Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
Mundo

Revelar os factos como forma de evitar a repetição de tragédias

O título usado na crónica que aqui citamos é provocante: “Brumadinho – o Jornalismo agradece”. O autor apressa-se a esclarecer que não é endereçado “a nenhuma pessoa específica, mas a uma área específica” e podia ser aplicado a outras áreas:

“Advogados farão fila em Brumadinho em busca de polpudas indemnizações para seus clientes. Engenheiros revisarão os seus procedimentos. Administradores vão incorporar, aos seus cálculos financeiros, o investimento necessário para garantir a segurança de suas operações. Ou não…”

E acrescenta: 

“Pessoas sãs sentem o peso de um facto que vitimou dezenas de inocentes. O Jornalismo, por outro lado, aprecia tragédias. Oxigena o noticiário, abre espaços para suítes de diferentes naturezas. O número de histórias que nascem de ocorrências como essa é incontável.” (...)

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O autor admite que “o Jornalismo, por natureza, não é propositivo”: 

“O foco são os meandros do poder: a sujeira, a corrupção, a notícia que choca e indigna. A notícia boa, da alegria à superação, ganha espaço nas últimas páginas dos jornais ou nos últimos blocos dos telejornais. Os media costumam massacrar o espectador. No final, amaciam a carne para tentar vender a ideia de que um broto pode nascer no meio de um incêndio.” 

“Mas o Jornalismo real, aquele que perscruta a natureza humana, não deve ser propositivo mesmo. É responsabilidade da reportagem destrinchar as estruturas criminosas de poder, apurar e pressionar as responsabilidades das pessoas que negligenciaram a segurança de sua empresa. É inaceitável que, depois de um precedente perigoso como Mariana em 2015, algo do tipo aconteça de novo.” (...) 

E aqui Gabriel Guidotti propõe outro raciocínio: o de que o Jornalismo [que chama deste modo, com J maiúsculo] seja então propositivo, mas tanto pelo lado negativo (“na medida em que repórteres procuram respostas às perguntas que surgem após os factos… normalmente mudanças acontecem”), como pelo lado positivo (“há belos exemplos de pessoas que arriscaram as suas vidas em busca de sobreviventes entre a lama de Brumadinho”). 

A partir disto, receia que mesmo a punição da negligência se desgaste com o tempo: 

“O Jornalismo baterá nessa tecla durante meses, até que o noticiário esfrie em função da morosidade do Judiciário. Por parte da Imprensa, serão requentadas informações sobre o andamento dos processos, até que aconteça outra grande a tragédia para oxigenar novamente as capas dos [meios de comunicação].” (...) 

“O Jornalismo é uma ferramenta, sim, que busca a justiça social. Pode estar enfraquecido, mas jamais desaparecerá enquanto existirem pessoas dispostas à revelação dos factos. Dinheiro indemnizatório se produz aos montes. Revelar os factos, todavia, é a melhor forma de homenagear os mortos de uma evitável tragédia.” 


O texto aqui citado, na íntegra no Observatório da Imprensa

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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