Segunda-feira, 25 de Março, 2019
Opinião

Quando os Media servem “gato por lebre”…

por Dinis de Abreu

A realidade choca. Um trabalho de investigação jornalística, publicado no Expresso,  apurou que Portugal tem 95 políticos a comentar nos media.

É algo absolutamente inédito em qualquer parte do mundo, da Europa aos EUA. Nalguma coisa teríamos de ser inovadores, infelizmente, da pior maneira.

É um “assalto”, que condiciona a opinião pública e constitui um simulacro de pluralismo, já que  o elenco de contratados vai da direita à esquerda, embora esta tenha a primazia.

Em democracias maduras, os media, designadamente, as televisões, podem convidar especialistas, entre os quais políticos, para se pronunciarem sobre acontecimentos que careçam de enquadramento e de uma melhor contextualização. 

Mas não são residentes nem pagos por isso, ao contrário do  que acontece na maior parte dos  casos portugueses, cujos “cachets” são, contudo, sonegados ao conhecimento público.

Enquanto estas dezenas de comentadores, fieis às suas capelas, debitam os recados   que lhes convém,  para influenciar a agenda mediática e o eleitorado, assiste-se ultimamente a uma espécie de “baile mandado”  em programas de entretenimento em televisão, com a participação de dirigentes partidários e, até,  do primeiro ministro em exercício.

O objectivo ( não confessado…) dos  políticos  é, obviamente aproveitar a popularidade alcançada por alguns desses programas para se mostrarem à vontade, de avental na cozinha, ou a recontar histórias de vida, num jeito informal e a piscar o  olho ao eleitorado mais  sensível a estas rábulas estudadas.

Entre a doutrinação ideológica , servida  em doses maciças por evangelistas encartados,  e os petiscos cozinhados à vista ,  da direita  à esquerda, temos um novo formato de “reality show”, que procura explorar a adesão fácil do espectador,  entretido e grato pelo divertimento que lhe oferecem.

Pior: há políticos no activo, que se exercitam no comentário  com manifesto apetite, talvez por terem interiorizado a ideia de que os media e,  em particular a televisão, podem “vender”  melhor as suas ideias e alavancá- los para outros voos. Uma perversão do nosso sistema.

O que prova, ainda, o trabalho do Expresso é que os jornalistas, salvo raras excepções, foram completamente ultrapassados pelos políticos no ofício de comentadores, e a maioria dos que sobraram  activos, em particular, nos audiovisuais, “politizaram-se” também e circulam, entre estúdios e redacções, a repetirem o que está na “onda” do momento. 

Num altura em que tanto se fala de “fake news” - matéria que motivou inclusive um debate parlamentar - ,  é pena que se desperdice a oportunidade de discutir, seriamente, esta originalidade portuguesa, quando os media se curvam à “informação espectáculo”  e se prestam  a  vender “gato por lebre”…

Connosco
José Ribeiro e Castro em Abril no jantar-debate do CPI Ver galeria

Advogado de profissão, político por vocação com um pé na Comunicação Social, José Ribeiro e Castro é o próximo orador–convidado no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, marcado para 16 de Abril, na Sala da Biblioteca do Grémio Literário.

Deputado, eurodeputado, governante , membro da equipa fundadora da TVI com Roberto Carneiro e antigo líder do CDS,  José Ribeiro e Castro começou cedo a respirar a política em casa.

Filho de Fernando Santos e Castro, que presidiu à Camara Municipal de Lisboa e foi o último governador português em Angola, Ribeiro e Castro nasceu em Lisboa  a 24 de Dezembro de 1953. É casado e tem três filhas e um filho.

Risco de nova “ordem mundial de Informação” sob modelo chinês Ver galeria

No contexto da visita do Presidente Xi Jinping a vários países europeus, para promover as “novas rotas da seda” das ambições económicas e geo-estratégicas da China, importa prestar também atenção à “nova ordem mundial da Informação” contida no projecto geral. Segundo um relatório muito recente dos Repórteres sem Fronteiras, o governo chinês, seguro do controlo que já exerce sobre os media nacionais e a Internet no seu próprio espaço, deseja impor um vocabulário “ideologicamente correcto” também fora de fronteiras.

E procura consegui-lo por uma panóplia de meios, que vão desde a sedução dos media ou jornalistas estrangeiros até várias formas de pressão ou mesmo intimidação.

“Há dez anos punha-se a questão de melhorar a situação na China. Mas, enquanto ONG de defesa da liberdade de Imprensa e dos jornalistas, encontramos cada vez mais dificuldades em ter impacto no país. A questão que se coloca hoje é: de que modo podem as democracias defender-se da influência mediática chinesa?”  - diz Cédric Alviani, presentante dos RSF para a Ásia Oriental.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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