Sábado, 17 de Agosto, 2019
Mundo

Revelar os factos como forma de evitar a repetição de tragédias

O título usado na crónica que aqui citamos é provocante: “Brumadinho – o Jornalismo agradece”. O autor apressa-se a esclarecer que não é endereçado “a nenhuma pessoa específica, mas a uma área específica” e podia ser aplicado a outras áreas:

“Advogados farão fila em Brumadinho em busca de polpudas indemnizações para seus clientes. Engenheiros revisarão os seus procedimentos. Administradores vão incorporar, aos seus cálculos financeiros, o investimento necessário para garantir a segurança de suas operações. Ou não…”

E acrescenta: 

“Pessoas sãs sentem o peso de um facto que vitimou dezenas de inocentes. O Jornalismo, por outro lado, aprecia tragédias. Oxigena o noticiário, abre espaços para suítes de diferentes naturezas. O número de histórias que nascem de ocorrências como essa é incontável.” (...)

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O autor admite que “o Jornalismo, por natureza, não é propositivo”: 

“O foco são os meandros do poder: a sujeira, a corrupção, a notícia que choca e indigna. A notícia boa, da alegria à superação, ganha espaço nas últimas páginas dos jornais ou nos últimos blocos dos telejornais. Os media costumam massacrar o espectador. No final, amaciam a carne para tentar vender a ideia de que um broto pode nascer no meio de um incêndio.” 

“Mas o Jornalismo real, aquele que perscruta a natureza humana, não deve ser propositivo mesmo. É responsabilidade da reportagem destrinchar as estruturas criminosas de poder, apurar e pressionar as responsabilidades das pessoas que negligenciaram a segurança de sua empresa. É inaceitável que, depois de um precedente perigoso como Mariana em 2015, algo do tipo aconteça de novo.” (...) 

E aqui Gabriel Guidotti propõe outro raciocínio: o de que o Jornalismo [que chama deste modo, com J maiúsculo] seja então propositivo, mas tanto pelo lado negativo (“na medida em que repórteres procuram respostas às perguntas que surgem após os factos… normalmente mudanças acontecem”), como pelo lado positivo (“há belos exemplos de pessoas que arriscaram as suas vidas em busca de sobreviventes entre a lama de Brumadinho”). 

A partir disto, receia que mesmo a punição da negligência se desgaste com o tempo: 

“O Jornalismo baterá nessa tecla durante meses, até que o noticiário esfrie em função da morosidade do Judiciário. Por parte da Imprensa, serão requentadas informações sobre o andamento dos processos, até que aconteça outra grande a tragédia para oxigenar novamente as capas dos [meios de comunicação].” (...) 

“O Jornalismo é uma ferramenta, sim, que busca a justiça social. Pode estar enfraquecido, mas jamais desaparecerá enquanto existirem pessoas dispostas à revelação dos factos. Dinheiro indemnizatório se produz aos montes. Revelar os factos, todavia, é a melhor forma de homenagear os mortos de uma evitável tragédia.” 


O texto aqui citado, na íntegra no Observatório da Imprensa

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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