Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
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Apoio das grandes plataformas ao jornalismo pode ser um equívoco

O Facebook anunciou, muito recentemente, a intenção de gastar 300 milhões de dólares, durante três anos, em conteúdos, parcerias e programas de jornalismo. Este propósito põe-no a par da despesa que o gigante rival, a Google, disse que iria gastar em programas semelhantes  -  “mas, mais importante do que tudo, aumenta a já perigosa co-dependência entre as grandes empresas tecnológicas e os jornais”.

“Tanto a crise financeira do jornalismo como o domínio das grandes plataformas tecnológicas são assuntos importantes, mas são misturados demasiadas vezes; académicos e legisladores europeus têm feito confluir, nos últimos anos, estes discursos separados, sugerindo que há uma solução fácil  - pondo as empresas a financiar o jornalismo. É uma ideia tentadora, e está a criar raízes nos Estados Unidos, mas na verdade seria um erro sério, em especial quando se trata da confiança dos leitores.”

A reflexão é do jornalista britânico James Ball, autor, entre outros, do livro Post-Truth: How Bullshit Conquered the World  [Pós-Verdade: de que modo a treta conquistou o Mundo].
O artigo é publicado na Columbia Journalism Review.

“Muitos consideram, com razão, a ascenção das grandes empresas tecnológicas, especialmente das redes sociais, como a raiz dos problemas do jornalismo. Google e Facebook não só dominam o mercado digital   - as duas juntas ocupam quase dois terços desse mercado -  mas além disso as redes sociais desempenharam um papel dominante na divulgação de desinformação online e na procura do clickbait, que foram grandes contribuintes para a crise da confiança nos media.” 

A ideia da imposição de uma contribuição dessas empresas, a usar como apoio ao jornalismo de interesse público, já tem um longo caminho, e este gesto do Facebook não é sem precedentes. Ao longo dos anos já financiou várias iniciativas, incluindo o estabelecimento de relações com organizações de fact-checking, para combater as fake news na sua plataforma, e um fundo de 4.5 milhões de libras para formação de repórteres locais no Reino Unido. 

A Google anunciou, em Março, que ia gastar 300 milhões de dólares em projectos jornalísticos; uma despesa significativa, mas menos de 1% da sua receita, e parcialmente gasto em melhoria dos seus próprios serviços. 

“Os críticos são severos, designando esses esforços como simples ‘folhas de figueira’, ou manobras de cosmética, para distrairem ou adiarem reformas de fundo  - ou como um modo de parecer que estão a tratar do problema da desinformação (incluindo a da Rússia) nas suas próprias plataformas.” 

Em 2017, Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism na Universidade de Columbia, dirigiu um apelo às empresas tecnológicas para que reunissem uma doação de mil milhões de dólares para o jornalismo, “sobre o qual não teriam controlo”. Segundo afirmou então, “se cada bilionário das tecnológicas comprasse um jornal, podíamos conseguir algo semelhante; mas nessa altura a sustentabilidade ficaria dependente apenas do lucro e da riqueza pessoal”. (...) 

O autor recorda que, durante grande parte da sua história, o jornalismo foi apoiado por mecenato. “A publicidade permitiu ao jornalismo escapar disso, mas um regresso ao mecenato [patronage, no original]  - por via das empresas tecnológicas -  não é a resposta.” 

Recorda, também, que há mais serviços de interesse público que foram feridos pela revolução tecnológica e o domínio das grandes plataformas. E esta seria mais uma das fraquezas do projecto de uma imposição de contribuição directa das mesmas para os media

“Isso é tratar o jornalismo como uma excepção, um caso raro de interacção entre o disruptor e o ferido pela disrupção. Se nos focarmos só no nosso próprio negócio, arriscamo-nos a perder um quadro muito mais vasto  - assim como nos arriscamos a criar a impressão de que estamos a intervir em nosso favor, quando todos os outros têm de se aguentar.” 

“Ligar o futuro do jornalismo a um imposto sobre as empresas tecnológicas ou as redes sociais amarra ambos ainda mais, tornando uma relação de co-dependência que já é perigosa ainda menos saudável  - e podendo comprometer o jornalismo aos olhos dos leitores.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra na Columbia Journalism Review

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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