (...) 

O autor descreve então a história recente das principais instituições de fact-checking conhecidas, nos Estados Unidos e no Brasil, chamando a atenção para o modo como procuram responder à questão da “subjectividade imanente a cada actor ou agente envolvido no processo”. (...) 

“O Instituto Reynolds de Jornalismo, da Universidade do Missouri, nos Estados Unidos, fez um estudo envolvendo três dos principais institutos de ‘checagem’ de factos do país e concluiu que o processo de avaliação de credibilidade é mais complicado e subjectivo do que seus pesquisadores imaginavam antes de iniciar o projecto.” 

“A principal constatação foi a de que os resultados sobre um mesmo dado, declaração ou evento, podem variar conforme o método adoptado, contrariando a expectativa de grande parte do público, que deseja resultados definitivos.” 

“Para os verificadores, a mais eficiente forma de reduzir o índice de subjectividade em produtos jornalísticos é confrontá-los com outras percepções diferentes, mas nem isto é capaz de gerar certezas ou respostas tipo certo ou errado. Os próprios Institutos reconhecem esta dificuldade, porque adoptam um sistema intermediário entre verdade e mentira, criando categorias como duvidoso, incompleto, exagerado ou contraditório.” 

“O reconhecimento de que a análise crítica comparativa da ‘checagem’ de notícias é o melhor caminho para reduzir a subjectividade dos resultados confere aos Observatórios da Imprensa um novo e relevante papel nos media contemporâneos. Os próprios Institutos e projectos de fact checking admitem a importância da ‘meta-checagem’ e falta agora a iniciativa dos observatórios de preencher esta lacuna.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra no Observatório da Imprensa

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Francisco George no ciclo "Portugal: que País vai a votos?" Ver galeria
O próximo orador convidado do ciclo "Portugal: que País vai a votos?", a 21 de Maio, será Francisco George, um prestigiado médico, especialista em Saúde Pública, actual presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, empossado em finais de 2017, após ter desempenhado as funções de director-geral da Saúde, a partir de 2005 e durante mais de uma década.
O ciclo é promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de cultura e o Grémio Literário.
Francisco Henrique Moura George, nascido em Lisboa a 21 de Outubro de 2947, frequentou, de acordo com a sua biografia oficial, o Colégio Valsassina.
Licenciado em Medicina, com Distinção, pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa em 1973, foi interno de Medicina Interna dos Hospitais Civis de Lisboa no Hospital de Santa Marta e completou, em 1977, o Curso de Saúde Pública na Escola Nacional de Saúde Pública de Lisboa, tornando-se especialista em Saúde Pública.
Meio século depois da alunagem o valor do jornalismo científico Ver galeria

Vai fazer 50 anos, no dia 20 de Julho, a primeira descida de uma nave com tripulação humana sobre a superfície da Lua. Seis horas depois da alunagem, já a 21, o comandante Neil Armstrong foi o primiro homem a pisar o solo do nosso satélite. O sucesso da missão Apollo 11, e das outras cinco missões lunares que a seguiram, teve um enorme impacto sobre a Humanidade.

“Do ponto de vista mediático, o colossal interesse público que o voo da Apollo 11 suscitou  — estima-se que um em cada seis habitantes do planeta assistiu pela TV ao momento em que Neil Armstrong desceu lentamente pela escada do módulo lunar até pousar os pés na superfície do satélite —  consolidou um público ávido por acompanhar a exploração do espaço.”

Cinquenta anos depois, as perspectivas de colonização do Sistema Solar continuam distantes, e a cobertura de astronomia e exploração espacial teve de mudar muito. “Mas, para quem tem o coração nas estrelas, continua sendo uma actividade apaixonante.”

A reflexão é de Pablo Nogueira, jornalista e editor da Scientific American Brasil, membro da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência. No Observatório da Imprensa, com o qual mantemos um acordo de parceria.

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Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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