Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
Media

Jornalistas não aguentam mais ser tratados como "canivetes suíços"

Metade dos jornalistas franceses entrevistados para um inquérito da Technologia, um gabinete especializado em doenças profissionais, afirma que a carga de trabalho aumentou muito nos últimos cinco anos, sobretudo pelo desenvolvimento do digital e a multiplicidade dos suportes utilizados. “Obrigados a trabalhar depressa, muitos não têm tempo de verificar correctamente as suas fontes (56% reconhecem que raramente têm tempo de o fazer) e 50% trabalham entre 40 e 50 horas por semana.”

Chamados a fazer texto escrito, vídeo, paginação, os jornalistas das redacçõs digitais são tratados como “canivetes suíços”, e essa multiplicação de competências não é preparada por uma formação  -  explica Jean-Claude Delgènes, o presidente da Technologia.

A jornalista Audrey Kucinskas, de L’Express, que em Janeiro tinha tratado este tema do ponto de vista da depressão e do abandono crescente da profissão mesmo por jovens jornalistas, recorre agora aos dados do terceiro relatório da Technologia, revelados a 8 de Março pela revista Marianne  - e volta a ouvir o seu presidente.

Este relatório, que assenta sobre uma sondagem realizada junto de 1056 pessoas, conta que os jornalistas franceses estão mal, “seja porque trabalham muito, ou porque são precários, ou não são considerados pela sua hierararquia, ou porque vivem sob uma pressão permanente”. 

“Há uma intensificação do trabalho e um aumento da respectiva amplitude. Isso vê-se bem no estudo: 8% trabalham menos do que a média, 20% trabalham normalmente, e todos os restantes trabalham mais do que é previsto, com 20% a fazerem mais de 50 horas por semana. É enorme!”  - explica Jean-Claude Delgènes. 

Recorde-se que, acima das 55 horas, o risco de AVC é agravado  - segundo um estudo da revista médica britânica The Lancet, de 2015. 

As multi-competências exigidas acabam por fazer uma discriminação etária: 

“Há uma pressão enorme sobre sobre os mais velhos  - que são mais bem pagos -  porque não têm a mesma agilidade no digital. São frequentemente forçados a sair, para aliviar a carga salarial.” 

E tudo se passa com uma hierarquia que raramente escuta: “dois terços dos jornalistas não se sentiram apoiados pelos superiores, em caso de pressão vivida no seu ambiente de trabalho, e 42% acham que o seu emprego está ameaçado, pelo digital ou pelas agências de conteúdos.” 

Os freelancers, que são mais de metade (57,1%), segundo este estudo, não passam melhor: atrasos de pagamento, por vezes mesmo não pagamento, baixa injustificada do montante da peça, pressão das redacções para passarem ao estatuto de empresários independentes [autoentrepeneurs, no original]. 

“Quando se pede aos jornalistas que passem ao estatuto de autoentrepeneur”  - explica Delgènes -  “é muito simples: as redacções ficam sem qualquer encargo, podem romper o contrato sempre que queiram, porque transformam uma relação salarial numa relação comercial...” 

Os jornalistas acabam por se desgastar, mentalmente e fisicamente: 

“As pessoas reagem bebendo muito café, tomando suplementos, tudo isto para aguentar  - quando não querem desistir”  - lamenta. 

“Não é, com efeito, por pouco motivo que 37% dos jornalistas estão à procura de outro emprego, e 16,8% deles para deixarem de vez a profissão.” (...)

 

O texto aqui citado, na íntegra em L’Expresse o estudo referido na Marianne 
Sobre esgotamento no local de trabalho, mais informação na WAN-IFRA  e no Health & Happiness Center, cuja imagem aqui reproduzimos

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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