Quarta-feira, 24 de Abril, 2019
Media

O que "correu mal" na crise do jornalismo

É urgente fazer “aquilo que os media mais resistem a fazer, a autocrítica, e declarar que a profissão correu mal”.

“Não abundam, no entanto, as críticas e os diagnósticos provenientes do interior.  (...)  Os media parecem acreditar que se protegem silenciando os males de que sofrem e omitindo os erros que cometem. Fazem-no umas vezes por arrogância e outras por temerem perder o capital de que mais necessitam: a confiança. De acordo com esta tendência para o fechamento à exposição pública dos seus erros e fraquezas, a regra quase sempre seguida consiste em exaltar demagogicamente os sucessos e esconder com cuidado os problemas e os falhanços.”

É esta a reflexão inicial do jornalista António Guerreiro em “Rezar pelo jornalismo”, o artigo de introdução a um dossier que é o tema de abertura da edição nº 4 da revista Electra, da Fundação EDP, sobre os media e o jornalismo  - que aqui citamos do Público.

O autor começa por afirmar que “o campo jornalístico foi tomado por uma promíscua hifenização  — o hífen de ‘político-mediático’ —  que sugere uma cumplicidade profissional e uma alternância de papéis entre os jornalistas e os políticos, pressupondo-se assim que ambos formam uma classe anfíbia: a classe político-jornalística”. (...) 

“Quanto à anfibologia acima mencionada, o trânsito dos cargos de poder político para os cargos de poder mediático e vice-versa, o panorama dos media, em Portugal, oferece um exemplo extremo, de proporções inigualáveis. Este facto contribui de maneira considerável para a obesidade da ‘opinião’ e do ‘comentário’ políticos de que sofre o jornalismo actualmente. A fragilidade do jornalismo (tanto do ponto de vista económico como editorial) pode ser medida, entre outros critérios, pelo nível de permeabilidade ao poder político.” (...) 

“Esta nova classe mediático-política (e devemos verificar que este nome hifenizado faz hoje parte das representações comuns e das hostilidades de uma vasta camada de cidadãos) colonizou o jornalismo. É ela que está hoje em condições de reivindicar o capital simbólico  — e respectivas contrapartidas reais —  conferido por esse métier que correu mal. Paralelamente, a classe profissional dos jornalistas perdeu poder e autonomia, foi proletarizada, reduzida a uma massa que trabalha para uma ‘indústria de conteúdos’, que é o ramo da actividade produtiva a que os media de massa se conformaram acriticamente.” 

“Como se pode adivinhar, está assim criado um ambiente cheio de tensões: hoje, o mundo dos media é um mundo de desigualdades exacerbadas e de lutas de classes. De um lado, está a oligarquia editorialista que, grande parte dela, sendo exterior, não precisa de pensar o jornal onde escreve ou o canal de televisão onde faz comentário e só tem de se importar com o espaço onde intervém; do outro, estão os jornalistas que não podem deixar de ser responsáveis por um trabalho colectivo, para os quais há cada vez menos tempo, menos dinheiro, menos autonomia.” (...) 

A concluir, António Guerreiro afirma: 

“A dança e circulação frenética de directores e editores, nas principais empresas de comunicação social (em todo o mundo e não apenas em Portugal), devem-se em grande parte ao facto de as funções directivas na esfera editorial terem perdido autonomia em relação aos órgãos de gestão administrativa. E isto não é um facto sem consequências: perante um público esclarecido e atento, o jornalismo entrou num processo de perda de legitimidade e tornou-se permeável a interesses que não são apenas político-ideológicos.” 

“O triunfo de um pragmatismo estrito  — e afinal sem grandes resultados —  em resposta aos desafios que os antigos media de massa hoje enfrentam e a obediência a um modelo que projecta o jornalismo, no sentido mais lato, ao serviço do cliente (e daí a deriva culturalmente populista dos media, mesmo daqueles que têm uma vocação mais elitista, e a cumplicidade com a indústria do entretenimento), retirou ao jornalismo a sua dimensão de projecto cultural. E é por esta ausência que ele se desmorona por todos os lados e se torna um instrumento de implosão e asfixia — e não de vitalidade — da chamada sociedade civil.”

 

O artigo aqui citado, na revista P2 do PúblicoApresentação deste número da revista Electra, no site da Fundação EDP

Connosco
Os sete elementos decisivos para os leitores confiarem nos Media Ver galeria

Sete elementos fundamentais foram identificados como decisivos na confiança que os leitores depositam num meio de comunicação  - e os três primeiros, votados a grande distância de todos os outros, são o equilíbrio, a honestidade e a profundidade de tratamento dos temas.

Esta recolha foi elaborada a partir de um inquérito realizado por vários media associados à TrustingNews.org, na forma de 81 entrevistas pessoais com leitores escolhidos como representantes de diversos pontos de vista.

Rob Jones, um estudante na Escola de Jornalismo do Missouri, pesquisou os temas mais presentes em todas as respostas e organizou-os no estudo agora divulgado pelo Instituto Reynolds de Jornalismo. A informação é publicada na Red Ética, da FNPI – Fundación para el Nuevo Periodismo Iberoamericano.
Quando o jornalismo procura o passado para ler o futuro Ver galeria

O futuro que foi imaginado pela literatura do passado nem sempre coincide com o que vemos hoje. Tanto pelo seu lado mais luminoso, como pelo mais sombrio, podemos reencontrar “imagens das histórias utópicas ou distópicas já contadas”.
Mas, “em tempos de esperança reduzida, em que pouco se vê além da poeira levantada pela vida agitada deste momento, as distopias têm voltado a ser mais lembradas”.

É esta a reflexão inicial de Vanessa Pedro, docente de jornalismo e pesquisadora do ObjEthos, num artigo sobre este gosto presente pelos zombies, “as histórias dos mortos-vivos, que nem se vão nos deixando em paz e nem voltam mesmo à vida como um milagre que poderia trazer esperanças de renovação”.

Neste tipo de leitura  - como acrescenta -  “o passado acaba sendo um ideal mais interessante e feliz do que o futuro”:

“E aí vemos diversos agendamentos, inclusive como pauta do Jornalismo e da sociedade de forma geral. O período da ditadura militar brasileira passa a ser idolatrado, defendido e desejado, quase festejado. (...)  Até as décadas que antecedem e sucedem a Segunda Guerra Mundial entraram na disputa, têm sido citadas, defendidas, atacadas, recontadas para serem usadas como narrativas de um mundo ideal, ou ideal para ser repelido.” (...)

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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