Sábado, 17 de Agosto, 2019
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Os Media também são cúmplices no "rio tóxico" informativo

Janeiro fica na história recente como um mês de terramoto para os media, especialmente os digitais. Em duas semanas, só nos EUA, perderam mais de dois mil postos de trabalho. “BuzzFeed, o grande êxito de audiências do jornalismo digital, foi um dos mais atingidos e marca a tendência: ter muitos milhões de seguidores não é garantia de permanência. A publicidade digital é cada vez mais uma coisa de três: Google, Facebook e Amazon. Terá razão o jornalista peruano Diego Salazar e nós ‘não percebemos nada’, como diz o título do seu brilhante livro sobre a paisagem actual dos media e dos jornalistas?”

É deste modo que Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, aborda a presente fase da crise, aliás no seguimento de texto anterior, também incluído neste site. O autor acompanha ainda Diego Salazar na crítica aos responsáveis dos media, pelo seu “profundo desconhecimento de como funciona a Internet”:

“Preocupa-me muitíssimo essa profunda desconexão e incompreensão  que há nos media. Hoje em dia, esta superabundância informativa em que vivemos tornou-se um rio tóxico.”

O Facebook  - ainda segundo o autor do livro citado -  “é a grande desculpa dos media para justificarem o seu próprio fracasso”:

“Não podemos esquecer que os media foram cúmplices dessa destruição do seu modelo de negócio. Alimentaram e mantiveram essa relação doentia com o Facebook, na qual démos armas ao nosso próprio coveiro.” 

A propósito desta imagem, Diego Salazar diz, no início do livro, que tinha “a estranha sensação de estar a redigir o seu próprio obituário”. (...) 

“Os media, e a Imprensa em geral, vamos muito a reboque do que acontece na indústria tecnológica. Hoje em dia, todo o jornalismo que se faz é feito para a Internet. Há muitos meios que contam com edições impressas, mas mesmo esses textos têm um reflexo no mundo online, de onde vem a maior quantidade de utentes.” (...) 

Uma das suas preocupações explícitas é a dos chamados deepfakes, um território onde há “tecnologia e ferramentas suficientes para produzir vídeos capazes de enganar os olhos mais experientes”. (...) 

“Falemos um pouco do jornalismo político, que é a jóia da coroa do jornalismo, e onde vemos esforços mais grosseiros e com consequências mais graves de manipulação. O que aconteceu na campanha de 2016, nos EUA, vai parecer uma brincadeira de meninos em comparação com o que vamos ver nas campanhas presidenciais dos nossos países e dos próprios EUA nos próximos anos. “ (...) 

Apesar da gravidade destas previsões, Diego Salazar afirma-se optimista e declara que se faz hoje “melhor jornalismo do que nunca”: 

“Não acho que todo o jornalismo que se fazia antes da Internet seja melhor do que o que que se faz hoje em dia. Na verdade, creio o contrário: o jornalismo que hoje fazemos é melhor. O problema não é de qualidade, é um problema de exposição, de espaço e de acesso.” (...) 

Sobre a situação do jornalismo na América Latina, afirma: 

“Acho que não temos uma tradição forte de reflexão e de crítica dos media no nosso idioma. Há uma frase muito boa, citada por Jeff Jarvis  - que não é santo da minha devoção -  de um editor que dizia que o problema do jornalismo actual é que nós, jornalistas, temos de apagar um incêndio numa casa enquanto descobrimos como construir a outra.” 

“Nessa situação, é importante que haja mais gente que se dedique a reflectir e a procurar ver o que é que estamos a fazer bem, o que estamos a fazer mal e como nos adaptamos. E sinto que, lamentavelmente, na nossa língua não há a quantidade de pessoas, e os media não dão espaço aos que estão a reflectir e a procurar pôr luzes no caminho, para não irmos direitos à ribanceira.” (...)

 

O artigo citado, em Media-tics, e a entrevista com Diego Salazar, em PuroPeriodismo

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História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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