Quarta-feira, 24 de Abril, 2019
Media

Jornalismo digital enfrenta as mesmas dores que castigam a Imprensa

Era previsto que o jornalismo ia passar do papel ao digital, pela simples natureza das coisas, e que essa evolução seria boa. Haveria crises de transição mas, feitas as contas, as perdas seriam compensadas mais adiante. A chamada “revolução digital”, acusada de esvaziar as redacções dos meios tradicionais, ia trazer, para a troca, novos media solidamente implantados.

Mas neste momento soam todos os alarmes. Até os melhores “nativos digitais” estão a despedir pessoal.

“O longo e lento declínio dos jornais tinha sido bem documentado, à medida que anunciantes e leitores iam mudando a sua atenção para as plataformas digitais. Mas, que até as empresas que eram louvadas por terem entendido a Web mais depressa do que os meios tradicionais estejam agora a vacilar, envia a muitas organizações de media um sinal demasiado terrível para encarar.”

“Muitos de nós estão a chegar à conclusão de que a Internet comercial torna um jornalismo lucrativo cada vez mais difícil, e em muitos casos impossível.” A reflexão é de Emily Bell, no diário britânico The Guardian.

Aconteceu muita coisa em dois anos. Como conta a autora, em Dezembro de 2016, John Peretti, o carismático fundador da BuzzFeed, dirigia aos seus 1.400 trabalhadores um relatório anual em que manifestava alguma frustração depois de as eleições presidenciais terem demonstrado a quantidade de “conteúdo enganoso e de má qualidade que circulava online”. 

“O seu próprio site tinha revelado alguns dos maiores casos do escândalo de fake news que tinha envolvido o Facebook. Mas o remédio de Peretti não era a regulação, ou a punição do Facebook, mas a preocupação de que a velha guarda dos chamados meios de referência também tinha culpas.” 

“As empresas dos media foram demasiado lentas na mudança para o digital”  - escreveu. “Agarraram-se à imprensa e à emissão, mesmo quando era claro que as audiências estavam a mudar-se para outro lado. Isto significa que os orçamentos para um jornalismo de qualidade continuam focados nos sítios errados, criando um vazio que está a ser preenchido pelos conteúdos mais baratos que é possível, muitas vezes de fontes duvidosas.” (...) 

Agora, o Inverno “brutalmente frio” de Janeiro trouxe “consequências selvagens para os editores digitais, incluindo BuzzFeed”, com o despedimento de 15% do seu pessoal, “uma perda de cerca de 220 postos de trabalho em todos os departamentos, incluindo na muito admirada redacção de Nova Iorque”. Também a Vice, outra empresa de media de crescimento rápido, anunciou o despedimento de 10% dos trabalhadores, enquanto a telefónica Verizon, que detém o Huffington Post e a Yahoo, cortava 800 postos de trabalho no departamento de media

“Muitos destes despedimentos desenrolaram-se ao vivo pelo Twitter, com os jornalistas a descreverem o modo confuso e até desastradamente cruel como foram dispensados. Os repórteres da Vice souberam dos seus despedimentos e até tiveram as suas contas de e-mail canceladas pouco antes de serem informados pelas empresas que estavam entre o número das vítimas.” (...) 

Segundo Emily Bell, “o primeiro erro da maior parte dos editores digitais foi o de imaginarem que as grandes plataformas, e especialmente a Google e o Facebook, tinham algum interesse sério em ajudá-los a manterem o seu negócio”: 

“A quantidade de dados que as grandes plataformas recolhem e controlam permitem-lhes oferecer uma publicidade muito mais eficiente do que qualquer editor, e o negócio de tornar lucrativo um conteúdo online já vem armadilhado contra qualquer pessoa que queira dirigir mesmo uma redacção de poucos recursos com repórteres experientes.” (...) 

“Não foi por intenção deliberada que Google, Facebook, Twitter e outros esvaziaram o depósito de publicidade que sustentava o jornalismo, mas também não estavam especialmente preocupados [em saber] se os editores iam sobreviver ou falir. O BuzzFeed tinha uma relação quase de simbiose com o Facebook, colaborando em projectos e ajudando-o a promover as suas ferramentas junto de outros editores. Mas há relatos que sugerem que, depois de ter ajustado o seu algoritmo no sentido de despromover o noticiário, o tráfego do Facebook para BuzzFeed e outros sites caíu de modo dramático.” 

Emily Bell conclui: 

“O futuro do jornalismo vai ser, de modo geral, de menor dimensão e mais exigente a curto prazo, e permanece incerto a longo termo. No entanto, o problema tornou-se agora tão evidente que mesmo os mais avançados pensadores digitais o podem ver: o mercado livre digital para o jornalismo não funciona.”

 

 

O artigo aqui citado, na íntegra em The Guardian

Connosco
Os sete elementos decisivos para os leitores confiarem nos Media Ver galeria

Sete elementos fundamentais foram identificados como decisivos na confiança que os leitores depositam num meio de comunicação  - e os três primeiros, votados a grande distância de todos os outros, são o equilíbrio, a honestidade e a profundidade de tratamento dos temas.

Esta recolha foi elaborada a partir de um inquérito realizado por vários media associados à TrustingNews.org, na forma de 81 entrevistas pessoais com leitores escolhidos como representantes de diversos pontos de vista.

Rob Jones, um estudante na Escola de Jornalismo do Missouri, pesquisou os temas mais presentes em todas as respostas e organizou-os no estudo agora divulgado pelo Instituto Reynolds de Jornalismo. A informação é publicada na Red Ética, da FNPI – Fundación para el Nuevo Periodismo Iberoamericano.
Quando o jornalismo procura o passado para ler o futuro Ver galeria

O futuro que foi imaginado pela literatura do passado nem sempre coincide com o que vemos hoje. Tanto pelo seu lado mais luminoso, como pelo mais sombrio, podemos reencontrar “imagens das histórias utópicas ou distópicas já contadas”.
Mas, “em tempos de esperança reduzida, em que pouco se vê além da poeira levantada pela vida agitada deste momento, as distopias têm voltado a ser mais lembradas”.

É esta a reflexão inicial de Vanessa Pedro, docente de jornalismo e pesquisadora do ObjEthos, num artigo sobre este gosto presente pelos zombies, “as histórias dos mortos-vivos, que nem se vão nos deixando em paz e nem voltam mesmo à vida como um milagre que poderia trazer esperanças de renovação”.

Neste tipo de leitura  - como acrescenta -  “o passado acaba sendo um ideal mais interessante e feliz do que o futuro”:

“E aí vemos diversos agendamentos, inclusive como pauta do Jornalismo e da sociedade de forma geral. O período da ditadura militar brasileira passa a ser idolatrado, defendido e desejado, quase festejado. (...)  Até as décadas que antecedem e sucedem a Segunda Guerra Mundial entraram na disputa, têm sido citadas, defendidas, atacadas, recontadas para serem usadas como narrativas de um mundo ideal, ou ideal para ser repelido.” (...)

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
Assange e o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
O caso Assange dura há quase sete anos. Agora, com a sua expulsão da embaixada do Equador em Londres e consequente prisão pela polícia britânica, o caso entrou numa nova fase. É possível que Assange venha a ser extraditado para os Estados Unidos (o que ele não quer) ou para a Suécia (o que ele agora prefere, embora tenha recusado essa possibilidade há sete anos).  Também se fala muito da mudança do poder...
Muitos responsáveis pela comunicação e marketing de várias marcas defrontam-se quotidianamente com um dilema: será que ainda vale a pena fazer publicidade em televisão? O investimento ainda compensa? A dúvida é legítima – mas antes de mais nada é preciso definir bem o objectivo e o alvo da campanha. Uma coisa é anunciar para jovens urbanos até aos 25 anos, outra é para responsáveis de compras...
A realidade choca. Um trabalho de investigação jornalística, publicado no Expresso,  apurou que Portugal tem 95 políticos a comentar nos media. É algo absolutamente inédito em qualquer parte do mundo, da Europa aos EUA. Nalguma coisa teríamos de ser inovadores, infelizmente, da pior maneira. É um “assalto”, que condiciona a opinião pública e constitui um simulacro de pluralismo, já que  o elenco...
Augusto Cid, uma obra quase monumental
António Gomes de Almeida
Com o falecimento de Augusto Cid, desaparece um dos mais conhecidos desenhadores de Humor portugueses, com uma obra que pode considerar-se quase monumental. Desenhou milhares de cartoons, fez livros, e até teve a suprema honra de ver parte da sua obra apreendida – depois do 25 de Abril (!) – e tornou-se conhecido, entre outras, por estas duas razões: pelas piadas sibilinas lançadas contra o general Ramalho Eanes, e por fazer parte do combativo grupo das...
Jornalismo a meia-haste
Graça Franco
Atropelados pela ditadura do entretenimento, podemos enquanto “informadores” desde já colocar a bandeira a meia-haste. O jornalismo não está a morrer. Está a cometer suicídio em direto. Temi que algum jornalista se oferecesse para partilhar a cadeia com Armando Vara, só para ver como este se sentia “já lá dentro”. A porta ia-se fechando, em câmara lenta, e o enxame de microfones não largava a presa. O...
Agenda
25
Abr
Social Media Camp
09:00 @ Victoria, Canada
27
Abr
30
Abr
Social Media Week: New York
09:00 @ Nova Iorque, EUA
02
Mai
SEO para Jornalistas
09:00 @ Cenjor,Lisboa
03
Mai
V Congresso Literacia, Media e Cidadania
09:00 @ Aveiro, Portugal