Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Media

Jornalistas estão a desistir em França com amargura da profissão

Há jornalistas, em França, a deixarem de vez a profissão por causa do movimento dos “coletes amarelos”, pelo modo como se sentem agredidos por quem devia ser o seu público leitor. Falava-se disto numa conferência de redacção e vários tinham um amigo que estava de saída... Mas não é só por isto. A crise, o fecho de jornais, a precariedade do trabalho e a exigência de cada vez mais disponibilidade levam muitos a desistir. O presidente da Technologia, um gabinete especializado na prevenção de doenças profissionais, conta que 43% dos jornalistas estão hoje expostos a um risco elevado de esgotamento (a média era de 13% em 2014).

“Há cada vez menos meios humanos, e no entanto pedem-nos muito mais”  - conta um jornalista na casa dos 40 anos, que nem se considera mal pago com os seus 2200 euros mensais. “Hoje temos de fazer tudo: o print [texto para a edição impressa], a Web [para a digital], a paginação... Os secretários de redacção estão a desaparecer. A Web first [que designa a publicação online antes de aparecer no jornal] tomou proporções terríveis. E dizem-nos que, se não estamos disponíveis todo o tempo, é porque nos enganámos na profissão”.

A reportagem é da jornalista Audrey Kucinskas, em L’Express.

Jean-Claude Delgènes, o presidente da Technologia, realizou três estudos sobre as condições de trabalho dos jornalistas (2009 – 2016 – 2019) e refere uma “intensificação” da profissão: 

“Sobretudo com a Internet, que é preciso alimentar constantemente. Mesmo se os jornalistas nunca contaram o seu horário e estão habituados ao stress, o mau reconhecimento, nomeadamente da parte dos leitores, acentua o seu desgosto.” 

Coline (nome fictício), jornalista num site francês, confirma: “Há um sofrimento autêntico, tanto mais que não somos considerados nem pela hierarquia, nem pelos leitores. Enquanto community manager, confesso que já deixei de ler os comentários, de tal modo são violentos. No entanto, procuramos fazer o trabalho o melhor que podemos.” 

“A precarização aumentou nos últimos anos. O número de freelancers e de desempregados detentores de carteira profissional subiu de 22,7% para 26,2%, entre 2016 e 2017. Arnaud (outro nome fictício), de 28 anos, jornalista na Imprensa especializada, vai somando contratos desde há quatro anos. 

“Na realidade, só me encontro desempregado uma vez por ano”  - ironiza. É um sector de tal modo competitivo que somos incitados a obedecer sem pestanejar”. Segundo conta, actualmente escreve artigos em cadeia, artigos que chamem clics. (...)

E a Imprensa em papel não é a única com estes problemas: na NextRadio TV, que detém a BFMTV e a RMC [do mesmo grupo de L’Express], já 10% solicitaram a cláusula de rescisão, uma oportunidade legal de se demitirem com as “vantagens” de um despedimento, por ocasião de uma mudança de accionistas. 

No entanto, há os que ainda sentem o apelo da profissão e as escolas de jornalismo continuam a atrair candidatos. Mas Stéphane, que foi jornalista durante uma dezena de anos (incluindo em L’Express) e deixou a profissão há poucos meses, tem um olhar duro sobre ela: 

“A Imprensa de hoje nem saberia reconhecer um Jack London. Eram capazes de o pôr a fazer podcasts para o Spotify, ou documentários para o Netflix.”

 

 

O artigo aqui citado, na íntegra em L’Express

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
Lançar notícias falsas sobre adversários políticos ou outros existe há séculos. Mas a internet deu às mentiras uma capacidade de difusão nunca antes vista.  Divulgar no espaço público notícias falsas (“fake news”) é hoje um problema que, com razão, preocupa muita gente. Mas não se pode considerar que este seja um problema novo. Claro que a internet e as redes sociais proporcionam...
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Ago
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