Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
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Como o apoio de fundações ao jornalismo pode não ser inocente

O jornalismo filantrópico, produzido por meios de comunicação não lucrativos, depende geralmente de fundações privadas para o seu funcionamento. Tem todo o cabimento a preocupação de saber em que medida essa relação pode comprometer a autonomia dos jornalistas e moldar a natureza do trabalho que publicam.

Por exemplo, na própria agenda do que é feito. Segundo Rodney Benson, da Universidade de Nova Iorque, “as empresas de media que dependem do financiamento de projectos baseados em fundações correm o risco de serem cooptadas pelas agendas dessas fundações e [tornar-se] menos capazes de investigar questões que consideram mais importantes”. (...)

“O que mais nos preocupa é que a natureza do jornalismo internacional  – e o papel que desempenha na democracia –  está inadvertidamente a ser moldada por um punhado de fundações, e não pelos próprios jornalistas.”

A reflexão aqui feita encontra-se em “O que há de errado com o jornalismo filantrópico?”, traduzido em Poder360, do original em ingês no site NiemanReports.

O texto citado esclarece, à partida, que não se trata propriamente de as fundações preenderem dirigir a cobertura. Como afirma o editor de um dos sites nestas condições, os financiadores “sabem que o valor autêntico está no facto de sermos nós a proporcionar um jornalismo de excepcional qualidade, que é credível”: 

“Isso é valioso, porque ninguém o põe em causa... Porque, francamente, o conteúdo pago não é respeitado, é visto como um pouco manchado.” (...) 

Mas há modos, mesmo involuntários, de influenciar a agenda da reportagem. E o primeiro decorre do “processo informal de ‘namoro’, pelo qual fundações e jornalistas gradualmente se conhecem e procuram identificar áreas de interesse mútuo”. 

Uma das conseqüências não intencionais deste processo  – muitas vezes demorado –  “é que os meios noticiosos podem gastar muito tempo e recursos cultivando relações em aberto com uma variedade de representantes das fundações e, geralmente, aumentando a sua ‘visibilidade’ e ‘presença’. Isto é importante, porque pode tirar recursos do seu trabalho editorial  – levando a uma redução na produção de notícias.” 

Glendora Meikle, ex-vice-directora do IRP - International Reporting Project, afirma que a sua relutância em “gastar dinheiro para ganhar dinheiro”, em vez de “gastar dinheiro para fazer reportagem, contribuiu directamente para o fecho do IRP no início de 2018”. 

Em segundo lugar, a maioria das fundações com esta motivação exige que os meios noticiosos “forneçam evidência do impacto do seu trabalho”: 

“Mais especificamente, os media são incentivados a concentrar-se na produção de conteúdo que provavelmente será mais ‘impactante’. Em geral, isso inclui coberturas mais extensas, explicativas e fora da agenda, direccionadas a públicos de ‘nicho’, especializados, incluindo decisores políticos.” 

Finalmente, “a forma mais comum de apoio das fundações ao jornalismo internacional é a de subscreverem textos sobre áreas temáticas específicas, como o desenvolvimento global ou a escravatura moderna”. 

“No entanto, quando esse apoio temático é uma das únicas fontes de financiamento disponíveis para notícias internacionais, pode resultar em menos cobertura de outras questões que estão fora desses temas.” (...)  

Há notícia recente de que “muito mais fundações vão apoiar o jornalismo em 2019”. Mas, se isto se concretizar, “os jornalistas vão ter de considerar, não apenas como proteger a sua independência, mas também que tipos de jornalismo querem produzir”. (...)

 

O texto aqui citado, em Poder360, e o seu original em NiemanReports.  Mais informação em InsidePhilanthropy

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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