Segunda-feira, 25 de Março, 2019
Media

Jornalistas não aguentam mais ser tratados como "canivetes suíços"

Metade dos jornalistas franceses entrevistados para um inquérito da Technologia, um gabinete especializado em doenças profissionais, afirma que a carga de trabalho aumentou muito nos últimos cinco anos, sobretudo pelo desenvolvimento do digital e a multiplicidade dos suportes utilizados. “Obrigados a trabalhar depressa, muitos não têm tempo de verificar correctamente as suas fontes (56% reconhecem que raramente têm tempo de o fazer) e 50% trabalham entre 40 e 50 horas por semana.”

Chamados a fazer texto escrito, vídeo, paginação, os jornalistas das redacçõs digitais são tratados como “canivetes suíços”, e essa multiplicação de competências não é preparada por uma formação  -  explica Jean-Claude Delgènes, o presidente da Technologia.

A jornalista Audrey Kucinskas, de L’Express, que em Janeiro tinha tratado este tema do ponto de vista da depressão e do abandono crescente da profissão mesmo por jovens jornalistas, recorre agora aos dados do terceiro relatório da Technologia, revelados a 8 de Março pela revista Marianne  - e volta a ouvir o seu presidente.

Este relatório, que assenta sobre uma sondagem realizada junto de 1056 pessoas, conta que os jornalistas franceses estão mal, “seja porque trabalham muito, ou porque são precários, ou não são considerados pela sua hierararquia, ou porque vivem sob uma pressão permanente”. 

“Há uma intensificação do trabalho e um aumento da respectiva amplitude. Isso vê-se bem no estudo: 8% trabalham menos do que a média, 20% trabalham normalmente, e todos os restantes trabalham mais do que é previsto, com 20% a fazerem mais de 50 horas por semana. É enorme!”  - explica Jean-Claude Delgènes. 

Recorde-se que, acima das 55 horas, o risco de AVC é agravado  - segundo um estudo da revista médica britânica The Lancet, de 2015. 

As multi-competências exigidas acabam por fazer uma discriminação etária: 

“Há uma pressão enorme sobre sobre os mais velhos  - que são mais bem pagos -  porque não têm a mesma agilidade no digital. São frequentemente forçados a sair, para aliviar a carga salarial.” 

E tudo se passa com uma hierarquia que raramente escuta: “dois terços dos jornalistas não se sentiram apoiados pelos superiores, em caso de pressão vivida no seu ambiente de trabalho, e 42% acham que o seu emprego está ameaçado, pelo digital ou pelas agências de conteúdos.” 

Os freelancers, que são mais de metade (57,1%), segundo este estudo, não passam melhor: atrasos de pagamento, por vezes mesmo não pagamento, baixa injustificada do montante da peça, pressão das redacções para passarem ao estatuto de empresários independentes [autoentrepeneurs, no original]. 

“Quando se pede aos jornalistas que passem ao estatuto de autoentrepeneur”  - explica Delgènes -  “é muito simples: as redacções ficam sem qualquer encargo, podem romper o contrato sempre que queiram, porque transformam uma relação salarial numa relação comercial...” 

Os jornalistas acabam por se desgastar, mentalmente e fisicamente: 

“As pessoas reagem bebendo muito café, tomando suplementos, tudo isto para aguentar  - quando não querem desistir”  - lamenta. 

“Não é, com efeito, por pouco motivo que 37% dos jornalistas estão à procura de outro emprego, e 16,8% deles para deixarem de vez a profissão.” (...)

 

O texto aqui citado, na íntegra em L’Expresse o estudo referido na Marianne 
Sobre esgotamento no local de trabalho, mais informação na WAN-IFRA  e no Health & Happiness Center, cuja imagem aqui reproduzimos

Connosco
José Ribeiro e Castro em Abril no jantar-debate do CPI Ver galeria

Advogado de profissão, político por vocação com um pé na Comunicação Social, José Ribeiro e Castro é o próximo orador–convidado no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, marcado para 16 de Abril, na Sala da Biblioteca do Grémio Literário.

Deputado, eurodeputado, governante , membro da equipa fundadora da TVI com Roberto Carneiro e antigo líder do CDS,  José Ribeiro e Castro começou cedo a respirar a política em casa.

Filho de Fernando Santos e Castro, que presidiu à Camara Municipal de Lisboa e foi o último governador português em Angola, Ribeiro e Castro nasceu em Lisboa  a 24 de Dezembro de 1953. É casado e tem três filhas e um filho.

Risco de nova “ordem mundial de Informação” sob modelo chinês Ver galeria

No contexto da visita do Presidente Xi Jinping a vários países europeus, para promover as “novas rotas da seda” das ambições económicas e geo-estratégicas da China, importa prestar também atenção à “nova ordem mundial da Informação” contida no projecto geral. Segundo um relatório muito recente dos Repórteres sem Fronteiras, o governo chinês, seguro do controlo que já exerce sobre os media nacionais e a Internet no seu próprio espaço, deseja impor um vocabulário “ideologicamente correcto” também fora de fronteiras.

E procura consegui-lo por uma panóplia de meios, que vão desde a sedução dos media ou jornalistas estrangeiros até várias formas de pressão ou mesmo intimidação.

“Há dez anos punha-se a questão de melhorar a situação na China. Mas, enquanto ONG de defesa da liberdade de Imprensa e dos jornalistas, encontramos cada vez mais dificuldades em ter impacto no país. A questão que se coloca hoje é: de que modo podem as democracias defender-se da influência mediática chinesa?”  - diz Cédric Alviani, presentante dos RSF para a Ásia Oriental.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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