Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Media

Jornalismo em crise afasta candidatos à profissão

Na presente situação de um jornalismo em crise, com “redacções cada vez mais enxutas, acúmulo de funções, e vagas que, não raras vezes, pagam pouco, mas exigem muito”, a expectativa para os candidatos à carreira é pouco estimulante.

“As descrições são quase as mesmas: vaga para quem gosta de desafios e busca aprendizagem, ou habilidade para trabalhar em ambientes desafiadores sob a pressão de deadlines exigentes. Os mais experientes e os especialistas, que acharam um bom nicho e hoje ganham bem, são os que, em geral, têm estas qualificações, mas raramente topariam trabalhar por salários nada condizentes com sua expertise.”

Mas “há coisas que a academia não ensina; (...) há certas habilidades que dão o tom e separam homens de meninos no jornalismo”.

A reflexão é do jornalista Leonardo Siqueira, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O seu objecto de atenção é um conjunto de qualidades que definem a atitude mental de um jornalista, e que podem encontrar-se no candidato “desde o primeiro semestre da graduação”: 

“No início ou fim da faculdade. Medíocre ou estelar. Mas em formação. É uma condição que, semelhantemente aos estados físicos da água, pode ser mudada e quimicamente trabalhada.” (...) 

O autor escreve que esse quadro mental [mindset, no original], “especialmente nos dias actuais, deve ir além da reedição de textos de assessoria de imprensa, ou das aspas burocráticas de notas frívolas”: 

“Mesmo nos textos fechados de assessoria, no silêncio de fontes e no desinteresse de relações públicas que praticamente blindam fontes e instituições, é possível fazer bom jornalismo.” 

“Um press-release de um balanço financeiro que exalta logo nas primeiras linhas o crescimento da receita pode esconder um belo prejuízo. E em alguns casos, um prejuízo pode reflectir planos de investimento e expansão agressivos, condizentes com a estratégia de longo prazo de uma empresa.” 

“O mindset do jornalista actual inclui, mas não se limita ao zelo pela apuração consistente, ao hábito de ligar e buscar fontes, ao olho atento pelos dados escondidos e a criatividade para ir além das fontes convencionais e burocráticas.” (...) 

Leonardo Siqueira conclui: 

“Aprendi que insistência, criatividade, boas fontes, apuração atenta e coragem para perguntar nem sempre são habilidades ensinadas na faculdade. Mas podem ser treinadas. Antes ou depois dela. Quanto antes, melhor.”

 

O texto citado, na íntegra no Observatório da Imprensa

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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