null, 5 de Julho, 2020
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Os Media podem contribuir para a "desconstrução" do populismo

Combater o populismo começa por conhecê-lo, indentificar as suas causas e os seus equívocos. O que o torna tão aliciante é o facto de “oferecer respostas simples para problemas complexos, construindo uma parede ou negando a ciência”  - afirma o investigador Risto Kunelius, da Universidade de Helsínquia, na Finlândia. Ora, precisamente, não há respostas simples para evitar o seu crescimento. Cabe-nos a todos  - e os media têm nisso um papel importante -  “sustentar um debate normativo que nos ajude a distinguir e a resistir ao racismo, à política de identidade exclusivista, e defender a qualidade do discurso público”.

Foram estas as principais linhas de pensamento de um encontro organizado pela Universidade Católica para discutir o populismo e o papel dos media na sua descontrução. O evento académico, intitulado “Media and Populism – Winter School for the Study of Communication”, foi organizado pela Faculdade de Ciências Humanas e o respectivo Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa, onde se realizou entre 15 e 19 de Janeiro de 2019.

Uma das questões tratadas foi a da necessidade de definir aquilo de que falamos, tema importante para outra das participantes, a linguista austríaca Ruth Wodak, professora na Universidade de Lancaster. 

Expressões como “fake news”, “factos alternativos”, “politicamente correcto” e “populismo” são cada vez mais recorrentes.

Mas Wodak defende que só devemos usar estes conceitos “se os definirmos correctamente”. A académica acredita que poucos conhecerão a origem da expressão “politicamente correcto”, já desvirtuada do seu significado, pela forma como é aplicada de forma vaga no quotidiano.  

“Por exemplo, o politicamente correcto tem uma longa história de significados, oriundos do movimento de direitos civis dos EUA na década de 1960”, começa por contextualizar a especialista, em resposta ao Público

“Naquela época, as minorias, especificamente os afro-americanos, pediram para ser referidos de uma maneira politicamente correcta e de acordo com os nomes que eles próprios usavam. Outros rótulos pejorativos e negativos deviam tornar-se obsoletos”, conta-nos Wodak. Ora, foi a partir daí que “este conceito foi apropriado pela direita política e se tornou um polémico grito de guerra, pressupondo uma ‘polícia da língua’.” (...) 

A mesma lógica aplica-a ao populismo. “O populismo perdeu significado. Tudo agora é populismo”, critica. Wodak acredita que desconstruir estas definições através do estudo da linguagem pode ser uma das formas de combate contra os movimentos populistas. 

Segundo Risto Kunelius  - que aqui citamos do Público -  “devemos expor as falsidades e exigir justificações, evidenciar as mentiras e discrepâncias”. E, por fim, “pensar em práticas mais cooperativas e orientadas em termos de soluções conjuntas entre o jornalismo e redes de conhecimento e acção social, alertando para a consciencialização dos problemas que surgiram com a digitalização do contexto de media.” (...) 

E Barbie Zelizer, da Annenberg School for Communication, da Universidade Pensilvânia, nos EUA, tem uma avaliação ainda mais radical sobre os meios de resposta dos media:  

“Os jornalistas baseiam-se na objectividade e equilíbrio, deferência e moderação, pensamento dicotómico e mais uma série de práticas que trazem dos tempos da Guerra Fria, que hoje em dia já não funcionam para cobrir a actualidade”  - acredita, defendendo um corte com as práticas mais tradicionais do jornalismo. 

Também a linguista Ruth Wodak entende que umas das técnicas mais eficazes para estabelecer uma contra-narrativa populista é “entender o que a atrai nas pessoas” e recorrer à mesma fórmula, adaptando o seu conteúdo. A estratégia passa por olhar para os slogans, bandeiras, metáforas e representações utilizadas quer pela esquerda quer pela direita populista e transformar essa retórica num discurso positivo, com o recurso às mesmas bengalas de linguagem. (...) 

“No rescaldo da vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais do Brasil e em véspera de eleições europeias e legislativas, o timing para a realização deste encontro é curioso”, reconhece o director da Faculdade de Ciências Humanas da UCP, Nelson Ribeiro. Mas esclarece que o programa é “uma ideia já antiga” que começou a ser definida há três anos.


“O populismo  - ou os populismos -  enquanto fenómeno político é cada vez mais visível, preponderante e fundamental para percebermos o que está a acontecer na Europa”, justifica. “Sendo um ano muito desafiante, em que assistimos a um crescimento de movimentos populistas tanto à direita como à esquerda, é muito necessário termos estes debates”, defende Nelson Ribeiro. (...) 

“Tivemos uma enorme adesão de investigadores norte-americanos que quiseram estar nesta winter school. Acho que não preciso de explicar o porquê. Obviamente que Donald Trump é todo um caso de estudo. Mas não nos basta olhar para o que ele diz e rir das banalidades das coisas que vai dizendo. Ao representar o papel de uma pessoa que fala para o cidadão comum, Trump está a ser a ser eficaz no cumprimento dos seus objectivos”, aponta. (...)

 

Mais informação  no Público

Connosco
Lei de transparência aprovada no Brasil encontra resistências Ver galeria

Os “fact-checkers” brasileiros uniram-se contra a aprovação da “Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet”.

Segundo aqueles profissionais, esta lei aumenta o poder do Senado perante os “media”, porque lhes permite distinguir, oficialmente, o que é informação do que é “fake news”

O texto estabelece, ainda, que as autoridades podem rastrear mensagens replicadas nas redes sociais.

Em entrevista ao instituto Poynter, Natália Leal, coordenadora da empresa de “fact-checking” Agência Lupa, constatou, ainda, que o documento permite ao Governo definir o que é a verificação de factos, e levantar condicionantes às suas actividades. Até porque, alguma figuras políticas, que apoiaram a aprovação da lei, consideram que o “fact-checking” não é mais do que um posicionamento ideológico.


A distribuidora Presstalis reaparece como France Messagerie Ver galeria

A Presstalis -- principal distribuidora de imprensa em França -- foi salva, depois de o Tribunal de Comércio de Paris ratificar a oferta de aquisição, apresentada pela Cooperativa de jornais diários franceses. 

A empresa, que foi rebaptizada de "France Messagerie", passará a empregar cerca de 300 pessoas, o que representa uma redução da força laboral para um terço.

"A prioridade da France Messagerie é, agora, construir relações de confiança, transparentes e duradouras com todos os actores do sector", sublinhou, num comunicado à imprensa Louis Dreyfus, Presidente da Cooperativa dos jornais diários, France Messagerie e do Conselho de Administração do Grupo Le Monde.

O “rebranding” da distribuidora é, contudo, apenas um primeiro passo, já que a empresa deverá fundir as operações com a Messageries Lyonnaises de Presse (MLP), no prazo de três anos.


O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Agenda
27
Jul
Jornalismo ético como garantia de democracia
09:30 @ Universidade de Madrid
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague