Quarta-feira, 24 de Abril, 2019
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Os Media também são cúmplices no "rio tóxico" informativo

Janeiro fica na história recente como um mês de terramoto para os media, especialmente os digitais. Em duas semanas, só nos EUA, perderam mais de dois mil postos de trabalho. “BuzzFeed, o grande êxito de audiências do jornalismo digital, foi um dos mais atingidos e marca a tendência: ter muitos milhões de seguidores não é garantia de permanência. A publicidade digital é cada vez mais uma coisa de três: Google, Facebook e Amazon. Terá razão o jornalista peruano Diego Salazar e nós ‘não percebemos nada’, como diz o título do seu brilhante livro sobre a paisagem actual dos media e dos jornalistas?”

É deste modo que Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, aborda a presente fase da crise, aliás no seguimento de texto anterior, também incluído neste site. O autor acompanha ainda Diego Salazar na crítica aos responsáveis dos media, pelo seu “profundo desconhecimento de como funciona a Internet”:

“Preocupa-me muitíssimo essa profunda desconexão e incompreensão  que há nos media. Hoje em dia, esta superabundância informativa em que vivemos tornou-se um rio tóxico.”

O Facebook  - ainda segundo o autor do livro citado -  “é a grande desculpa dos media para justificarem o seu próprio fracasso”:

“Não podemos esquecer que os media foram cúmplices dessa destruição do seu modelo de negócio. Alimentaram e mantiveram essa relação doentia com o Facebook, na qual démos armas ao nosso próprio coveiro.” 

A propósito desta imagem, Diego Salazar diz, no início do livro, que tinha “a estranha sensação de estar a redigir o seu próprio obituário”. (...) 

“Os media, e a Imprensa em geral, vamos muito a reboque do que acontece na indústria tecnológica. Hoje em dia, todo o jornalismo que se faz é feito para a Internet. Há muitos meios que contam com edições impressas, mas mesmo esses textos têm um reflexo no mundo online, de onde vem a maior quantidade de utentes.” (...) 

Uma das suas preocupações explícitas é a dos chamados deepfakes, um território onde há “tecnologia e ferramentas suficientes para produzir vídeos capazes de enganar os olhos mais experientes”. (...) 

“Falemos um pouco do jornalismo político, que é a jóia da coroa do jornalismo, e onde vemos esforços mais grosseiros e com consequências mais graves de manipulação. O que aconteceu na campanha de 2016, nos EUA, vai parecer uma brincadeira de meninos em comparação com o que vamos ver nas campanhas presidenciais dos nossos países e dos próprios EUA nos próximos anos. “ (...) 

Apesar da gravidade destas previsões, Diego Salazar afirma-se optimista e declara que se faz hoje “melhor jornalismo do que nunca”: 

“Não acho que todo o jornalismo que se fazia antes da Internet seja melhor do que o que que se faz hoje em dia. Na verdade, creio o contrário: o jornalismo que hoje fazemos é melhor. O problema não é de qualidade, é um problema de exposição, de espaço e de acesso.” (...) 

Sobre a situação do jornalismo na América Latina, afirma: 

“Acho que não temos uma tradição forte de reflexão e de crítica dos media no nosso idioma. Há uma frase muito boa, citada por Jeff Jarvis  - que não é santo da minha devoção -  de um editor que dizia que o problema do jornalismo actual é que nós, jornalistas, temos de apagar um incêndio numa casa enquanto descobrimos como construir a outra.” 

“Nessa situação, é importante que haja mais gente que se dedique a reflectir e a procurar ver o que é que estamos a fazer bem, o que estamos a fazer mal e como nos adaptamos. E sinto que, lamentavelmente, na nossa língua não há a quantidade de pessoas, e os media não dão espaço aos que estão a reflectir e a procurar pôr luzes no caminho, para não irmos direitos à ribanceira.” (...)

 

O artigo citado, em Media-tics, e a entrevista com Diego Salazar, em PuroPeriodismo

Connosco
Os sete elementos decisivos para os leitores confiarem nos Media Ver galeria

Sete elementos fundamentais foram identificados como decisivos na confiança que os leitores depositam num meio de comunicação  - e os três primeiros, votados a grande distância de todos os outros, são o equilíbrio, a honestidade e a profundidade de tratamento dos temas.

Esta recolha foi elaborada a partir de um inquérito realizado por vários media associados à TrustingNews.org, na forma de 81 entrevistas pessoais com leitores escolhidos como representantes de diversos pontos de vista.

Rob Jones, um estudante na Escola de Jornalismo do Missouri, pesquisou os temas mais presentes em todas as respostas e organizou-os no estudo agora divulgado pelo Instituto Reynolds de Jornalismo. A informação é publicada na Red Ética, da FNPI – Fundación para el Nuevo Periodismo Iberoamericano.
Quando o jornalismo procura o passado para ler o futuro Ver galeria

O futuro que foi imaginado pela literatura do passado nem sempre coincide com o que vemos hoje. Tanto pelo seu lado mais luminoso, como pelo mais sombrio, podemos reencontrar “imagens das histórias utópicas ou distópicas já contadas”.
Mas, “em tempos de esperança reduzida, em que pouco se vê além da poeira levantada pela vida agitada deste momento, as distopias têm voltado a ser mais lembradas”.

É esta a reflexão inicial de Vanessa Pedro, docente de jornalismo e pesquisadora do ObjEthos, num artigo sobre este gosto presente pelos zombies, “as histórias dos mortos-vivos, que nem se vão nos deixando em paz e nem voltam mesmo à vida como um milagre que poderia trazer esperanças de renovação”.

Neste tipo de leitura  - como acrescenta -  “o passado acaba sendo um ideal mais interessante e feliz do que o futuro”:

“E aí vemos diversos agendamentos, inclusive como pauta do Jornalismo e da sociedade de forma geral. O período da ditadura militar brasileira passa a ser idolatrado, defendido e desejado, quase festejado. (...)  Até as décadas que antecedem e sucedem a Segunda Guerra Mundial entraram na disputa, têm sido citadas, defendidas, atacadas, recontadas para serem usadas como narrativas de um mundo ideal, ou ideal para ser repelido.” (...)

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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