Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
Opinião

Jornalismo a meia-haste

por Graça Franco

Atropelados pela ditadura do entretenimento, podemos enquanto “informadores” desde já colocar a bandeira a meia-haste. O jornalismo não está a morrer. Está a cometer suicídio em direto.

Temi que algum jornalista se oferecesse para partilhar a cadeia com Armando Vara, só para ver como este se sentia “já lá dentro”. A porta ia-se fechando, em câmara lenta, e o enxame de microfones não largava a presa. O ex-banqueiro em tempos já se tinha visto rodeado do mesmo lamentável espetáculo de câmaras a atropelarem-se, para esmolar o “soundbite” que permitiria abrir o jornal da noite desse dia com o vómito sorridente do seu imenso poder. Talvez Vara gostasse desse ataque, agora repetido, com as câmaras atraídas pelo cheiro da putrefação da dignidade perdida e da humilhação total.

Às 16 horas e 45 minutos “é o momento em que chega Armando Vara” para se dirigir “à cela do rés-do-chão, a mais próxima do guarda da ala, onde antes estavam dois outros detidos que acabaram por ser deslocados…”. Que interesse público existe nisto? Nenhum. Mas o relato prossegue indiferente ao facto de aquele nome corresponder, agora, apenas a um homem que, no seu compreensível sofrimento, precisava de mais caridade do que de publicidade. A exemplaridade na Justiça poucas vezes é “exemplar”.

“Era o momento aguardado por muitos jornalistas” dizia a repórter em direto. Não a critico. Escalada para o serviço, enregelada, certamente tão interessada no caso e nos pormenores como outro português qualquer, falava como se estivesse programada para desempenhar aquele papel. Tão esquecida, como todos os outros, do código deontológico que proíbe que se façam perguntas a pessoas que estejam perturbadas e incapazes da serenidade necessária à resposta (artigo 8.º “(…) o jornalista deve proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor”).

Vara saiu do carro, enquanto apertava nervoso o casaco, murmurava que aquele era “o pior momento” da sua vida. Não bastou para que ninguém lhe virasse as costas e desligasse as luzes para o deixar em paz nesse seu luto. Numa das TVs, passados aqueles penosos dez minutos, alguém teve a decisão peregrina de voltar ao princípio. “Vamos rever”… mais dez minutos de inglória.

Não tenho por Vara nenhuma simpatia (como já não tinha por Sócrates, que foi uma vitima de igual ou pior tratamento). Na Renascença uma única vez divulgámos a fonte que nos tinha manipulado. Dissemos o seu nome. Enfrentámos o poder de Vara, que na época já era muito, embora só fosse ainda um secretário de Estado responsável pela Segurança Rodoviária. Chamou-nos mentirosos e nós devolvemos o insulto e provámos quem afinal mentia.

Isto talvez bastasse para não nos interessarmos muito pela sua sorte agora. Mas não. O Armando Vara que foi preso é um Armando como nós, que de Vara já tem pouco.

Já lá vai. Sobretudo esta não é a hora para repisar o vencido.

O Cardeal Patriarca de Lisboa pediu esta semana, na abertura do ano judicial, honestidade aos jornalistas para que se evitem julgamentos precipitados, na praça pública, através da comunicação social. Em si mesmo, o pedido podia ter sido feito por qualquer outra personalidade presente na cerimónia. Marcelo formulou algo de muito semelhante, ao pedir que não se diabolizassem nem endeusassem alguns agentes da Justiça, nem se olhasse o andamento dos processos como quem segue eleições (aqui a indireta era para Joana Marques Vidal e Carlos Alexandre como potenciais endeusados…).

Acrescentou o Patriarca: a comunicação é um “grande bem”, mas “depende do sentido de Justiça que realmente se tenha, quer da parte de quem informa, quer da parte de quem recebe a informação”, pedindo aos jornalistas honestidade para que não deturpem factos, que não julguem “a priori”, “não recolhendo fraudulentamente os dados, nem os manipulando depois”.

Um recado que ia direitinho para uma reportagem da TVI, recém emitida, sobre a forma como a Igreja lida com a questão da sexualidade na sua versão homo. Independentemente do tema, o que chocou e enlutou boa parte da classe foi o uso e abuso de métodos a todos os títulos condenáveis pelos próprios códigos da profissão. Câmaras ocultas para filmar e gravar conversas com profissionais de saúde, grupos paroquiais de anónimos em busca de ajuda pastoral e, para cúmulo, uma conversa de direção espiritual entre um jovem supostamente católico e um padre. Nada que não pudesse revelar-se à luz do dia e com o conhecimento dos visados, não fora pretender-se embrulhar “o caso” num suposto “secretismo” inexistente. Aliás, a psicóloga visada aceitou até estar presente para debater posteriormente, em estúdio, o teor de uma reportagem que a filmara secretamente, sem que esta o soubesse.

D. Manuel insiste: “Para dar a cada um o que lhe é devido, a Justiça como virtude básica e como prática judicial tem de incidir particularmente na qualidade da comunicação, de que afinal todos somos agentes, ativos ou passivos. Para que em tudo se respeite a todos e ninguém saia lesado. Mesmo quando for preciso denunciar o mal – e infelizmente não faltam ocasiões para isso – tenhamos em conta que se trata de pessoas, que nunca perdem a dignidade essencial que as qualifica.”

Para cúmulo, esta semana a mesma TV reincide e, a propósito da defesa da qualificação como vitimas de violência doméstica de duas crianças, devassa-lhes a vida, volta a agredi-las de forma inadmissível. Revela os seus nomes e recorda-lhes as agressões que sofreram e que foram praticadas entre os seus progenitores, repete inclusivamente os insultos proferidos pelo pai contra a mãe, mas, como se isto não bastasse, permite ao agressor utilizar um dos menores, manipulando-o uma vez mais, para assumir a sua defesa em direto, no debate que se seguia na TV. E ninguém diz nada. E ninguém diz "Chega".

O ano judicial começa, em matéria comunicacional, numa semana (mais uma) triste para o jornalismo – que vive nesta espécie de morte lenta a que o condena a furiosa luta pelas audiências. É caso para dizer que, atropelados pela ditadura do entretenimento, podemos enquanto “informadores” desde já colocar a bandeira a meia-haste. O jornalismo não está a morrer. Está a cometer suicídio em direto. Com muitos de nós a mover-se, de olhos fechados, em bandos, titubeantes, como sombras de redações fantasmas.


( Texto publicado originalmente no site da Rádio Renascença)

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Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

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O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

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