Sábado, 20 de Abril, 2019
Media

Jornalismo em crise afasta candidatos à profissão

Na presente situação de um jornalismo em crise, com “redacções cada vez mais enxutas, acúmulo de funções, e vagas que, não raras vezes, pagam pouco, mas exigem muito”, a expectativa para os candidatos à carreira é pouco estimulante.

“As descrições são quase as mesmas: vaga para quem gosta de desafios e busca aprendizagem, ou habilidade para trabalhar em ambientes desafiadores sob a pressão de deadlines exigentes. Os mais experientes e os especialistas, que acharam um bom nicho e hoje ganham bem, são os que, em geral, têm estas qualificações, mas raramente topariam trabalhar por salários nada condizentes com sua expertise.”

Mas “há coisas que a academia não ensina; (...) há certas habilidades que dão o tom e separam homens de meninos no jornalismo”.

A reflexão é do jornalista Leonardo Siqueira, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O seu objecto de atenção é um conjunto de qualidades que definem a atitude mental de um jornalista, e que podem encontrar-se no candidato “desde o primeiro semestre da graduação”: 

“No início ou fim da faculdade. Medíocre ou estelar. Mas em formação. É uma condição que, semelhantemente aos estados físicos da água, pode ser mudada e quimicamente trabalhada.” (...) 

O autor escreve que esse quadro mental [mindset, no original], “especialmente nos dias actuais, deve ir além da reedição de textos de assessoria de imprensa, ou das aspas burocráticas de notas frívolas”: 

“Mesmo nos textos fechados de assessoria, no silêncio de fontes e no desinteresse de relações públicas que praticamente blindam fontes e instituições, é possível fazer bom jornalismo.” 

“Um press-release de um balanço financeiro que exalta logo nas primeiras linhas o crescimento da receita pode esconder um belo prejuízo. E em alguns casos, um prejuízo pode reflectir planos de investimento e expansão agressivos, condizentes com a estratégia de longo prazo de uma empresa.” 

“O mindset do jornalista actual inclui, mas não se limita ao zelo pela apuração consistente, ao hábito de ligar e buscar fontes, ao olho atento pelos dados escondidos e a criatividade para ir além das fontes convencionais e burocráticas.” (...) 

Leonardo Siqueira conclui: 

“Aprendi que insistência, criatividade, boas fontes, apuração atenta e coragem para perguntar nem sempre são habilidades ensinadas na faculdade. Mas podem ser treinadas. Antes ou depois dela. Quanto antes, melhor.”

 

O texto citado, na íntegra no Observatório da Imprensa

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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