Sábado, 17 de Agosto, 2019
Media

Jornalismo precisa de "revisão radical de rotinas, normas e valores"

A observação crítica da Imprensa é neste momento posta à prova por dois fenómenos de efeito cumulativo: por um lado, a digitalização e globalização levaram ao seu limite as capacidades do jornalismo convencional; por outro, a explosão das redes sociais traduz-se numa omnipresença crescente das fake news.

Esta “dupla pressão sobre o jornalismo”, uma limitando a capacidade de atendimento da procura de notícias, e a outra ampliando a mesma procura “por meio de uma vertiginosa inclusão de novos leitores”, leva a profissão à “necessidade de uma revisão radical das suas rotinas, normas e valores”.

Cabe agora aos Observatórios da Imprensa a difícil função de meta-fact-checking  - isto é, a de verificação dos verificadores de factos.

A reflexão é de Carlos Castilho, pesquisador associado do ObjEthos, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

“O maior problema é que esta necessidade surge [precisamente] no momento em que são cada vez maiores os obstáculos materiais para viabilizar uma reflexão sobre os rumos da actividade jornalística no mundo inteiro.” 

“As empresas jornalísticas mal conseguem tempo e recursos para buscar sua sobrevivência enquanto as universidades e instituições de pesquisas sofrem pressões financeiras de todos os tipos, o que acaba reforçando a resistência à mudança e à busca de novos paradigmas.” 

Como recorda o autor, os Observatórios da Imprensa “conquistaram uma grande credibilidade, fruto do monitoramento crítico dos media nos tempos pré-Internet, quando a concentração em poucas empresas permitia um mínimo de acompanhamento sistemático dos conteúdos jornalísticos publicados”. 

Depois da revolução digital, “a crise valorizou o papel do monitoramento crítico, mas, ao mesmo tempo, criou dificuldades ainda maiores para que os observatórios cumpram a sua função”. 

“Tanto o exercício quotidiano do jornalismo em ambiente digital como a performance dos observatórios foram drasticamente afectados pela explosão do fenómeno das notícias falsas, responsáveis pelo agravamento da crise de credibilidade pública na Imprensa e no jornalismo.” 

“Tentando neutralizar o descrédito, mais de 150 projectos de combate às fake news foram lançados em pelo menos 40 países diferentes, mas o que foi apresentado como uma tábua de salvação acabou também sendo contaminado pelo vírus da dúvida, quando políticos e movimentos ideológicos politizaram o combate à disseminação de notícias falsas.” (...) 

Carlos Castilho refere-se a seguir à experiência em verificação da veracidade das notícias desenvolvida nos EUA, citando a tese Lucas Graves (Deciding what’s true: Fact checking journalism and the new ecology of news), segundo o qual as três etapas mais importantes do processo de “checagem” de notícias são: a selecção do material a ser verificado, os procedimentos metodológicos usados e a avaliação dos níveis de credibilidade. (...) 

O autor descreve então a história recente das principais instituições de fact-checking conhecidas, nos Estados Unidos e no Brasil, chamando a atenção para o modo como procuram responder à questão da “subjectividade imanente a cada actor ou agente envolvido no processo”. (...) 

“O Instituto Reynolds de Jornalismo, da Universidade do Missouri, nos Estados Unidos, fez um estudo envolvendo três dos principais institutos de ‘checagem’ de factos do país e concluiu que o processo de avaliação de credibilidade é mais complicado e subjectivo do que seus pesquisadores imaginavam antes de iniciar o projecto.” 

“A principal constatação foi a de que os resultados sobre um mesmo dado, declaração ou evento, podem variar conforme o método adoptado, contrariando a expectativa de grande parte do público, que deseja resultados definitivos.” 

“Para os verificadores, a mais eficiente forma de reduzir o índice de subjectividade em produtos jornalísticos é confrontá-los com outras percepções diferentes, mas nem isto é capaz de gerar certezas ou respostas tipo certo ou errado. Os próprios Institutos reconhecem esta dificuldade, porque adoptam um sistema intermediário entre verdade e mentira, criando categorias como duvidoso, incompleto, exagerado ou contraditório.” 

“O reconhecimento de que a análise crítica comparativa da ‘checagem’ de notícias é o melhor caminho para reduzir a subjectividade dos resultados confere aos Observatórios da Imprensa um novo e relevante papel nos media contemporâneos. Os próprios Institutos e projectos de fact checking admitem a importância da ‘meta-checagem’ e falta agora a iniciativa dos observatórios de preencher esta lacuna.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra no Observatório da Imprensa

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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