Sábado, 20 de Abril, 2019
Media

Jornalistas estão a desistir em França com amargura da profissão

Há jornalistas, em França, a deixarem de vez a profissão por causa do movimento dos “coletes amarelos”, pelo modo como se sentem agredidos por quem devia ser o seu público leitor. Falava-se disto numa conferência de redacção e vários tinham um amigo que estava de saída... Mas não é só por isto. A crise, o fecho de jornais, a precariedade do trabalho e a exigência de cada vez mais disponibilidade levam muitos a desistir. O presidente da Technologia, um gabinete especializado na prevenção de doenças profissionais, conta que 43% dos jornalistas estão hoje expostos a um risco elevado de esgotamento (a média era de 13% em 2014).

“Há cada vez menos meios humanos, e no entanto pedem-nos muito mais”  - conta um jornalista na casa dos 40 anos, que nem se considera mal pago com os seus 2200 euros mensais. “Hoje temos de fazer tudo: o print [texto para a edição impressa], a Web [para a digital], a paginação... Os secretários de redacção estão a desaparecer. A Web first [que designa a publicação online antes de aparecer no jornal] tomou proporções terríveis. E dizem-nos que, se não estamos disponíveis todo o tempo, é porque nos enganámos na profissão”.

A reportagem é da jornalista Audrey Kucinskas, em L’Express.

Jean-Claude Delgènes, o presidente da Technologia, realizou três estudos sobre as condições de trabalho dos jornalistas (2009 – 2016 – 2019) e refere uma “intensificação” da profissão: 

“Sobretudo com a Internet, que é preciso alimentar constantemente. Mesmo se os jornalistas nunca contaram o seu horário e estão habituados ao stress, o mau reconhecimento, nomeadamente da parte dos leitores, acentua o seu desgosto.” 

Coline (nome fictício), jornalista num site francês, confirma: “Há um sofrimento autêntico, tanto mais que não somos considerados nem pela hierarquia, nem pelos leitores. Enquanto community manager, confesso que já deixei de ler os comentários, de tal modo são violentos. No entanto, procuramos fazer o trabalho o melhor que podemos.” 

“A precarização aumentou nos últimos anos. O número de freelancers e de desempregados detentores de carteira profissional subiu de 22,7% para 26,2%, entre 2016 e 2017. Arnaud (outro nome fictício), de 28 anos, jornalista na Imprensa especializada, vai somando contratos desde há quatro anos. 

“Na realidade, só me encontro desempregado uma vez por ano”  - ironiza. É um sector de tal modo competitivo que somos incitados a obedecer sem pestanejar”. Segundo conta, actualmente escreve artigos em cadeia, artigos que chamem clics. (...)

E a Imprensa em papel não é a única com estes problemas: na NextRadio TV, que detém a BFMTV e a RMC [do mesmo grupo de L’Express], já 10% solicitaram a cláusula de rescisão, uma oportunidade legal de se demitirem com as “vantagens” de um despedimento, por ocasião de uma mudança de accionistas. 

No entanto, há os que ainda sentem o apelo da profissão e as escolas de jornalismo continuam a atrair candidatos. Mas Stéphane, que foi jornalista durante uma dezena de anos (incluindo em L’Express) e deixou a profissão há poucos meses, tem um olhar duro sobre ela: 

“A Imprensa de hoje nem saberia reconhecer um Jack London. Eram capazes de o pôr a fazer podcasts para o Spotify, ou documentários para o Netflix.”

 

 

O artigo aqui citado, na íntegra em L’Express

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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