Quinta-feira, 9 de Abril, 2020
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Como o apoio de fundações ao jornalismo pode não ser inocente

O jornalismo filantrópico, produzido por meios de comunicação não lucrativos, depende geralmente de fundações privadas para o seu funcionamento. Tem todo o cabimento a preocupação de saber em que medida essa relação pode comprometer a autonomia dos jornalistas e moldar a natureza do trabalho que publicam.

Por exemplo, na própria agenda do que é feito. Segundo Rodney Benson, da Universidade de Nova Iorque, “as empresas de media que dependem do financiamento de projectos baseados em fundações correm o risco de serem cooptadas pelas agendas dessas fundações e [tornar-se] menos capazes de investigar questões que consideram mais importantes”. (...)

“O que mais nos preocupa é que a natureza do jornalismo internacional  – e o papel que desempenha na democracia –  está inadvertidamente a ser moldada por um punhado de fundações, e não pelos próprios jornalistas.”

A reflexão aqui feita encontra-se em “O que há de errado com o jornalismo filantrópico?”, traduzido em Poder360, do original em ingês no site NiemanReports.

O texto citado esclarece, à partida, que não se trata propriamente de as fundações preenderem dirigir a cobertura. Como afirma o editor de um dos sites nestas condições, os financiadores “sabem que o valor autêntico está no facto de sermos nós a proporcionar um jornalismo de excepcional qualidade, que é credível”: 

“Isso é valioso, porque ninguém o põe em causa... Porque, francamente, o conteúdo pago não é respeitado, é visto como um pouco manchado.” (...) 

Mas há modos, mesmo involuntários, de influenciar a agenda da reportagem. E o primeiro decorre do “processo informal de ‘namoro’, pelo qual fundações e jornalistas gradualmente se conhecem e procuram identificar áreas de interesse mútuo”. 

Uma das conseqüências não intencionais deste processo  – muitas vezes demorado –  “é que os meios noticiosos podem gastar muito tempo e recursos cultivando relações em aberto com uma variedade de representantes das fundações e, geralmente, aumentando a sua ‘visibilidade’ e ‘presença’. Isto é importante, porque pode tirar recursos do seu trabalho editorial  – levando a uma redução na produção de notícias.” 

Glendora Meikle, ex-vice-directora do IRP - International Reporting Project, afirma que a sua relutância em “gastar dinheiro para ganhar dinheiro”, em vez de “gastar dinheiro para fazer reportagem, contribuiu directamente para o fecho do IRP no início de 2018”. 

Em segundo lugar, a maioria das fundações com esta motivação exige que os meios noticiosos “forneçam evidência do impacto do seu trabalho”: 

“Mais especificamente, os media são incentivados a concentrar-se na produção de conteúdo que provavelmente será mais ‘impactante’. Em geral, isso inclui coberturas mais extensas, explicativas e fora da agenda, direccionadas a públicos de ‘nicho’, especializados, incluindo decisores políticos.” 

Finalmente, “a forma mais comum de apoio das fundações ao jornalismo internacional é a de subscreverem textos sobre áreas temáticas específicas, como o desenvolvimento global ou a escravatura moderna”. 

“No entanto, quando esse apoio temático é uma das únicas fontes de financiamento disponíveis para notícias internacionais, pode resultar em menos cobertura de outras questões que estão fora desses temas.” (...)  

Há notícia recente de que “muito mais fundações vão apoiar o jornalismo em 2019”. Mas, se isto se concretizar, “os jornalistas vão ter de considerar, não apenas como proteger a sua independência, mas também que tipos de jornalismo querem produzir”. (...)

 

O texto aqui citado, em Poder360, e o seu original em NiemanReports.  Mais informação em InsidePhilanthropy

Connosco
Editores descontentes com projecto de apoio aos jornais "à medida das televisões" Ver galeria

Na sequência de apelos de várias empresas mediáticas, o Governo está, finalmente, a preparar um conjunto de medidas de apoio aos “media”, gravemente afectados pela crise instalada no país, na sequência da pandemia de Covid-19. 

Tudo indica, contudo, que o pacote destinado a compensar a quebra de receitas de circulação e publicidade não irá ao encontro das necessidades dos editores de jornais e revistas nem, tão pouco, de quem as distribui.

Isto porque as medidas que o Governo está a preparar terão como base a quebra de receitas da publicidade, omitindo, porém, o valor perdido com a diminuição abrupta na circulação, problema que não afecta as televisões.
"O pacote, como está neste momento, é feito à medida das televisões, porque não tem em conta os jornais e revistas, os meios mais prejudicados com a crise de saúde e económica que estamos a viver", explicou Afonso Camões, administrador do Grupo Global Media. "Sem imprensa escrita, é ,em primeira e última análise, o direito à informação, o Estado de direito e a Democracia que ficam em causa".

Perseguição à imprensa gera divisão ideológica no Brasil Ver galeria

Apesar dos esforços dos “media” para alcançar um consenso perante a pandemia do coronavírus, o discurso do Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, tem contribuído para a polarização ideológica dos cidadãos, referiu Francisco Fernandes Ladeira, num artigo publicado no Observatório da Imprensa.

Isto porque, segundo Ladeira, Bolsonaro tem contrariado as directivas da imprensa para a contenção do coronavírus, apontadas pela OMS e pelo próprio ministério da Saúde brasileiro, acusando os “media” de disseminarem o pânico, deliberadamente, e sem fundamento.
Até meados do mês de Março, com a divulgação dos primeiros casos de covid-19 no Brasil, havia um relativo consenso entre a população sobre a quarentena transversal ser a melhor alternativa para evitar a rápida propagação do coronavírus.
Porém, devido aos discursos “inflamados” do Presidente os “media” têm sido descredibilizados. Essas premissas incentivaram, mesmo, aviolência sob jornalistas, que têm encontrado cada vez mais obstáculos ao exercício da profissão.

O Clube


A pandemia provocada pelo coronavírus está a provocar um natural alarme em todo o mundo e a obrigar a comunidade internacional a adoptar planos de contingência,  inéditos em tempo de paz, designadamente, obrigando a quarentenas e a restrições, cada vez mais gravosas, para tentar controlar o contágio. 

A par da Saúde e do dispositivo de segurança, são os “media” que estão na primeira linha para informar e esclarecer as populações, alguns já com as suas redacções a trabalhar em regime de teletrabalho.   

Este “site” do Clube Português de Imprensa , também em teletrabalho, procurará manter as suas actualizações regulares, para que os nossos Associados e visitantes em geral disponham de mais  uma fonte de consulta confiável, acompanhando o que se passa  com os “media”, em diferentes pontos do globo, e em comunhão estreita perante uma crise de Saúde com contornos singulares.

O jornalismo e os jornalistas têm especiais responsabilidades,  bem como   as associações do sector. Se os transportes, a Banca, e o abastecimento de farmácias e de bens essenciais são vitais  para assegurar o funcionamento do  País,  com a maior parte das portas fechadas, a informação atempada e rigorosa não o é menos.  

Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.  

 


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15
Jun
Jornalismo Empreendedor
18:30 @ Cenjor
17
Jun
Congresso Mundial de "Media"
10:00 @ Saragoça
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
Jun