Quinta-feira, 20 de Fevereiro, 2020
Opinião

Os jornais perdem a casa e as televisões a cabeça…

por Dinis de Abreu

Os actuais detentores da Global Media, proprietária do Diário de Noticias e do Jornal de Noticias, além da TSF e de outros títulos, parecem estar a especializar-se como uma espécie  de “comissão  liquidatária” da empresa.

Depois de alienarem  o edifício-sede histórico do Diário de Noticias , construído de raiz para albergar aquele jornal centenário,  segundo um projecto de Pardal Monteiro,  de 1936, terão repetido a operação com a sede do  Noticias do  Porto,  edificada nos anos 50, a beneficio de um grupo chinês.

Em ambos os casos, os jornais desalojados perdem a dignidade das casas onde cresceram e se consolidaram. O DN passou a ser um locatário quase anónimo de uma das Torres Lisboa. E o JN tem como destino, ao que parece, um edifício devoluto,  conhecido pela “garagem da Fiat”.

O desprezo pela história dos dois jornais é manifesto. A indiferença dos poderes públicos também. 

A agonia da Imprensa prossegue e, descontadas algumas piedosas declarações  -  que não passam disso -, o que se confirma é a opção pela negociata  rendosa, ao vender  património e realizar  mais-valias chorudas, “surfando”  a onda especulativa  imobiliária, com a cumplicidade  das autarquias de Lisboa e do Porto, incapazes de contrariar  a morte anunciada   destas memórias  das cidades.

É verdade que não são só os jornais a serem sacrificados. A febre que se apossou dos especuladores,  aliada à permissividade dos autarcas, tem vindo a  descaracterizar  Lisboa e o  Porto , cada vez mais virados para os turistas e menos para o bem estar dos  residentes.

Mas os jornais , que já são vítimas da crise do papel  e da incapacidade dos seus responsáveis para agilizar os métodos e encontrarem alternativas , estão a desaparecer, também, da paisagem urbana da qual fizeram parte .

O silêncio e o secretismo  que hoje acompanham estas operações imobiliárias contam com vários conluios, e os jornalistas  só podem lamentar a sua própria apatia.

De facto, vai longe o tempo em que os jornalistas do DN dinamizaram um movimento que travou a primeira investida para vender a sede do matutino,  no topo de avenida da Liberdade. Depois, mudaram os tempos, mudaram as administrações, mudaram as direcções  editoriais e mudaram   as vontades. Quanto ao JN, que se saiba, não houve sequer  reacção. E quem cala consente… a garagem devoluta.

Vive-se em Portugal uma transição mediática  estranha. A imprensa perde terreno e a televisão perde a cabeça com a “guerra das audiências”.

Só isso explica que o Presidente das República se lembre de telefonar a entretainers  e se preste  a caucionar, com a sua presença,  a emissão inaugural de um programa velho chamado “Quadratura do Círculo”, dispensado pela SIC , e repescado pela TVI,  travestido  em “Circulatura do Quadrado” (!!!... ). Uma aberração. Com o beneplácito presidencial…

Connosco
Amal Clooney advoga mais liberdade de imprensa Ver galeria

A enviada especial britânica para a liberdade de imprensa, Amal Clooney, tem trabalhado, afincadamente, em defesa do livre exercício do jornalismo, mas acredita que os seus esforços estão a ser anulados por alguns líderes mundiais. Clooney destaca  as medidas coercivas de Donald Trump, a quem comparou, em entrevista ao “Guardian”, ao nível dos líderes autoritários.

Amal, que se distinguiu na defesa dos direitos humanos, destacou a urgência de o governo britânico unir esforços para derrotar os “predadores” da liberdade. A advogada acredita que tem em Dominic Raab, secretário dos Negócios Estrangeiros, um aliado, mas que as suas propostas requerem um apoio mais alargado. 

Agora que o Ofcom vai passar a regular a Internet no Reino Unido, Amal sugeriu a implementação de um instrumento, baseado nas sanções Magnitsky, visando penalizar qualquer entidade ou indivíduo que ameace os jornalistas, ou que restrinja conteúdos “online”.

Plataforma estabelece "ponte" entre académicos e imprensa Ver galeria

Apesar do grande número de estudos científicos publicados diariamente no Brasil, contactar os responsáveis por essas pesquisas pode ser, particularmente, ingrato. Perante essa realidade, duas jornalistas brasileiras especializadas em ciência, Ana Paula Morales e Sabine Righetti, criaram uma plataforma “online” para servir de “ponte” entre especialistas académicos e a imprensa. 

A Agência Bori é já parceira de 90 revistas científicas, mas quer expandir-se a novas publicações. A plataforma vai, agora, apresentar, semanalmente, três estudos inéditos, com potencial de divulgação e interesse público. Além disso, a equipa da Agência Bori está a realizar “workshops” de “media” para os cientistas que disponibilizam os seus conteúdos.

A Bori funciona através de um sistema de inteligência artificial único,  que agrega artigos de jornais científicos e gera alertas, de acordo com critérios definidos pelos jornalistas. Para ter acesso aos estudos, os profissionais de imprensa podem subscrever, gratuitamente, a plataforma.


O Clube


Três jornais açorianos celebram este ano aniversários redondos. O Diário dos Açores completa século e meio de existência , o que é marcante. O Jornal dos Açores perfaz cem anos, outra vitória sobre o tempo. E o Açoriano Oriental , chega aos 185 anos , uma longevidade qualificada , que o coloca entre os diários mais antigos em publicação. A todos o Clube Português de Imprensa felicita , pela resistência e pelo mérito , numa época em que floresce a falta de memória nas redações. E associa-se neste site às respectivas efemérides.
Houve tempo em que os jornais se felicitavam com júbilo, e parabenizavam os concorrentes aniversariantes. Tempos idos. Agora , ignoram-se como se houvesse um deserto à volta de cada um.
Ser diário centenário num arquipélago de pouca gente, de onde tantos emigraram, e sobreviver em confronto com a agressividade da Internet e dos audiovisuais , é proeza de vulto.
São uma lição que merece relevo, cheia de ensinamentos para outros que desistiram antes de tempo.

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