Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
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Os Media também são cúmplices no "rio tóxico" informativo

Janeiro fica na história recente como um mês de terramoto para os media, especialmente os digitais. Em duas semanas, só nos EUA, perderam mais de dois mil postos de trabalho. “BuzzFeed, o grande êxito de audiências do jornalismo digital, foi um dos mais atingidos e marca a tendência: ter muitos milhões de seguidores não é garantia de permanência. A publicidade digital é cada vez mais uma coisa de três: Google, Facebook e Amazon. Terá razão o jornalista peruano Diego Salazar e nós ‘não percebemos nada’, como diz o título do seu brilhante livro sobre a paisagem actual dos media e dos jornalistas?”

É deste modo que Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, aborda a presente fase da crise, aliás no seguimento de texto anterior, também incluído neste site. O autor acompanha ainda Diego Salazar na crítica aos responsáveis dos media, pelo seu “profundo desconhecimento de como funciona a Internet”:

“Preocupa-me muitíssimo essa profunda desconexão e incompreensão  que há nos media. Hoje em dia, esta superabundância informativa em que vivemos tornou-se um rio tóxico.”

O Facebook  - ainda segundo o autor do livro citado -  “é a grande desculpa dos media para justificarem o seu próprio fracasso”:

“Não podemos esquecer que os media foram cúmplices dessa destruição do seu modelo de negócio. Alimentaram e mantiveram essa relação doentia com o Facebook, na qual démos armas ao nosso próprio coveiro.” 

A propósito desta imagem, Diego Salazar diz, no início do livro, que tinha “a estranha sensação de estar a redigir o seu próprio obituário”. (...) 

“Os media, e a Imprensa em geral, vamos muito a reboque do que acontece na indústria tecnológica. Hoje em dia, todo o jornalismo que se faz é feito para a Internet. Há muitos meios que contam com edições impressas, mas mesmo esses textos têm um reflexo no mundo online, de onde vem a maior quantidade de utentes.” (...) 

Uma das suas preocupações explícitas é a dos chamados deepfakes, um território onde há “tecnologia e ferramentas suficientes para produzir vídeos capazes de enganar os olhos mais experientes”. (...) 

“Falemos um pouco do jornalismo político, que é a jóia da coroa do jornalismo, e onde vemos esforços mais grosseiros e com consequências mais graves de manipulação. O que aconteceu na campanha de 2016, nos EUA, vai parecer uma brincadeira de meninos em comparação com o que vamos ver nas campanhas presidenciais dos nossos países e dos próprios EUA nos próximos anos. “ (...) 

Apesar da gravidade destas previsões, Diego Salazar afirma-se optimista e declara que se faz hoje “melhor jornalismo do que nunca”: 

“Não acho que todo o jornalismo que se fazia antes da Internet seja melhor do que o que que se faz hoje em dia. Na verdade, creio o contrário: o jornalismo que hoje fazemos é melhor. O problema não é de qualidade, é um problema de exposição, de espaço e de acesso.” (...) 

Sobre a situação do jornalismo na América Latina, afirma: 

“Acho que não temos uma tradição forte de reflexão e de crítica dos media no nosso idioma. Há uma frase muito boa, citada por Jeff Jarvis  - que não é santo da minha devoção -  de um editor que dizia que o problema do jornalismo actual é que nós, jornalistas, temos de apagar um incêndio numa casa enquanto descobrimos como construir a outra.” 

“Nessa situação, é importante que haja mais gente que se dedique a reflectir e a procurar ver o que é que estamos a fazer bem, o que estamos a fazer mal e como nos adaptamos. E sinto que, lamentavelmente, na nossa língua não há a quantidade de pessoas, e os media não dão espaço aos que estão a reflectir e a procurar pôr luzes no caminho, para não irmos direitos à ribanceira.” (...)

 

O artigo citado, em Media-tics, e a entrevista com Diego Salazar, em PuroPeriodismo

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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