Segunda-feira, 19 de Agosto, 2019
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Apoio das grandes plataformas ao jornalismo pode ser um equívoco

O Facebook anunciou, muito recentemente, a intenção de gastar 300 milhões de dólares, durante três anos, em conteúdos, parcerias e programas de jornalismo. Este propósito põe-no a par da despesa que o gigante rival, a Google, disse que iria gastar em programas semelhantes  -  “mas, mais importante do que tudo, aumenta a já perigosa co-dependência entre as grandes empresas tecnológicas e os jornais”.

“Tanto a crise financeira do jornalismo como o domínio das grandes plataformas tecnológicas são assuntos importantes, mas são misturados demasiadas vezes; académicos e legisladores europeus têm feito confluir, nos últimos anos, estes discursos separados, sugerindo que há uma solução fácil  - pondo as empresas a financiar o jornalismo. É uma ideia tentadora, e está a criar raízes nos Estados Unidos, mas na verdade seria um erro sério, em especial quando se trata da confiança dos leitores.”

A reflexão é do jornalista britânico James Ball, autor, entre outros, do livro Post-Truth: How Bullshit Conquered the World  [Pós-Verdade: de que modo a treta conquistou o Mundo].
O artigo é publicado na Columbia Journalism Review.

“Muitos consideram, com razão, a ascenção das grandes empresas tecnológicas, especialmente das redes sociais, como a raiz dos problemas do jornalismo. Google e Facebook não só dominam o mercado digital   - as duas juntas ocupam quase dois terços desse mercado -  mas além disso as redes sociais desempenharam um papel dominante na divulgação de desinformação online e na procura do clickbait, que foram grandes contribuintes para a crise da confiança nos media.” 

A ideia da imposição de uma contribuição dessas empresas, a usar como apoio ao jornalismo de interesse público, já tem um longo caminho, e este gesto do Facebook não é sem precedentes. Ao longo dos anos já financiou várias iniciativas, incluindo o estabelecimento de relações com organizações de fact-checking, para combater as fake news na sua plataforma, e um fundo de 4.5 milhões de libras para formação de repórteres locais no Reino Unido. 

A Google anunciou, em Março, que ia gastar 300 milhões de dólares em projectos jornalísticos; uma despesa significativa, mas menos de 1% da sua receita, e parcialmente gasto em melhoria dos seus próprios serviços. 

“Os críticos são severos, designando esses esforços como simples ‘folhas de figueira’, ou manobras de cosmética, para distrairem ou adiarem reformas de fundo  - ou como um modo de parecer que estão a tratar do problema da desinformação (incluindo a da Rússia) nas suas próprias plataformas.” 

Em 2017, Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism na Universidade de Columbia, dirigiu um apelo às empresas tecnológicas para que reunissem uma doação de mil milhões de dólares para o jornalismo, “sobre o qual não teriam controlo”. Segundo afirmou então, “se cada bilionário das tecnológicas comprasse um jornal, podíamos conseguir algo semelhante; mas nessa altura a sustentabilidade ficaria dependente apenas do lucro e da riqueza pessoal”. (...) 

O autor recorda que, durante grande parte da sua história, o jornalismo foi apoiado por mecenato. “A publicidade permitiu ao jornalismo escapar disso, mas um regresso ao mecenato [patronage, no original]  - por via das empresas tecnológicas -  não é a resposta.” 

Recorda, também, que há mais serviços de interesse público que foram feridos pela revolução tecnológica e o domínio das grandes plataformas. E esta seria mais uma das fraquezas do projecto de uma imposição de contribuição directa das mesmas para os media

“Isso é tratar o jornalismo como uma excepção, um caso raro de interacção entre o disruptor e o ferido pela disrupção. Se nos focarmos só no nosso próprio negócio, arriscamo-nos a perder um quadro muito mais vasto  - assim como nos arriscamos a criar a impressão de que estamos a intervir em nosso favor, quando todos os outros têm de se aguentar.” 

“Ligar o futuro do jornalismo a um imposto sobre as empresas tecnológicas ou as redes sociais amarra ambos ainda mais, tornando uma relação de co-dependência que já é perigosa ainda menos saudável  - e podendo comprometer o jornalismo aos olhos dos leitores.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra na Columbia Journalism Review

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

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