Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Opinião

Os jornais perdem a casa e as televisões a cabeça…

por Dinis de Abreu

Os actuais detentores da Global Media, proprietária do Diário de Noticias e do Jornal de Noticias, além da TSF e de outros títulos, parecem estar a especializar-se como uma espécie  de “comissão  liquidatária” da empresa.

Depois de alienarem  o edifício-sede histórico do Diário de Noticias , construído de raiz para albergar aquele jornal centenário,  segundo um projecto de Pardal Monteiro,  de 1936, terão repetido a operação com a sede do  Noticias do  Porto,  edificada nos anos 50, a beneficio de um grupo chinês.

Em ambos os casos, os jornais desalojados perdem a dignidade das casas onde cresceram e se consolidaram. O DN passou a ser um locatário quase anónimo de uma das Torres Lisboa. E o JN tem como destino, ao que parece, um edifício devoluto,  conhecido pela “garagem da Fiat”.

O desprezo pela história dos dois jornais é manifesto. A indiferença dos poderes públicos também. 

A agonia da Imprensa prossegue e, descontadas algumas piedosas declarações  -  que não passam disso -, o que se confirma é a opção pela negociata  rendosa, ao vender  património e realizar  mais-valias chorudas, “surfando”  a onda especulativa  imobiliária, com a cumplicidade  das autarquias de Lisboa e do Porto, incapazes de contrariar  a morte anunciada   destas memórias  das cidades.

É verdade que não são só os jornais a serem sacrificados. A febre que se apossou dos especuladores,  aliada à permissividade dos autarcas, tem vindo a  descaracterizar  Lisboa e o  Porto , cada vez mais virados para os turistas e menos para o bem estar dos  residentes.

Mas os jornais , que já são vítimas da crise do papel  e da incapacidade dos seus responsáveis para agilizar os métodos e encontrarem alternativas , estão a desaparecer, também, da paisagem urbana da qual fizeram parte .

O silêncio e o secretismo  que hoje acompanham estas operações imobiliárias contam com vários conluios, e os jornalistas  só podem lamentar a sua própria apatia.

De facto, vai longe o tempo em que os jornalistas do DN dinamizaram um movimento que travou a primeira investida para vender a sede do matutino,  no topo de avenida da Liberdade. Depois, mudaram os tempos, mudaram as administrações, mudaram as direcções  editoriais e mudaram   as vontades. Quanto ao JN, que se saiba, não houve sequer  reacção. E quem cala consente… a garagem devoluta.

Vive-se em Portugal uma transição mediática  estranha. A imprensa perde terreno e a televisão perde a cabeça com a “guerra das audiências”.

Só isso explica que o Presidente das República se lembre de telefonar a entretainers  e se preste  a caucionar, com a sua presença,  a emissão inaugural de um programa velho chamado “Quadratura do Círculo”, dispensado pela SIC , e repescado pela TVI,  travestido  em “Circulatura do Quadrado” (!!!... ). Uma aberração. Com o beneplácito presidencial…

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Agenda
02
Jul
The Children’s Media Conference
16:00 @ Sheffield,Reino Unido
21
Ago
Edinburgh TV Festival
09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigeria