Sábado, 20 de Abril, 2019
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Como o apoio de fundações ao jornalismo pode não ser inocente

O jornalismo filantrópico, produzido por meios de comunicação não lucrativos, depende geralmente de fundações privadas para o seu funcionamento. Tem todo o cabimento a preocupação de saber em que medida essa relação pode comprometer a autonomia dos jornalistas e moldar a natureza do trabalho que publicam.

Por exemplo, na própria agenda do que é feito. Segundo Rodney Benson, da Universidade de Nova Iorque, “as empresas de media que dependem do financiamento de projectos baseados em fundações correm o risco de serem cooptadas pelas agendas dessas fundações e [tornar-se] menos capazes de investigar questões que consideram mais importantes”. (...)

“O que mais nos preocupa é que a natureza do jornalismo internacional  – e o papel que desempenha na democracia –  está inadvertidamente a ser moldada por um punhado de fundações, e não pelos próprios jornalistas.”

A reflexão aqui feita encontra-se em “O que há de errado com o jornalismo filantrópico?”, traduzido em Poder360, do original em ingês no site NiemanReports.

O texto citado esclarece, à partida, que não se trata propriamente de as fundações preenderem dirigir a cobertura. Como afirma o editor de um dos sites nestas condições, os financiadores “sabem que o valor autêntico está no facto de sermos nós a proporcionar um jornalismo de excepcional qualidade, que é credível”: 

“Isso é valioso, porque ninguém o põe em causa... Porque, francamente, o conteúdo pago não é respeitado, é visto como um pouco manchado.” (...) 

Mas há modos, mesmo involuntários, de influenciar a agenda da reportagem. E o primeiro decorre do “processo informal de ‘namoro’, pelo qual fundações e jornalistas gradualmente se conhecem e procuram identificar áreas de interesse mútuo”. 

Uma das conseqüências não intencionais deste processo  – muitas vezes demorado –  “é que os meios noticiosos podem gastar muito tempo e recursos cultivando relações em aberto com uma variedade de representantes das fundações e, geralmente, aumentando a sua ‘visibilidade’ e ‘presença’. Isto é importante, porque pode tirar recursos do seu trabalho editorial  – levando a uma redução na produção de notícias.” 

Glendora Meikle, ex-vice-directora do IRP - International Reporting Project, afirma que a sua relutância em “gastar dinheiro para ganhar dinheiro”, em vez de “gastar dinheiro para fazer reportagem, contribuiu directamente para o fecho do IRP no início de 2018”. 

Em segundo lugar, a maioria das fundações com esta motivação exige que os meios noticiosos “forneçam evidência do impacto do seu trabalho”: 

“Mais especificamente, os media são incentivados a concentrar-se na produção de conteúdo que provavelmente será mais ‘impactante’. Em geral, isso inclui coberturas mais extensas, explicativas e fora da agenda, direccionadas a públicos de ‘nicho’, especializados, incluindo decisores políticos.” 

Finalmente, “a forma mais comum de apoio das fundações ao jornalismo internacional é a de subscreverem textos sobre áreas temáticas específicas, como o desenvolvimento global ou a escravatura moderna”. 

“No entanto, quando esse apoio temático é uma das únicas fontes de financiamento disponíveis para notícias internacionais, pode resultar em menos cobertura de outras questões que estão fora desses temas.” (...)  

Há notícia recente de que “muito mais fundações vão apoiar o jornalismo em 2019”. Mas, se isto se concretizar, “os jornalistas vão ter de considerar, não apenas como proteger a sua independência, mas também que tipos de jornalismo querem produzir”. (...)

 

O texto aqui citado, em Poder360, e o seu original em NiemanReports.  Mais informação em InsidePhilanthropy

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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