Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
Opinião

Zé Manel, o talento e a sensualidade

por António Gomes de Almeida

Geralmente considerado um dos mais talentosos ilustradores portugueses, a sua arte manifestou-se sob várias facetas, desde as Capas e as Ilustrações de Livros à Banda Desenhada, aos Cartazes, ao Cartoon, à Caricatura e, até, ao Vitral. E será, provavelmente, essa dispersão por tantos meios de expressão da sua Arte que fez com que demorasse algum tempo, antes de ser tão conhecido do grande público, e de ter a projecção mediática que o seu enorme talento merece. Quando apareceu, mostrando a sua arte como ilustrador, o que mais atraía era a forma espectacular como desenhava belas garotas, cheias de charme e de sensualidade. E essa faceta nunca deixou de ser uma das imagens de marca deste excelentíssimo Desenhador.

Peço licença para apresentá-lo na primeira pessoa do singular – porque o acompanhei, praticamente, desde o seu início, e porque verdadeiramente singular era já o talento do Zé Manel, quando apareceu, tinha então uns 17 anos, na redacção do semanário “Parada da Paródia”, que eu então dirigia (estávamos em 1961), levando consigo alguns desenhos, entre os quais uma ilustração que vinha mesmo a calhar para acompanhar o texto de um disco, acabado então de publicar, de uns apelidados “Jograis de Lisboa”. A ilustração e o texto do disco ajustavam-se perfeitamente.

 

Publicou-se esta primeira ilustração – e publicaram-se depois, nos números seguintes, muitos -- mesmo muitos! -- mais cartoons, ilustrações, bonecos diversos (sobretudo, “bonecas”…) que eram testemunhos muito expressivos de um talento fora do comum. Quisemos saber quem era aquele jovem talentoso. E assim fomos conhecendo mais aspectos da vida deste José Manuel Domingues Alves Mendes, que assinava Zé Manel, ou, mais simplesmente, ZM. Que tinha nascido em Lisboa, em Janeiro de 1944. Que fizera o curso de desenhador-litógrafo na mítica “António Arroio”. Que era filho de outro Artista, já desaparecido, que assinava “Meco” e trabalhara em várias revistas e jornais.

 

Tinha visto a sua fotografia publicada no “Pim-Pam-Pum”, quando tinha 5 anos de idade. O “Século Ilustrado” mostrara alguns dos seus primeiros desenhos, aos seis anos, acompanhados de fotografia e reportagem biográfica. Em 1959, tinha publicado as primeiras anedotas em “Os Ridículos”. Soubemos ainda que vivia, nesse tempo, com a mãe, na Rua Augusto Gil (onde continuou a viver, depois com a mulher e um dos seus dois filhos, pois a mãe já morreu há muitos anos, depois de ter perdido a vista na fase final da sua vida). Que era por causa de uns problemas visuais importantes -- coisa de família -- que ele usava óculos com lentes muito grossas (e continuou a usar, pois os problemas visuais seriam crónicos e hereditários)… ~

 

         E (pormenor pitoresco) que tinha uma verdadeira fobia, um quase terror, perante tudo o que se refere a… impostos!... Nada de ouvir falar de Finanças, declarações de rendimentos, taxas, IVA, IRS, sem ficar completamente transtornado!... Era mais forte do que ele. Por isso, quando combinava a verba que havia de receber por qualquer trabalho, a primeira coisa que fazia era puxar mentalmente da calculadora e avaliar quanto é que lhe ia ser descontado em impostos!... Sempre foi assim, desde muito moço – e assim continuou a ser, por mais que os amigos argumentassem, tranquilizando-o e dizendo-lhe que não valia a pena andar angustiado com tal assunto… Era irremediável: sofria mais com esse aspecto do seu trabalho do que com o trabalho propriamente dito, por mais difícil e complexo que este fosse…

        

Mas, pondo de lado esta espécie de mania e estes episódios, meio pitorescos, que o traumatizavam, o que é certo é que o seu trabalho é excelente – e mesmo, frequentemente, genial! Embora a sua popularidade se tenha firmado através, sobretudo, dos cartoons e das ilustrações ligeiras, de um Humor com certo cunho erótico, as ilustrações para livros (particularmente Livros Escolares) são, geralmente, de altíssima qualidade e podem ser comparadas com o que há de melhor, a nível mundial, nesse campo.

 

Podemos, assim, destacar dois aspectos principais da sua Arte: aquele em que dá largas à imaginação e à voluptuosidade que transmite aos seus desenhos, sobretudo às figuras femininas – e a capacidade extraordinária para ilustrar obras tão importantes como uma “Seara de Vento”, de Manuel da Fonseca, ou “Os Maias”, de Eça de Queiroz, com estilos diferentes, mas a mesma Arte verdadeiramente genial.     

 

A isto, há a juntar a arte do Vitral, que começou a praticar, muito novo, no ateliê de um tio, mestre dessa modalidade artística, e com o qual executou trabalhos verdadeiramente notáveis, para igrejas e para residências particulares.

        

O Zé Manel, no seu período de vida militar, trabalhou muito para o “Jornal do Exército”, com páginas que – como se dizia então – serviam para elevar o moral das tropas destacadas para combater nas Colónias de África... E trabalhou depois com o autor deste texto, em, praticamente, todos os trabalhos gráficos que este fez, depois da “Parada da Paródia”.

 

Assim, ilustrou uma apreciadíssima página de Humor, durante cerca de 20 anos (!), no “Magazine Regisconta”. Fez muitas capas e muitos bonecos para a “Bomba H” (1963 a 1978), para “A Chucha” (1975) e para “O Cágado” (1978).

        

Mostrou amplamente a sua veia humorística na revista “Rádio & Televisão e em “O Emigrante. Ilustrou os livros “Manual da Má-Língua” (publicado antes do 25 de Abril, e devidamente apreendido pela Censura), e “Os Salazarentos”, que saiu em 1975, além dos 4 álbuns das “Histórias do Renato, um Menino muito Chato”.

        

O livro “Como era antes de haver” saiu em 2008, foi adoptado pelo Plano Nacional de Leitura, e, no mesmo ano, ilustrou “Os Maias – Uma Análise ilustrada” e “História e Histórias de Santiago do Cacém” (que teria nova edição, com novas ilustrações, cinco anos depois). Finalmente, em 2013, as suas ilustrações para o livro “Manuel da Fonseca e a Sua Gente” foram muito elogiadas. Como se vê, um volume de trabalho notável, aqui apenas resumido, e todo ele com a habitual qualidade que se tornou sua imagem de marca.

 

Não pode, todavia, deixar de destacar-se a verdadeira orgia gráfica que deixou espalhada pela obra “Macau a Tinta da China”, um livro verdadeiramente impressionante, com textos de Dinis de Abreu, encomendado pelo Governo de Macau, à época da transferência daquele território para a China. É um dos álbuns mais geniais na história da Ilustração Gráfica Portuguesa .

 

Na sua longa vida profissional, o Zé Manel colaborou numa imensa lista de jornais, revistas e outros tipos de publicações – como desenhador de Histórias em Quadradinhos, ou ilustrador de contos infantis – e numa enorme série de livros didáticos.

 

Na verdade, a lista das suas realizações no campo gráfico é impressionante. Trabalhou longamente no “Diário de Notícias”, no “País” (aqui deixou uma notável série de 36 caricaturas de políticos, absolutamente extraordinárias), além do “Fungágá da Bicharada”, “O Brincalhão”, “Pisca-Pisca”, “Pão com Manteiga”, e muitíssimas outras publicações.,

        

Esteve presente em todos os Festivais Internacionais de Banda Desenhada da Amadora, tendo aí sido distinguido com o “Prémio de Honra”. Uma bela exposição dos seus trabalhos, sob o tema “Eros uma vez…o Humorista Zé Manel” deu origem a um catálogo que é um repositório do aspecto mais sensual da sua obra.

 

Mas também outras publicações (cita-se apenas, como exemplo, “In Politiquices”, com cartoons e ilustrações sobre a Política nacional) mostram a versatilidade do seu talento.

 

Está representado em inúmeras colecções particulares e também, por exemplo, no Museu Sammlung Karikaturen & Cartoon, de Basel, na Suíça.

 

Alguns dos seus projectos interessantes ficaram por realizar, muitas vezes por falta de coragem das Editoras – mas é curioso verificar como, nestes casos, o Zé Manel, ao saber da não-concretização de um projecto, tinha uma reacção típica: Ainda bem, é menos um imposto que teria de pagar no ano que vem

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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