Sábado, 20 de Abril, 2019
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Os Media podem contribuir para a "desconstrução" do populismo

Combater o populismo começa por conhecê-lo, indentificar as suas causas e os seus equívocos. O que o torna tão aliciante é o facto de “oferecer respostas simples para problemas complexos, construindo uma parede ou negando a ciência”  - afirma o investigador Risto Kunelius, da Universidade de Helsínquia, na Finlândia. Ora, precisamente, não há respostas simples para evitar o seu crescimento. Cabe-nos a todos  - e os media têm nisso um papel importante -  “sustentar um debate normativo que nos ajude a distinguir e a resistir ao racismo, à política de identidade exclusivista, e defender a qualidade do discurso público”.

Foram estas as principais linhas de pensamento de um encontro organizado pela Universidade Católica para discutir o populismo e o papel dos media na sua descontrução. O evento académico, intitulado “Media and Populism – Winter School for the Study of Communication”, foi organizado pela Faculdade de Ciências Humanas e o respectivo Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa, onde se realizou entre 15 e 19 de Janeiro de 2019.

Uma das questões tratadas foi a da necessidade de definir aquilo de que falamos, tema importante para outra das participantes, a linguista austríaca Ruth Wodak, professora na Universidade de Lancaster. 

Expressões como “fake news”, “factos alternativos”, “politicamente correcto” e “populismo” são cada vez mais recorrentes.

Mas Wodak defende que só devemos usar estes conceitos “se os definirmos correctamente”. A académica acredita que poucos conhecerão a origem da expressão “politicamente correcto”, já desvirtuada do seu significado, pela forma como é aplicada de forma vaga no quotidiano.  

“Por exemplo, o politicamente correcto tem uma longa história de significados, oriundos do movimento de direitos civis dos EUA na década de 1960”, começa por contextualizar a especialista, em resposta ao Público

“Naquela época, as minorias, especificamente os afro-americanos, pediram para ser referidos de uma maneira politicamente correcta e de acordo com os nomes que eles próprios usavam. Outros rótulos pejorativos e negativos deviam tornar-se obsoletos”, conta-nos Wodak. Ora, foi a partir daí que “este conceito foi apropriado pela direita política e se tornou um polémico grito de guerra, pressupondo uma ‘polícia da língua’.” (...) 

A mesma lógica aplica-a ao populismo. “O populismo perdeu significado. Tudo agora é populismo”, critica. Wodak acredita que desconstruir estas definições através do estudo da linguagem pode ser uma das formas de combate contra os movimentos populistas. 

Segundo Risto Kunelius  - que aqui citamos do Público -  “devemos expor as falsidades e exigir justificações, evidenciar as mentiras e discrepâncias”. E, por fim, “pensar em práticas mais cooperativas e orientadas em termos de soluções conjuntas entre o jornalismo e redes de conhecimento e acção social, alertando para a consciencialização dos problemas que surgiram com a digitalização do contexto de media.” (...) 

E Barbie Zelizer, da Annenberg School for Communication, da Universidade Pensilvânia, nos EUA, tem uma avaliação ainda mais radical sobre os meios de resposta dos media:  

“Os jornalistas baseiam-se na objectividade e equilíbrio, deferência e moderação, pensamento dicotómico e mais uma série de práticas que trazem dos tempos da Guerra Fria, que hoje em dia já não funcionam para cobrir a actualidade”  - acredita, defendendo um corte com as práticas mais tradicionais do jornalismo. 

Também a linguista Ruth Wodak entende que umas das técnicas mais eficazes para estabelecer uma contra-narrativa populista é “entender o que a atrai nas pessoas” e recorrer à mesma fórmula, adaptando o seu conteúdo. A estratégia passa por olhar para os slogans, bandeiras, metáforas e representações utilizadas quer pela esquerda quer pela direita populista e transformar essa retórica num discurso positivo, com o recurso às mesmas bengalas de linguagem. (...) 

“No rescaldo da vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais do Brasil e em véspera de eleições europeias e legislativas, o timing para a realização deste encontro é curioso”, reconhece o director da Faculdade de Ciências Humanas da UCP, Nelson Ribeiro. Mas esclarece que o programa é “uma ideia já antiga” que começou a ser definida há três anos.


“O populismo  - ou os populismos -  enquanto fenómeno político é cada vez mais visível, preponderante e fundamental para percebermos o que está a acontecer na Europa”, justifica. “Sendo um ano muito desafiante, em que assistimos a um crescimento de movimentos populistas tanto à direita como à esquerda, é muito necessário termos estes debates”, defende Nelson Ribeiro. (...) 

“Tivemos uma enorme adesão de investigadores norte-americanos que quiseram estar nesta winter school. Acho que não preciso de explicar o porquê. Obviamente que Donald Trump é todo um caso de estudo. Mas não nos basta olhar para o que ele diz e rir das banalidades das coisas que vai dizendo. Ao representar o papel de uma pessoa que fala para o cidadão comum, Trump está a ser a ser eficaz no cumprimento dos seus objectivos”, aponta. (...)

 

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O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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