Sábado, 17 de Agosto, 2019
Media

Jornalismo digital ao alcance de profissionais empreendedores

Os novos modelos de negócio do jornalismo digital podem ser activados por “jornalistas empreendedores”, que se ocupam simultaneamente da recolha de fundos e do trabalho na redacção e, mesmo assim, “conseguem manter um jornalismo credível, com os mais elevados padrões editoriais, valores que fundamentam o quarto poder numa sociedade democrática, no sentido de responsabilizar o poder”.  Não será pedir muito?...

É esta a reflexão inicial do texto de apresentação do relatório Digital Journalism & New Business Models, agora divulgado pela Federação Europeia de Jornalistas. Assinado por Andreas Bittner, da respectiva Comissão Directiva, o texto segue a pista destes projectos em curso, afirmando que o jornalismo de investigação é a sua “força motriz” e que procuram “proteger de interferências a operação editorial”  - mesmo que, pelo caminho “rompam o muro sagrado entre as fontes editoriais e as de financiamento”.

O mesmo texto reconhece estas atitudes numa variedade de experiências em curso, citando de passagem o diário britânico The Guardian, o pioneiro francês Mediapart e outros casos, desde a Suécia até à Espanha. Mas adverte que “as start-ups podem falhar de modo dramático, se não atingem o seu objectivo”: 

“Mesmo quando os modelos alternativos se afastam da empresa publicadora tradicional, isso não garante que o sucesso, ou a sustentabilidade, estejam ao virar da esquina.” 

“O desafio é sobrevivermos como jornalistas profissionais, mantendo-nos credíveis e estando abertos e capazes de continuar a produzir um jornalismo de qualidade.” 

A expressão “jornalismo de qualidade” é também o ponto forte de outro documento, divulgado poucos dias antes deste, pelo Comité de Ministros do Conselho da Europa. Trata-se, neste caso, de uma Declaração em 12 pontos, sobre a “sustentabilidade financeira de um jornalismo de qualidade na era digital”. (...) 

O ponto segundo cita o Artigo 10º da Convenção para a Protecção dos Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais [dos Tratados europeus], afirmando que o direito à liberdade de expressão e de Imprensa é “um requisito prévio a um ambiente favorável ao jornalismo de qualidade, que serve uma importante função democrática”: 

“O jornalismo de qualidade proporciona ao público uma gama de informação diversa, credível, interessante e atempada, e contraria a propaganda e a desinformação que proliferam, em especial, nas redes sociais.” (...) 

O ponto terceiro afirma que um jornalismo fiel a estes princípios “deve ser reconhecido como um bem público”. Os pontos seguintes descrevem as várias formas de disrupção do jornalismo tradicional trazidas pela revolução digital, chegando por esta via à questão da sustentabilidade. 

O ponto oitavo reconhece que, “nesta era de crescente cepticismo a respeito das instituições democráticas, os media ficam vulneráveis a serem rotulados de partidarismo, ou fake, mesmo quando estão empenhados em padrões elevados de jornalismo”. 

Nas conclusões do texto, o Comité de Ministros alerta os Estados membros para a importância de promoverem  - por meio de medidas regulatórias que defendam a operação de todos os media, dos tradicionais aos modelos inovativos -  “a sustentabilidade financeira, a longo prazo, de um jornalismo de qualidade produzido de acordo com os padrões editoriais e éticos da profissão, estabelecendo ao mesmo tempo garantias efectivas de que esse modelo não vai constranger a independência editorial e operacional dos media”. (...) 

Segue-se uma série de recomendações concretas, nas áreas do regime fiscal, do apoio ao jornalismo local e não-lucrativo, e de medidas de desenvolvimento com várias fontes de financiamento possíveis, incluindo parcerias público-privadas. 

Outras recomendações visam a relação com as grandes plataformas, pelas crescentes responsabilidades que assumiram na evolução recente dos modelos de sustento das empresas de comunicação social. 

Os últimos parágrafos sublinham “a importância de providenciar a todos um acesso efectivo a conteúdos jornalísticos de qualidade, independentemente dos seus níveis de vida económica ou quaisquer outras barreiras”, bem como a correspondente necessidade de literacia mediática.

 

 

Mais informação na Federação Europeia de JornalistasO relatório Digital Journalism & New Business Models.

A Declaração do Comité de Ministros do Conselho da Europa.

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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