Sábado, 25 de Maio, 2019
Media

Jornalistas não aguentam mais ser tratados como "canivetes suíços"

Metade dos jornalistas franceses entrevistados para um inquérito da Technologia, um gabinete especializado em doenças profissionais, afirma que a carga de trabalho aumentou muito nos últimos cinco anos, sobretudo pelo desenvolvimento do digital e a multiplicidade dos suportes utilizados. “Obrigados a trabalhar depressa, muitos não têm tempo de verificar correctamente as suas fontes (56% reconhecem que raramente têm tempo de o fazer) e 50% trabalham entre 40 e 50 horas por semana.”

Chamados a fazer texto escrito, vídeo, paginação, os jornalistas das redacçõs digitais são tratados como “canivetes suíços”, e essa multiplicação de competências não é preparada por uma formação  -  explica Jean-Claude Delgènes, o presidente da Technologia.

A jornalista Audrey Kucinskas, de L’Express, que em Janeiro tinha tratado este tema do ponto de vista da depressão e do abandono crescente da profissão mesmo por jovens jornalistas, recorre agora aos dados do terceiro relatório da Technologia, revelados a 8 de Março pela revista Marianne  - e volta a ouvir o seu presidente.

Este relatório, que assenta sobre uma sondagem realizada junto de 1056 pessoas, conta que os jornalistas franceses estão mal, “seja porque trabalham muito, ou porque são precários, ou não são considerados pela sua hierararquia, ou porque vivem sob uma pressão permanente”. 

“Há uma intensificação do trabalho e um aumento da respectiva amplitude. Isso vê-se bem no estudo: 8% trabalham menos do que a média, 20% trabalham normalmente, e todos os restantes trabalham mais do que é previsto, com 20% a fazerem mais de 50 horas por semana. É enorme!”  - explica Jean-Claude Delgènes. 

Recorde-se que, acima das 55 horas, o risco de AVC é agravado  - segundo um estudo da revista médica britânica The Lancet, de 2015. 

As multi-competências exigidas acabam por fazer uma discriminação etária: 

“Há uma pressão enorme sobre sobre os mais velhos  - que são mais bem pagos -  porque não têm a mesma agilidade no digital. São frequentemente forçados a sair, para aliviar a carga salarial.” 

E tudo se passa com uma hierarquia que raramente escuta: “dois terços dos jornalistas não se sentiram apoiados pelos superiores, em caso de pressão vivida no seu ambiente de trabalho, e 42% acham que o seu emprego está ameaçado, pelo digital ou pelas agências de conteúdos.” 

Os freelancers, que são mais de metade (57,1%), segundo este estudo, não passam melhor: atrasos de pagamento, por vezes mesmo não pagamento, baixa injustificada do montante da peça, pressão das redacções para passarem ao estatuto de empresários independentes [autoentrepeneurs, no original]. 

“Quando se pede aos jornalistas que passem ao estatuto de autoentrepeneur”  - explica Delgènes -  “é muito simples: as redacções ficam sem qualquer encargo, podem romper o contrato sempre que queiram, porque transformam uma relação salarial numa relação comercial...” 

Os jornalistas acabam por se desgastar, mentalmente e fisicamente: 

“As pessoas reagem bebendo muito café, tomando suplementos, tudo isto para aguentar  - quando não querem desistir”  - lamenta. 

“Não é, com efeito, por pouco motivo que 37% dos jornalistas estão à procura de outro emprego, e 16,8% deles para deixarem de vez a profissão.” (...)

 

O texto aqui citado, na íntegra em L’Expresse o estudo referido na Marianne 
Sobre esgotamento no local de trabalho, mais informação na WAN-IFRA  e no Health & Happiness Center, cuja imagem aqui reproduzimos

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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