Quarta-feira, 24 de Abril, 2019
Mundo

Revelar os factos como forma de evitar a repetição de tragédias

O título usado na crónica que aqui citamos é provocante: “Brumadinho – o Jornalismo agradece”. O autor apressa-se a esclarecer que não é endereçado “a nenhuma pessoa específica, mas a uma área específica” e podia ser aplicado a outras áreas:

“Advogados farão fila em Brumadinho em busca de polpudas indemnizações para seus clientes. Engenheiros revisarão os seus procedimentos. Administradores vão incorporar, aos seus cálculos financeiros, o investimento necessário para garantir a segurança de suas operações. Ou não…”

E acrescenta: 

“Pessoas sãs sentem o peso de um facto que vitimou dezenas de inocentes. O Jornalismo, por outro lado, aprecia tragédias. Oxigena o noticiário, abre espaços para suítes de diferentes naturezas. O número de histórias que nascem de ocorrências como essa é incontável.” (...)

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O autor admite que “o Jornalismo, por natureza, não é propositivo”: 

“O foco são os meandros do poder: a sujeira, a corrupção, a notícia que choca e indigna. A notícia boa, da alegria à superação, ganha espaço nas últimas páginas dos jornais ou nos últimos blocos dos telejornais. Os media costumam massacrar o espectador. No final, amaciam a carne para tentar vender a ideia de que um broto pode nascer no meio de um incêndio.” 

“Mas o Jornalismo real, aquele que perscruta a natureza humana, não deve ser propositivo mesmo. É responsabilidade da reportagem destrinchar as estruturas criminosas de poder, apurar e pressionar as responsabilidades das pessoas que negligenciaram a segurança de sua empresa. É inaceitável que, depois de um precedente perigoso como Mariana em 2015, algo do tipo aconteça de novo.” (...) 

E aqui Gabriel Guidotti propõe outro raciocínio: o de que o Jornalismo [que chama deste modo, com J maiúsculo] seja então propositivo, mas tanto pelo lado negativo (“na medida em que repórteres procuram respostas às perguntas que surgem após os factos… normalmente mudanças acontecem”), como pelo lado positivo (“há belos exemplos de pessoas que arriscaram as suas vidas em busca de sobreviventes entre a lama de Brumadinho”). 

A partir disto, receia que mesmo a punição da negligência se desgaste com o tempo: 

“O Jornalismo baterá nessa tecla durante meses, até que o noticiário esfrie em função da morosidade do Judiciário. Por parte da Imprensa, serão requentadas informações sobre o andamento dos processos, até que aconteça outra grande a tragédia para oxigenar novamente as capas dos [meios de comunicação].” (...) 

“O Jornalismo é uma ferramenta, sim, que busca a justiça social. Pode estar enfraquecido, mas jamais desaparecerá enquanto existirem pessoas dispostas à revelação dos factos. Dinheiro indemnizatório se produz aos montes. Revelar os factos, todavia, é a melhor forma de homenagear os mortos de uma evitável tragédia.” 


O texto aqui citado, na íntegra no Observatório da Imprensa

Connosco
Os sete elementos decisivos para os leitores confiarem nos Media Ver galeria

Sete elementos fundamentais foram identificados como decisivos na confiança que os leitores depositam num meio de comunicação  - e os três primeiros, votados a grande distância de todos os outros, são o equilíbrio, a honestidade e a profundidade de tratamento dos temas.

Esta recolha foi elaborada a partir de um inquérito realizado por vários media associados à TrustingNews.org, na forma de 81 entrevistas pessoais com leitores escolhidos como representantes de diversos pontos de vista.

Rob Jones, um estudante na Escola de Jornalismo do Missouri, pesquisou os temas mais presentes em todas as respostas e organizou-os no estudo agora divulgado pelo Instituto Reynolds de Jornalismo. A informação é publicada na Red Ética, da FNPI – Fundación para el Nuevo Periodismo Iberoamericano.
Quando o jornalismo procura o passado para ler o futuro Ver galeria

O futuro que foi imaginado pela literatura do passado nem sempre coincide com o que vemos hoje. Tanto pelo seu lado mais luminoso, como pelo mais sombrio, podemos reencontrar “imagens das histórias utópicas ou distópicas já contadas”.
Mas, “em tempos de esperança reduzida, em que pouco se vê além da poeira levantada pela vida agitada deste momento, as distopias têm voltado a ser mais lembradas”.

É esta a reflexão inicial de Vanessa Pedro, docente de jornalismo e pesquisadora do ObjEthos, num artigo sobre este gosto presente pelos zombies, “as histórias dos mortos-vivos, que nem se vão nos deixando em paz e nem voltam mesmo à vida como um milagre que poderia trazer esperanças de renovação”.

Neste tipo de leitura  - como acrescenta -  “o passado acaba sendo um ideal mais interessante e feliz do que o futuro”:

“E aí vemos diversos agendamentos, inclusive como pauta do Jornalismo e da sociedade de forma geral. O período da ditadura militar brasileira passa a ser idolatrado, defendido e desejado, quase festejado. (...)  Até as décadas que antecedem e sucedem a Segunda Guerra Mundial entraram na disputa, têm sido citadas, defendidas, atacadas, recontadas para serem usadas como narrativas de um mundo ideal, ou ideal para ser repelido.” (...)

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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