Sábado, 20 de Abril, 2019
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Apoio das grandes plataformas ao jornalismo pode ser um equívoco

O Facebook anunciou, muito recentemente, a intenção de gastar 300 milhões de dólares, durante três anos, em conteúdos, parcerias e programas de jornalismo. Este propósito põe-no a par da despesa que o gigante rival, a Google, disse que iria gastar em programas semelhantes  -  “mas, mais importante do que tudo, aumenta a já perigosa co-dependência entre as grandes empresas tecnológicas e os jornais”.

“Tanto a crise financeira do jornalismo como o domínio das grandes plataformas tecnológicas são assuntos importantes, mas são misturados demasiadas vezes; académicos e legisladores europeus têm feito confluir, nos últimos anos, estes discursos separados, sugerindo que há uma solução fácil  - pondo as empresas a financiar o jornalismo. É uma ideia tentadora, e está a criar raízes nos Estados Unidos, mas na verdade seria um erro sério, em especial quando se trata da confiança dos leitores.”

A reflexão é do jornalista britânico James Ball, autor, entre outros, do livro Post-Truth: How Bullshit Conquered the World  [Pós-Verdade: de que modo a treta conquistou o Mundo].
O artigo é publicado na Columbia Journalism Review.

“Muitos consideram, com razão, a ascenção das grandes empresas tecnológicas, especialmente das redes sociais, como a raiz dos problemas do jornalismo. Google e Facebook não só dominam o mercado digital   - as duas juntas ocupam quase dois terços desse mercado -  mas além disso as redes sociais desempenharam um papel dominante na divulgação de desinformação online e na procura do clickbait, que foram grandes contribuintes para a crise da confiança nos media.” 

A ideia da imposição de uma contribuição dessas empresas, a usar como apoio ao jornalismo de interesse público, já tem um longo caminho, e este gesto do Facebook não é sem precedentes. Ao longo dos anos já financiou várias iniciativas, incluindo o estabelecimento de relações com organizações de fact-checking, para combater as fake news na sua plataforma, e um fundo de 4.5 milhões de libras para formação de repórteres locais no Reino Unido. 

A Google anunciou, em Março, que ia gastar 300 milhões de dólares em projectos jornalísticos; uma despesa significativa, mas menos de 1% da sua receita, e parcialmente gasto em melhoria dos seus próprios serviços. 

“Os críticos são severos, designando esses esforços como simples ‘folhas de figueira’, ou manobras de cosmética, para distrairem ou adiarem reformas de fundo  - ou como um modo de parecer que estão a tratar do problema da desinformação (incluindo a da Rússia) nas suas próprias plataformas.” 

Em 2017, Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism na Universidade de Columbia, dirigiu um apelo às empresas tecnológicas para que reunissem uma doação de mil milhões de dólares para o jornalismo, “sobre o qual não teriam controlo”. Segundo afirmou então, “se cada bilionário das tecnológicas comprasse um jornal, podíamos conseguir algo semelhante; mas nessa altura a sustentabilidade ficaria dependente apenas do lucro e da riqueza pessoal”. (...) 

O autor recorda que, durante grande parte da sua história, o jornalismo foi apoiado por mecenato. “A publicidade permitiu ao jornalismo escapar disso, mas um regresso ao mecenato [patronage, no original]  - por via das empresas tecnológicas -  não é a resposta.” 

Recorda, também, que há mais serviços de interesse público que foram feridos pela revolução tecnológica e o domínio das grandes plataformas. E esta seria mais uma das fraquezas do projecto de uma imposição de contribuição directa das mesmas para os media

“Isso é tratar o jornalismo como uma excepção, um caso raro de interacção entre o disruptor e o ferido pela disrupção. Se nos focarmos só no nosso próprio negócio, arriscamo-nos a perder um quadro muito mais vasto  - assim como nos arriscamos a criar a impressão de que estamos a intervir em nosso favor, quando todos os outros têm de se aguentar.” 

“Ligar o futuro do jornalismo a um imposto sobre as empresas tecnológicas ou as redes sociais amarra ambos ainda mais, tornando uma relação de co-dependência que já é perigosa ainda menos saudável  - e podendo comprometer o jornalismo aos olhos dos leitores.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra na Columbia Journalism Review

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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