Segunda-feira, 16 de Dezembro, 2019
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Os Media podem contribuir para a "desconstrução" do populismo

Combater o populismo começa por conhecê-lo, indentificar as suas causas e os seus equívocos. O que o torna tão aliciante é o facto de “oferecer respostas simples para problemas complexos, construindo uma parede ou negando a ciência”  - afirma o investigador Risto Kunelius, da Universidade de Helsínquia, na Finlândia. Ora, precisamente, não há respostas simples para evitar o seu crescimento. Cabe-nos a todos  - e os media têm nisso um papel importante -  “sustentar um debate normativo que nos ajude a distinguir e a resistir ao racismo, à política de identidade exclusivista, e defender a qualidade do discurso público”.

Foram estas as principais linhas de pensamento de um encontro organizado pela Universidade Católica para discutir o populismo e o papel dos media na sua descontrução. O evento académico, intitulado “Media and Populism – Winter School for the Study of Communication”, foi organizado pela Faculdade de Ciências Humanas e o respectivo Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa, onde se realizou entre 15 e 19 de Janeiro de 2019.

Uma das questões tratadas foi a da necessidade de definir aquilo de que falamos, tema importante para outra das participantes, a linguista austríaca Ruth Wodak, professora na Universidade de Lancaster. 

Expressões como “fake news”, “factos alternativos”, “politicamente correcto” e “populismo” são cada vez mais recorrentes.

Mas Wodak defende que só devemos usar estes conceitos “se os definirmos correctamente”. A académica acredita que poucos conhecerão a origem da expressão “politicamente correcto”, já desvirtuada do seu significado, pela forma como é aplicada de forma vaga no quotidiano.  

“Por exemplo, o politicamente correcto tem uma longa história de significados, oriundos do movimento de direitos civis dos EUA na década de 1960”, começa por contextualizar a especialista, em resposta ao Público

“Naquela época, as minorias, especificamente os afro-americanos, pediram para ser referidos de uma maneira politicamente correcta e de acordo com os nomes que eles próprios usavam. Outros rótulos pejorativos e negativos deviam tornar-se obsoletos”, conta-nos Wodak. Ora, foi a partir daí que “este conceito foi apropriado pela direita política e se tornou um polémico grito de guerra, pressupondo uma ‘polícia da língua’.” (...) 

A mesma lógica aplica-a ao populismo. “O populismo perdeu significado. Tudo agora é populismo”, critica. Wodak acredita que desconstruir estas definições através do estudo da linguagem pode ser uma das formas de combate contra os movimentos populistas. 

Segundo Risto Kunelius  - que aqui citamos do Público -  “devemos expor as falsidades e exigir justificações, evidenciar as mentiras e discrepâncias”. E, por fim, “pensar em práticas mais cooperativas e orientadas em termos de soluções conjuntas entre o jornalismo e redes de conhecimento e acção social, alertando para a consciencialização dos problemas que surgiram com a digitalização do contexto de media.” (...) 

E Barbie Zelizer, da Annenberg School for Communication, da Universidade Pensilvânia, nos EUA, tem uma avaliação ainda mais radical sobre os meios de resposta dos media:  

“Os jornalistas baseiam-se na objectividade e equilíbrio, deferência e moderação, pensamento dicotómico e mais uma série de práticas que trazem dos tempos da Guerra Fria, que hoje em dia já não funcionam para cobrir a actualidade”  - acredita, defendendo um corte com as práticas mais tradicionais do jornalismo. 

Também a linguista Ruth Wodak entende que umas das técnicas mais eficazes para estabelecer uma contra-narrativa populista é “entender o que a atrai nas pessoas” e recorrer à mesma fórmula, adaptando o seu conteúdo. A estratégia passa por olhar para os slogans, bandeiras, metáforas e representações utilizadas quer pela esquerda quer pela direita populista e transformar essa retórica num discurso positivo, com o recurso às mesmas bengalas de linguagem. (...) 

“No rescaldo da vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais do Brasil e em véspera de eleições europeias e legislativas, o timing para a realização deste encontro é curioso”, reconhece o director da Faculdade de Ciências Humanas da UCP, Nelson Ribeiro. Mas esclarece que o programa é “uma ideia já antiga” que começou a ser definida há três anos.


“O populismo  - ou os populismos -  enquanto fenómeno político é cada vez mais visível, preponderante e fundamental para percebermos o que está a acontecer na Europa”, justifica. “Sendo um ano muito desafiante, em que assistimos a um crescimento de movimentos populistas tanto à direita como à esquerda, é muito necessário termos estes debates”, defende Nelson Ribeiro. (...) 

“Tivemos uma enorme adesão de investigadores norte-americanos que quiseram estar nesta winter school. Acho que não preciso de explicar o porquê. Obviamente que Donald Trump é todo um caso de estudo. Mas não nos basta olhar para o que ele diz e rir das banalidades das coisas que vai dizendo. Ao representar o papel de uma pessoa que fala para o cidadão comum, Trump está a ser a ser eficaz no cumprimento dos seus objectivos”, aponta. (...)

 

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A cientista Fabiola Gianotti recebeu Prémio Helena Vaz da Silva Ver galeria

O Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian acolheu novamente a cerimónia de entrega do  Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, atribuído , este ano, a Fabiola Gianotti,  cientista italiana em Física de partículas e primeira mulher nomeada directora-geral do Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN), por ter contribuido para a divulgação da cultura científica de uma forma atractiva e acessível.

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É atribuído anualmente a um cidadão europeu, cuja carreira se tenha distinguido pela difusão, defesa, e promoção do património cultural da Europa, quer através de obras literárias e musicais, quer através de reportagens, artigos, crónicas, fotografias, cartoons, documentários, filmes de ficção e programas de rádio e/ou televisão.

O Prémio conta com o apoio do Ministério da Cultura, da Fundação Calouste Gulbenkian e do Turismo de Portugal.

Controlo de informação agrava-se e contamina vários países Ver galeria

A China e a Rússia utilizam técnicas de controlo de informação invasivos, desde as comunicações privadas dos cidadãos à censura. 

O uso de sistemas tecnológicos autoritários, por actores estatais, com o objectivo de diminuir os direitos humanos fundamentais dos cidadãos é algo que ultrapassa todos os limites. 

Valentin Weber, do Programa de Bolsas de Estudo de Controlo de Informações do Fundo Aberto de Tecnologia, decidiu realizar uma análise sistemática dos seus drivers e obteve sintomáti cos resultados. 

Através da pesquisa, Valentin descobriu que, até ao momento, mais de cem países compraram, imitaram ou receberam treino em controlo de informação da China e da Rússia.

Verificou, ainda,  casos de países cujos objectivos de controlo e monitorização da informação são semelhantes, como a Venezuela, o Egipto e Myanmar. 

Na lista surgiram, também, países possivelmente menos suspeitos, nos quais a conectividade se está a expandir, como Sudão, Uganda e Zimbábue; várias democracias ocidentais, como Alemanha, França e Holanda; e até mesmo pequenas nações como Trinidad e Tobago. 

“Ao todo, foram detectados 110 países  com tecnologia de vigilância ou censura importada da Rússia ou da China”, refere o artigo da OpenTechnology Fund, publicado no Global Investigative Journalism Network.

O Clube

Este site do Clube, lançado em Novembro de 2016, e com  actividade regular desde então, tem-se afirmado tanto como roteiro do que acontece de novo na paisagem mediática, como ainda no aprofundamento do debate sobre as questões mais relevantes do jornalismo, além do acompanhamento e divulgação das iniciativas do CPI.

O resultado deste esforço tem sido notório, com a fixação de um crescente número de visitantes, oriundos de uma alargada panóplia de países, com relevo para os de língua portuguesa, facto que é muito estimulante e encorajador. 


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