Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
Media

O que "correu mal" na crise do jornalismo

É urgente fazer “aquilo que os media mais resistem a fazer, a autocrítica, e declarar que a profissão correu mal”.

“Não abundam, no entanto, as críticas e os diagnósticos provenientes do interior.  (...)  Os media parecem acreditar que se protegem silenciando os males de que sofrem e omitindo os erros que cometem. Fazem-no umas vezes por arrogância e outras por temerem perder o capital de que mais necessitam: a confiança. De acordo com esta tendência para o fechamento à exposição pública dos seus erros e fraquezas, a regra quase sempre seguida consiste em exaltar demagogicamente os sucessos e esconder com cuidado os problemas e os falhanços.”

É esta a reflexão inicial do jornalista António Guerreiro em “Rezar pelo jornalismo”, o artigo de introdução a um dossier que é o tema de abertura da edição nº 4 da revista Electra, da Fundação EDP, sobre os media e o jornalismo  - que aqui citamos do Público.

O autor começa por afirmar que “o campo jornalístico foi tomado por uma promíscua hifenização  — o hífen de ‘político-mediático’ —  que sugere uma cumplicidade profissional e uma alternância de papéis entre os jornalistas e os políticos, pressupondo-se assim que ambos formam uma classe anfíbia: a classe político-jornalística”. (...) 

“Quanto à anfibologia acima mencionada, o trânsito dos cargos de poder político para os cargos de poder mediático e vice-versa, o panorama dos media, em Portugal, oferece um exemplo extremo, de proporções inigualáveis. Este facto contribui de maneira considerável para a obesidade da ‘opinião’ e do ‘comentário’ políticos de que sofre o jornalismo actualmente. A fragilidade do jornalismo (tanto do ponto de vista económico como editorial) pode ser medida, entre outros critérios, pelo nível de permeabilidade ao poder político.” (...) 

“Esta nova classe mediático-política (e devemos verificar que este nome hifenizado faz hoje parte das representações comuns e das hostilidades de uma vasta camada de cidadãos) colonizou o jornalismo. É ela que está hoje em condições de reivindicar o capital simbólico  — e respectivas contrapartidas reais —  conferido por esse métier que correu mal. Paralelamente, a classe profissional dos jornalistas perdeu poder e autonomia, foi proletarizada, reduzida a uma massa que trabalha para uma ‘indústria de conteúdos’, que é o ramo da actividade produtiva a que os media de massa se conformaram acriticamente.” 

“Como se pode adivinhar, está assim criado um ambiente cheio de tensões: hoje, o mundo dos media é um mundo de desigualdades exacerbadas e de lutas de classes. De um lado, está a oligarquia editorialista que, grande parte dela, sendo exterior, não precisa de pensar o jornal onde escreve ou o canal de televisão onde faz comentário e só tem de se importar com o espaço onde intervém; do outro, estão os jornalistas que não podem deixar de ser responsáveis por um trabalho colectivo, para os quais há cada vez menos tempo, menos dinheiro, menos autonomia.” (...) 

A concluir, António Guerreiro afirma: 

“A dança e circulação frenética de directores e editores, nas principais empresas de comunicação social (em todo o mundo e não apenas em Portugal), devem-se em grande parte ao facto de as funções directivas na esfera editorial terem perdido autonomia em relação aos órgãos de gestão administrativa. E isto não é um facto sem consequências: perante um público esclarecido e atento, o jornalismo entrou num processo de perda de legitimidade e tornou-se permeável a interesses que não são apenas político-ideológicos.” 

“O triunfo de um pragmatismo estrito  — e afinal sem grandes resultados —  em resposta aos desafios que os antigos media de massa hoje enfrentam e a obediência a um modelo que projecta o jornalismo, no sentido mais lato, ao serviço do cliente (e daí a deriva culturalmente populista dos media, mesmo daqueles que têm uma vocação mais elitista, e a cumplicidade com a indústria do entretenimento), retirou ao jornalismo a sua dimensão de projecto cultural. E é por esta ausência que ele se desmorona por todos os lados e se torna um instrumento de implosão e asfixia — e não de vitalidade — da chamada sociedade civil.”

 

O artigo aqui citado, na revista P2 do PúblicoApresentação deste número da revista Electra, no site da Fundação EDP

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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