Sábado, 17 de Agosto, 2019
Media

Jornalismo digital enfrenta as mesmas dores que castigam a Imprensa

Era previsto que o jornalismo ia passar do papel ao digital, pela simples natureza das coisas, e que essa evolução seria boa. Haveria crises de transição mas, feitas as contas, as perdas seriam compensadas mais adiante. A chamada “revolução digital”, acusada de esvaziar as redacções dos meios tradicionais, ia trazer, para a troca, novos media solidamente implantados.

Mas neste momento soam todos os alarmes. Até os melhores “nativos digitais” estão a despedir pessoal.

“O longo e lento declínio dos jornais tinha sido bem documentado, à medida que anunciantes e leitores iam mudando a sua atenção para as plataformas digitais. Mas, que até as empresas que eram louvadas por terem entendido a Web mais depressa do que os meios tradicionais estejam agora a vacilar, envia a muitas organizações de media um sinal demasiado terrível para encarar.”

“Muitos de nós estão a chegar à conclusão de que a Internet comercial torna um jornalismo lucrativo cada vez mais difícil, e em muitos casos impossível.” A reflexão é de Emily Bell, no diário britânico The Guardian.

Aconteceu muita coisa em dois anos. Como conta a autora, em Dezembro de 2016, John Peretti, o carismático fundador da BuzzFeed, dirigia aos seus 1.400 trabalhadores um relatório anual em que manifestava alguma frustração depois de as eleições presidenciais terem demonstrado a quantidade de “conteúdo enganoso e de má qualidade que circulava online”. 

“O seu próprio site tinha revelado alguns dos maiores casos do escândalo de fake news que tinha envolvido o Facebook. Mas o remédio de Peretti não era a regulação, ou a punição do Facebook, mas a preocupação de que a velha guarda dos chamados meios de referência também tinha culpas.” 

“As empresas dos media foram demasiado lentas na mudança para o digital”  - escreveu. “Agarraram-se à imprensa e à emissão, mesmo quando era claro que as audiências estavam a mudar-se para outro lado. Isto significa que os orçamentos para um jornalismo de qualidade continuam focados nos sítios errados, criando um vazio que está a ser preenchido pelos conteúdos mais baratos que é possível, muitas vezes de fontes duvidosas.” (...) 

Agora, o Inverno “brutalmente frio” de Janeiro trouxe “consequências selvagens para os editores digitais, incluindo BuzzFeed”, com o despedimento de 15% do seu pessoal, “uma perda de cerca de 220 postos de trabalho em todos os departamentos, incluindo na muito admirada redacção de Nova Iorque”. Também a Vice, outra empresa de media de crescimento rápido, anunciou o despedimento de 10% dos trabalhadores, enquanto a telefónica Verizon, que detém o Huffington Post e a Yahoo, cortava 800 postos de trabalho no departamento de media

“Muitos destes despedimentos desenrolaram-se ao vivo pelo Twitter, com os jornalistas a descreverem o modo confuso e até desastradamente cruel como foram dispensados. Os repórteres da Vice souberam dos seus despedimentos e até tiveram as suas contas de e-mail canceladas pouco antes de serem informados pelas empresas que estavam entre o número das vítimas.” (...) 

Segundo Emily Bell, “o primeiro erro da maior parte dos editores digitais foi o de imaginarem que as grandes plataformas, e especialmente a Google e o Facebook, tinham algum interesse sério em ajudá-los a manterem o seu negócio”: 

“A quantidade de dados que as grandes plataformas recolhem e controlam permitem-lhes oferecer uma publicidade muito mais eficiente do que qualquer editor, e o negócio de tornar lucrativo um conteúdo online já vem armadilhado contra qualquer pessoa que queira dirigir mesmo uma redacção de poucos recursos com repórteres experientes.” (...) 

“Não foi por intenção deliberada que Google, Facebook, Twitter e outros esvaziaram o depósito de publicidade que sustentava o jornalismo, mas também não estavam especialmente preocupados [em saber] se os editores iam sobreviver ou falir. O BuzzFeed tinha uma relação quase de simbiose com o Facebook, colaborando em projectos e ajudando-o a promover as suas ferramentas junto de outros editores. Mas há relatos que sugerem que, depois de ter ajustado o seu algoritmo no sentido de despromover o noticiário, o tráfego do Facebook para BuzzFeed e outros sites caíu de modo dramático.” 

Emily Bell conclui: 

“O futuro do jornalismo vai ser, de modo geral, de menor dimensão e mais exigente a curto prazo, e permanece incerto a longo termo. No entanto, o problema tornou-se agora tão evidente que mesmo os mais avançados pensadores digitais o podem ver: o mercado livre digital para o jornalismo não funciona.”

 

 

O artigo aqui citado, na íntegra em The Guardian

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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