Segunda-feira, 19 de Agosto, 2019
Opinião

Duas atitudes face ao jornalismo

por Francisco Sarsfield Cabral

No recente encontro em Roma, no Vaticano, sobre o dramático caso dos abusos sexuais por elementos do clero católico, a vários níveis, ouviram-se vozes agradecendo a jornalistas que investigaram e divulgaram abusos. É uma justa atitude. 

Dir-se-á que alguns jornalistas terão procurado o escândalo e, também, denegrir a imagem da Igreja. Talvez. Mas o verdadeiro escândalo é que padres, bispos e cardeais, em vez de protegerem os mais novos e indefesos, os agrediram, deixando-lhes marcas psicológicas para toda a vida. E quanto a prejudicar a imagem da Igreja, quem, se não os agressores, contribuiu para abalar seriamente essa imagem? 

O facto essencial é que os jornalistas ajudaram a revelar casos que nunca deveriam ter sido encobertos – mas foram, desgraçadamente. Ainda bem que o papel dos jornalistas nesta tragédia foi reconhecido.

Pelo contrário, na Venezuela o ditador Maduro deporta jornalistas estrangeiros cujo trabalho não lhe agrada. Recorde-se que Maduro afirmou há dias que não existe fome no seu país. Uma incrível mentira, desmentida por  um vídeo com crianças a comer do lixo.

Esse vídeo havia sido feito por uma equipa do canal americano Univisión. A equipa foi detida depois de tentar entrevistar Nicolás Maduro. “Confiscaram-lhes todo o equipamento técnico que levaram ao palácio para a entrevista”, informa o jornal digital “Observador”.

A entrevista não chegou ao fim. Maduro não terá gostado de uma afirmação do jornalista, que lhe disse que milhões de venezuelanos o consideram um ditador, e abandonou a sala.

O ministro de Comunicação e Informação venezuelano e a vice-presidente da Venezuela entraram então na sala, insultaram a equipa e chamaram provocador ao jornalista. “Vais engolir as tuas palavras com uma Coca Cola”, terão dito.

A equipa da Univisión foi depois metida num quarto de segurança, onde permaneceu com as luzes apagadas durante mais de duas horas. Seguiu-se a deportação.

Este lamentável caso é típico de um ditador como  Maduro. E mostra o “grande respeito” que o chamado socialismo bolivariano tem pela liberdade de expressão e de informação.

Mas o mais extraordinário é ainda haver quem classifique de democrático um regime destes, que desgraçou o próprio povo.

Connosco
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No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

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Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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