Segunda-feira, 19 de Agosto, 2019
Opinião

Quando os Media servem “gato por lebre”…

por Dinis de Abreu

A realidade choca. Um trabalho de investigação jornalística, publicado no Expresso,  apurou que Portugal tem 95 políticos a comentar nos media.

É algo absolutamente inédito em qualquer parte do mundo, da Europa aos EUA. Nalguma coisa teríamos de ser inovadores, infelizmente, da pior maneira.

É um “assalto”, que condiciona a opinião pública e constitui um simulacro de pluralismo, já que  o elenco de contratados vai da direita à esquerda, embora esta tenha a primazia.

Em democracias maduras, os media, designadamente, as televisões, podem convidar especialistas, entre os quais políticos, para se pronunciarem sobre acontecimentos que careçam de enquadramento e de uma melhor contextualização. 

Mas não são residentes nem pagos por isso, ao contrário do  que acontece na maior parte dos  casos portugueses, cujos “cachets” são, contudo, sonegados ao conhecimento público.

Enquanto estas dezenas de comentadores, fieis às suas capelas, debitam os recados   que lhes convém,  para influenciar a agenda mediática e o eleitorado, assiste-se ultimamente a uma espécie de “baile mandado”  em programas de entretenimento em televisão, com a participação de dirigentes partidários e, até,  do primeiro ministro em exercício.

O objectivo ( não confessado…) dos  políticos  é, obviamente aproveitar a popularidade alcançada por alguns desses programas para se mostrarem à vontade, de avental na cozinha, ou a recontar histórias de vida, num jeito informal e a piscar o  olho ao eleitorado mais  sensível a estas rábulas estudadas.

Entre a doutrinação ideológica , servida  em doses maciças por evangelistas encartados,  e os petiscos cozinhados à vista ,  da direita  à esquerda, temos um novo formato de “reality show”, que procura explorar a adesão fácil do espectador,  entretido e grato pelo divertimento que lhe oferecem.

Pior: há políticos no activo, que se exercitam no comentário  com manifesto apetite, talvez por terem interiorizado a ideia de que os media e,  em particular a televisão, podem “vender”  melhor as suas ideias e alavancá- los para outros voos. Uma perversão do nosso sistema.

O que prova, ainda, o trabalho do Expresso é que os jornalistas, salvo raras excepções, foram completamente ultrapassados pelos políticos no ofício de comentadores, e a maioria dos que sobraram  activos, em particular, nos audiovisuais, “politizaram-se” também e circulam, entre estúdios e redacções, a repetirem o que está na “onda” do momento. 

Num altura em que tanto se fala de “fake news” - matéria que motivou inclusive um debate parlamentar - ,  é pena que se desperdice a oportunidade de discutir, seriamente, esta originalidade portuguesa, quando os media se curvam à “informação espectáculo”  e se prestam  a  vender “gato por lebre”…

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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