Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Opinião

Jornalismo a meia-haste

por Graça Franco

Atropelados pela ditadura do entretenimento, podemos enquanto “informadores” desde já colocar a bandeira a meia-haste. O jornalismo não está a morrer. Está a cometer suicídio em direto.

Temi que algum jornalista se oferecesse para partilhar a cadeia com Armando Vara, só para ver como este se sentia “já lá dentro”. A porta ia-se fechando, em câmara lenta, e o enxame de microfones não largava a presa. O ex-banqueiro em tempos já se tinha visto rodeado do mesmo lamentável espetáculo de câmaras a atropelarem-se, para esmolar o “soundbite” que permitiria abrir o jornal da noite desse dia com o vómito sorridente do seu imenso poder. Talvez Vara gostasse desse ataque, agora repetido, com as câmaras atraídas pelo cheiro da putrefação da dignidade perdida e da humilhação total.

Às 16 horas e 45 minutos “é o momento em que chega Armando Vara” para se dirigir “à cela do rés-do-chão, a mais próxima do guarda da ala, onde antes estavam dois outros detidos que acabaram por ser deslocados…”. Que interesse público existe nisto? Nenhum. Mas o relato prossegue indiferente ao facto de aquele nome corresponder, agora, apenas a um homem que, no seu compreensível sofrimento, precisava de mais caridade do que de publicidade. A exemplaridade na Justiça poucas vezes é “exemplar”.

“Era o momento aguardado por muitos jornalistas” dizia a repórter em direto. Não a critico. Escalada para o serviço, enregelada, certamente tão interessada no caso e nos pormenores como outro português qualquer, falava como se estivesse programada para desempenhar aquele papel. Tão esquecida, como todos os outros, do código deontológico que proíbe que se façam perguntas a pessoas que estejam perturbadas e incapazes da serenidade necessária à resposta (artigo 8.º “(…) o jornalista deve proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor”).

Vara saiu do carro, enquanto apertava nervoso o casaco, murmurava que aquele era “o pior momento” da sua vida. Não bastou para que ninguém lhe virasse as costas e desligasse as luzes para o deixar em paz nesse seu luto. Numa das TVs, passados aqueles penosos dez minutos, alguém teve a decisão peregrina de voltar ao princípio. “Vamos rever”… mais dez minutos de inglória.

Não tenho por Vara nenhuma simpatia (como já não tinha por Sócrates, que foi uma vitima de igual ou pior tratamento). Na Renascença uma única vez divulgámos a fonte que nos tinha manipulado. Dissemos o seu nome. Enfrentámos o poder de Vara, que na época já era muito, embora só fosse ainda um secretário de Estado responsável pela Segurança Rodoviária. Chamou-nos mentirosos e nós devolvemos o insulto e provámos quem afinal mentia.

Isto talvez bastasse para não nos interessarmos muito pela sua sorte agora. Mas não. O Armando Vara que foi preso é um Armando como nós, que de Vara já tem pouco.

Já lá vai. Sobretudo esta não é a hora para repisar o vencido.

O Cardeal Patriarca de Lisboa pediu esta semana, na abertura do ano judicial, honestidade aos jornalistas para que se evitem julgamentos precipitados, na praça pública, através da comunicação social. Em si mesmo, o pedido podia ter sido feito por qualquer outra personalidade presente na cerimónia. Marcelo formulou algo de muito semelhante, ao pedir que não se diabolizassem nem endeusassem alguns agentes da Justiça, nem se olhasse o andamento dos processos como quem segue eleições (aqui a indireta era para Joana Marques Vidal e Carlos Alexandre como potenciais endeusados…).

Acrescentou o Patriarca: a comunicação é um “grande bem”, mas “depende do sentido de Justiça que realmente se tenha, quer da parte de quem informa, quer da parte de quem recebe a informação”, pedindo aos jornalistas honestidade para que não deturpem factos, que não julguem “a priori”, “não recolhendo fraudulentamente os dados, nem os manipulando depois”.

Um recado que ia direitinho para uma reportagem da TVI, recém emitida, sobre a forma como a Igreja lida com a questão da sexualidade na sua versão homo. Independentemente do tema, o que chocou e enlutou boa parte da classe foi o uso e abuso de métodos a todos os títulos condenáveis pelos próprios códigos da profissão. Câmaras ocultas para filmar e gravar conversas com profissionais de saúde, grupos paroquiais de anónimos em busca de ajuda pastoral e, para cúmulo, uma conversa de direção espiritual entre um jovem supostamente católico e um padre. Nada que não pudesse revelar-se à luz do dia e com o conhecimento dos visados, não fora pretender-se embrulhar “o caso” num suposto “secretismo” inexistente. Aliás, a psicóloga visada aceitou até estar presente para debater posteriormente, em estúdio, o teor de uma reportagem que a filmara secretamente, sem que esta o soubesse.

D. Manuel insiste: “Para dar a cada um o que lhe é devido, a Justiça como virtude básica e como prática judicial tem de incidir particularmente na qualidade da comunicação, de que afinal todos somos agentes, ativos ou passivos. Para que em tudo se respeite a todos e ninguém saia lesado. Mesmo quando for preciso denunciar o mal – e infelizmente não faltam ocasiões para isso – tenhamos em conta que se trata de pessoas, que nunca perdem a dignidade essencial que as qualifica.”

Para cúmulo, esta semana a mesma TV reincide e, a propósito da defesa da qualificação como vitimas de violência doméstica de duas crianças, devassa-lhes a vida, volta a agredi-las de forma inadmissível. Revela os seus nomes e recorda-lhes as agressões que sofreram e que foram praticadas entre os seus progenitores, repete inclusivamente os insultos proferidos pelo pai contra a mãe, mas, como se isto não bastasse, permite ao agressor utilizar um dos menores, manipulando-o uma vez mais, para assumir a sua defesa em direto, no debate que se seguia na TV. E ninguém diz nada. E ninguém diz "Chega".

O ano judicial começa, em matéria comunicacional, numa semana (mais uma) triste para o jornalismo – que vive nesta espécie de morte lenta a que o condena a furiosa luta pelas audiências. É caso para dizer que, atropelados pela ditadura do entretenimento, podemos enquanto “informadores” desde já colocar a bandeira a meia-haste. O jornalismo não está a morrer. Está a cometer suicídio em direto. Com muitos de nós a mover-se, de olhos fechados, em bandos, titubeantes, como sombras de redações fantasmas.


( Texto publicado originalmente no site da Rádio Renascença)

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

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Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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