Segunda-feira, 19 de Agosto, 2019
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Como o apoio de fundações ao jornalismo pode não ser inocente

O jornalismo filantrópico, produzido por meios de comunicação não lucrativos, depende geralmente de fundações privadas para o seu funcionamento. Tem todo o cabimento a preocupação de saber em que medida essa relação pode comprometer a autonomia dos jornalistas e moldar a natureza do trabalho que publicam.

Por exemplo, na própria agenda do que é feito. Segundo Rodney Benson, da Universidade de Nova Iorque, “as empresas de media que dependem do financiamento de projectos baseados em fundações correm o risco de serem cooptadas pelas agendas dessas fundações e [tornar-se] menos capazes de investigar questões que consideram mais importantes”. (...)

“O que mais nos preocupa é que a natureza do jornalismo internacional  – e o papel que desempenha na democracia –  está inadvertidamente a ser moldada por um punhado de fundações, e não pelos próprios jornalistas.”

A reflexão aqui feita encontra-se em “O que há de errado com o jornalismo filantrópico?”, traduzido em Poder360, do original em ingês no site NiemanReports.

O texto citado esclarece, à partida, que não se trata propriamente de as fundações preenderem dirigir a cobertura. Como afirma o editor de um dos sites nestas condições, os financiadores “sabem que o valor autêntico está no facto de sermos nós a proporcionar um jornalismo de excepcional qualidade, que é credível”: 

“Isso é valioso, porque ninguém o põe em causa... Porque, francamente, o conteúdo pago não é respeitado, é visto como um pouco manchado.” (...) 

Mas há modos, mesmo involuntários, de influenciar a agenda da reportagem. E o primeiro decorre do “processo informal de ‘namoro’, pelo qual fundações e jornalistas gradualmente se conhecem e procuram identificar áreas de interesse mútuo”. 

Uma das conseqüências não intencionais deste processo  – muitas vezes demorado –  “é que os meios noticiosos podem gastar muito tempo e recursos cultivando relações em aberto com uma variedade de representantes das fundações e, geralmente, aumentando a sua ‘visibilidade’ e ‘presença’. Isto é importante, porque pode tirar recursos do seu trabalho editorial  – levando a uma redução na produção de notícias.” 

Glendora Meikle, ex-vice-directora do IRP - International Reporting Project, afirma que a sua relutância em “gastar dinheiro para ganhar dinheiro”, em vez de “gastar dinheiro para fazer reportagem, contribuiu directamente para o fecho do IRP no início de 2018”. 

Em segundo lugar, a maioria das fundações com esta motivação exige que os meios noticiosos “forneçam evidência do impacto do seu trabalho”: 

“Mais especificamente, os media são incentivados a concentrar-se na produção de conteúdo que provavelmente será mais ‘impactante’. Em geral, isso inclui coberturas mais extensas, explicativas e fora da agenda, direccionadas a públicos de ‘nicho’, especializados, incluindo decisores políticos.” 

Finalmente, “a forma mais comum de apoio das fundações ao jornalismo internacional é a de subscreverem textos sobre áreas temáticas específicas, como o desenvolvimento global ou a escravatura moderna”. 

“No entanto, quando esse apoio temático é uma das únicas fontes de financiamento disponíveis para notícias internacionais, pode resultar em menos cobertura de outras questões que estão fora desses temas.” (...)  

Há notícia recente de que “muito mais fundações vão apoiar o jornalismo em 2019”. Mas, se isto se concretizar, “os jornalistas vão ter de considerar, não apenas como proteger a sua independência, mas também que tipos de jornalismo querem produzir”. (...)

 

O texto aqui citado, em Poder360, e o seu original em NiemanReports.  Mais informação em InsidePhilanthropy

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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