Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
Media

Jornalismo digital enfrenta as mesmas dores que castigam a Imprensa

Era previsto que o jornalismo ia passar do papel ao digital, pela simples natureza das coisas, e que essa evolução seria boa. Haveria crises de transição mas, feitas as contas, as perdas seriam compensadas mais adiante. A chamada “revolução digital”, acusada de esvaziar as redacções dos meios tradicionais, ia trazer, para a troca, novos media solidamente implantados.

Mas neste momento soam todos os alarmes. Até os melhores “nativos digitais” estão a despedir pessoal.

“O longo e lento declínio dos jornais tinha sido bem documentado, à medida que anunciantes e leitores iam mudando a sua atenção para as plataformas digitais. Mas, que até as empresas que eram louvadas por terem entendido a Web mais depressa do que os meios tradicionais estejam agora a vacilar, envia a muitas organizações de media um sinal demasiado terrível para encarar.”

“Muitos de nós estão a chegar à conclusão de que a Internet comercial torna um jornalismo lucrativo cada vez mais difícil, e em muitos casos impossível.” A reflexão é de Emily Bell, no diário britânico The Guardian.

Aconteceu muita coisa em dois anos. Como conta a autora, em Dezembro de 2016, John Peretti, o carismático fundador da BuzzFeed, dirigia aos seus 1.400 trabalhadores um relatório anual em que manifestava alguma frustração depois de as eleições presidenciais terem demonstrado a quantidade de “conteúdo enganoso e de má qualidade que circulava online”. 

“O seu próprio site tinha revelado alguns dos maiores casos do escândalo de fake news que tinha envolvido o Facebook. Mas o remédio de Peretti não era a regulação, ou a punição do Facebook, mas a preocupação de que a velha guarda dos chamados meios de referência também tinha culpas.” 

“As empresas dos media foram demasiado lentas na mudança para o digital”  - escreveu. “Agarraram-se à imprensa e à emissão, mesmo quando era claro que as audiências estavam a mudar-se para outro lado. Isto significa que os orçamentos para um jornalismo de qualidade continuam focados nos sítios errados, criando um vazio que está a ser preenchido pelos conteúdos mais baratos que é possível, muitas vezes de fontes duvidosas.” (...) 

Agora, o Inverno “brutalmente frio” de Janeiro trouxe “consequências selvagens para os editores digitais, incluindo BuzzFeed”, com o despedimento de 15% do seu pessoal, “uma perda de cerca de 220 postos de trabalho em todos os departamentos, incluindo na muito admirada redacção de Nova Iorque”. Também a Vice, outra empresa de media de crescimento rápido, anunciou o despedimento de 10% dos trabalhadores, enquanto a telefónica Verizon, que detém o Huffington Post e a Yahoo, cortava 800 postos de trabalho no departamento de media

“Muitos destes despedimentos desenrolaram-se ao vivo pelo Twitter, com os jornalistas a descreverem o modo confuso e até desastradamente cruel como foram dispensados. Os repórteres da Vice souberam dos seus despedimentos e até tiveram as suas contas de e-mail canceladas pouco antes de serem informados pelas empresas que estavam entre o número das vítimas.” (...) 

Segundo Emily Bell, “o primeiro erro da maior parte dos editores digitais foi o de imaginarem que as grandes plataformas, e especialmente a Google e o Facebook, tinham algum interesse sério em ajudá-los a manterem o seu negócio”: 

“A quantidade de dados que as grandes plataformas recolhem e controlam permitem-lhes oferecer uma publicidade muito mais eficiente do que qualquer editor, e o negócio de tornar lucrativo um conteúdo online já vem armadilhado contra qualquer pessoa que queira dirigir mesmo uma redacção de poucos recursos com repórteres experientes.” (...) 

“Não foi por intenção deliberada que Google, Facebook, Twitter e outros esvaziaram o depósito de publicidade que sustentava o jornalismo, mas também não estavam especialmente preocupados [em saber] se os editores iam sobreviver ou falir. O BuzzFeed tinha uma relação quase de simbiose com o Facebook, colaborando em projectos e ajudando-o a promover as suas ferramentas junto de outros editores. Mas há relatos que sugerem que, depois de ter ajustado o seu algoritmo no sentido de despromover o noticiário, o tráfego do Facebook para BuzzFeed e outros sites caíu de modo dramático.” 

Emily Bell conclui: 

“O futuro do jornalismo vai ser, de modo geral, de menor dimensão e mais exigente a curto prazo, e permanece incerto a longo termo. No entanto, o problema tornou-se agora tão evidente que mesmo os mais avançados pensadores digitais o podem ver: o mercado livre digital para o jornalismo não funciona.”

 

 

O artigo aqui citado, na íntegra em The Guardian

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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