Sábado, 17 de Agosto, 2019
Media

O que "correu mal" na crise do jornalismo

É urgente fazer “aquilo que os media mais resistem a fazer, a autocrítica, e declarar que a profissão correu mal”.

“Não abundam, no entanto, as críticas e os diagnósticos provenientes do interior.  (...)  Os media parecem acreditar que se protegem silenciando os males de que sofrem e omitindo os erros que cometem. Fazem-no umas vezes por arrogância e outras por temerem perder o capital de que mais necessitam: a confiança. De acordo com esta tendência para o fechamento à exposição pública dos seus erros e fraquezas, a regra quase sempre seguida consiste em exaltar demagogicamente os sucessos e esconder com cuidado os problemas e os falhanços.”

É esta a reflexão inicial do jornalista António Guerreiro em “Rezar pelo jornalismo”, o artigo de introdução a um dossier que é o tema de abertura da edição nº 4 da revista Electra, da Fundação EDP, sobre os media e o jornalismo  - que aqui citamos do Público.

O autor começa por afirmar que “o campo jornalístico foi tomado por uma promíscua hifenização  — o hífen de ‘político-mediático’ —  que sugere uma cumplicidade profissional e uma alternância de papéis entre os jornalistas e os políticos, pressupondo-se assim que ambos formam uma classe anfíbia: a classe político-jornalística”. (...) 

“Quanto à anfibologia acima mencionada, o trânsito dos cargos de poder político para os cargos de poder mediático e vice-versa, o panorama dos media, em Portugal, oferece um exemplo extremo, de proporções inigualáveis. Este facto contribui de maneira considerável para a obesidade da ‘opinião’ e do ‘comentário’ políticos de que sofre o jornalismo actualmente. A fragilidade do jornalismo (tanto do ponto de vista económico como editorial) pode ser medida, entre outros critérios, pelo nível de permeabilidade ao poder político.” (...) 

“Esta nova classe mediático-política (e devemos verificar que este nome hifenizado faz hoje parte das representações comuns e das hostilidades de uma vasta camada de cidadãos) colonizou o jornalismo. É ela que está hoje em condições de reivindicar o capital simbólico  — e respectivas contrapartidas reais —  conferido por esse métier que correu mal. Paralelamente, a classe profissional dos jornalistas perdeu poder e autonomia, foi proletarizada, reduzida a uma massa que trabalha para uma ‘indústria de conteúdos’, que é o ramo da actividade produtiva a que os media de massa se conformaram acriticamente.” 

“Como se pode adivinhar, está assim criado um ambiente cheio de tensões: hoje, o mundo dos media é um mundo de desigualdades exacerbadas e de lutas de classes. De um lado, está a oligarquia editorialista que, grande parte dela, sendo exterior, não precisa de pensar o jornal onde escreve ou o canal de televisão onde faz comentário e só tem de se importar com o espaço onde intervém; do outro, estão os jornalistas que não podem deixar de ser responsáveis por um trabalho colectivo, para os quais há cada vez menos tempo, menos dinheiro, menos autonomia.” (...) 

A concluir, António Guerreiro afirma: 

“A dança e circulação frenética de directores e editores, nas principais empresas de comunicação social (em todo o mundo e não apenas em Portugal), devem-se em grande parte ao facto de as funções directivas na esfera editorial terem perdido autonomia em relação aos órgãos de gestão administrativa. E isto não é um facto sem consequências: perante um público esclarecido e atento, o jornalismo entrou num processo de perda de legitimidade e tornou-se permeável a interesses que não são apenas político-ideológicos.” 

“O triunfo de um pragmatismo estrito  — e afinal sem grandes resultados —  em resposta aos desafios que os antigos media de massa hoje enfrentam e a obediência a um modelo que projecta o jornalismo, no sentido mais lato, ao serviço do cliente (e daí a deriva culturalmente populista dos media, mesmo daqueles que têm uma vocação mais elitista, e a cumplicidade com a indústria do entretenimento), retirou ao jornalismo a sua dimensão de projecto cultural. E é por esta ausência que ele se desmorona por todos os lados e se torna um instrumento de implosão e asfixia — e não de vitalidade — da chamada sociedade civil.”

 

O artigo aqui citado, na revista P2 do PúblicoApresentação deste número da revista Electra, no site da Fundação EDP

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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