Sexta-feira, 21 de Fevereiro, 2020
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Apoio das grandes plataformas ao jornalismo pode ser um equívoco

O Facebook anunciou, muito recentemente, a intenção de gastar 300 milhões de dólares, durante três anos, em conteúdos, parcerias e programas de jornalismo. Este propósito põe-no a par da despesa que o gigante rival, a Google, disse que iria gastar em programas semelhantes  -  “mas, mais importante do que tudo, aumenta a já perigosa co-dependência entre as grandes empresas tecnológicas e os jornais”.

“Tanto a crise financeira do jornalismo como o domínio das grandes plataformas tecnológicas são assuntos importantes, mas são misturados demasiadas vezes; académicos e legisladores europeus têm feito confluir, nos últimos anos, estes discursos separados, sugerindo que há uma solução fácil  - pondo as empresas a financiar o jornalismo. É uma ideia tentadora, e está a criar raízes nos Estados Unidos, mas na verdade seria um erro sério, em especial quando se trata da confiança dos leitores.”

A reflexão é do jornalista britânico James Ball, autor, entre outros, do livro Post-Truth: How Bullshit Conquered the World  [Pós-Verdade: de que modo a treta conquistou o Mundo].
O artigo é publicado na Columbia Journalism Review.

“Muitos consideram, com razão, a ascenção das grandes empresas tecnológicas, especialmente das redes sociais, como a raiz dos problemas do jornalismo. Google e Facebook não só dominam o mercado digital   - as duas juntas ocupam quase dois terços desse mercado -  mas além disso as redes sociais desempenharam um papel dominante na divulgação de desinformação online e na procura do clickbait, que foram grandes contribuintes para a crise da confiança nos media.” 

A ideia da imposição de uma contribuição dessas empresas, a usar como apoio ao jornalismo de interesse público, já tem um longo caminho, e este gesto do Facebook não é sem precedentes. Ao longo dos anos já financiou várias iniciativas, incluindo o estabelecimento de relações com organizações de fact-checking, para combater as fake news na sua plataforma, e um fundo de 4.5 milhões de libras para formação de repórteres locais no Reino Unido. 

A Google anunciou, em Março, que ia gastar 300 milhões de dólares em projectos jornalísticos; uma despesa significativa, mas menos de 1% da sua receita, e parcialmente gasto em melhoria dos seus próprios serviços. 

“Os críticos são severos, designando esses esforços como simples ‘folhas de figueira’, ou manobras de cosmética, para distrairem ou adiarem reformas de fundo  - ou como um modo de parecer que estão a tratar do problema da desinformação (incluindo a da Rússia) nas suas próprias plataformas.” 

Em 2017, Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism na Universidade de Columbia, dirigiu um apelo às empresas tecnológicas para que reunissem uma doação de mil milhões de dólares para o jornalismo, “sobre o qual não teriam controlo”. Segundo afirmou então, “se cada bilionário das tecnológicas comprasse um jornal, podíamos conseguir algo semelhante; mas nessa altura a sustentabilidade ficaria dependente apenas do lucro e da riqueza pessoal”. (...) 

O autor recorda que, durante grande parte da sua história, o jornalismo foi apoiado por mecenato. “A publicidade permitiu ao jornalismo escapar disso, mas um regresso ao mecenato [patronage, no original]  - por via das empresas tecnológicas -  não é a resposta.” 

Recorda, também, que há mais serviços de interesse público que foram feridos pela revolução tecnológica e o domínio das grandes plataformas. E esta seria mais uma das fraquezas do projecto de uma imposição de contribuição directa das mesmas para os media

“Isso é tratar o jornalismo como uma excepção, um caso raro de interacção entre o disruptor e o ferido pela disrupção. Se nos focarmos só no nosso próprio negócio, arriscamo-nos a perder um quadro muito mais vasto  - assim como nos arriscamos a criar a impressão de que estamos a intervir em nosso favor, quando todos os outros têm de se aguentar.” 

“Ligar o futuro do jornalismo a um imposto sobre as empresas tecnológicas ou as redes sociais amarra ambos ainda mais, tornando uma relação de co-dependência que já é perigosa ainda menos saudável  - e podendo comprometer o jornalismo aos olhos dos leitores.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra na Columbia Journalism Review

Connosco
Literacia mediática como ferramenta contra desinformação Ver galeria

Para além da infecção provocada pelo novo coronavírus, identificado na China, estamos, agora, a assistir à disseminação indiscriminada de notícias falsas sobre o tema, conforme refere Ricardo Torres, num artigo publicado na revista “objETHOS”.

De acordo com Torres, o volume e a nocividade das informações propagadas através dos “media” digitais, são o reflexo de formatos comunicacionais imersos num “ecossistema” que favorece a desinformação.

Em temas sensíveis, como a saúde, os riscos da disseminação maciça de informações falsas são ampliados e podem, mesmo, conduzir ao caos social e a um estado de pânico generalizado. 

A OMS tem tentado evitar situações de pânico e insegurança, fortalecendo a posição científica, desmistificando rumores e esclarecendo dúvidas. No entanto, o cenário difuso e hiperbólico, fortalecido pelo sensacionalismo, torna a missão informativa confusa e complexa.

A era digital veio complicar a narrativa jornalística Ver galeria

A era digital e a revolução tecnológica vieram alterar o panorama do jornalismo. Se, anteriormente, os jornalistas apenas tinham de  preocupar-se com o conteúdo produzido na redacção onde trabalhavam, hoje, terão de manter-se competitivos com outras plataformas, e escrever com base nos artigos de outros jornais.

Muitos jornalistas, da chamada “velha guarda”, ainda não  conseguiram adaptar-se à nova realidade, e continuam a depender de uma cultura profissional baseada num jornalismo linear e sequencial, o que impede, por vezes, a tão desejada diversidade dos formatos de apresentação informativa.

O jornalista Carlos Castilho, especializado em “media” digitais, escreveu um artigo para o “Observatório da Imprensa”, no qual reflecte sobre a urgência de adaptação aos novos modelos. 

O Clube


Três jornais açorianos celebram este ano aniversários redondos. O Diário dos Açores completa século e meio de existência , o que é marcante. O Jornal dos Açores perfaz cem anos, outra vitória sobre o tempo. E o Açoriano Oriental , chega aos 185 anos , uma longevidade qualificada , que o coloca entre os diários mais antigos em publicação. A todos o Clube Português de Imprensa felicita , pela resistência e pelo mérito , numa época em que floresce a falta de memória nas redações. E associa-se neste site às respectivas efemérides.
Houve tempo em que os jornais se felicitavam com júbilo, e parabenizavam os concorrentes aniversariantes. Tempos idos. Agora , ignoram-se como se houvesse um deserto à volta de cada um.
Ser diário centenário num arquipélago de pouca gente, de onde tantos emigraram, e sobreviver em confronto com a agressividade da Internet e dos audiovisuais , é proeza de vulto.
São uma lição que merece relevo, cheia de ensinamentos para outros que desistiram antes de tempo.

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Opinião
Neste primeiro semestre, três jornais açorianos comemoram uma longevidade assinalável. Conforme se regista noutros espaços deste site, o Diário dos Açores acabou de completar século e meio de existência;  em Abril, será a vez do Açoriano Oriental,  o mais antigo, soprar 185 velas; e, finalmente em Maio, o Correio dos Açores alcança o seu primeiro centenário. Em tempo de crise na Imprensa,...
O volume de investimento publicitário na imprensa tem estado em queda, mas vários estudos indicam que os leitores de jornais e revistas continuam a ser influenciados pela publicidade que encontram nas páginas das publicações que consomem regularmente. Por outro lado a análise dos dados do mais recente estudo Bareme Impresa, da Marktest, revela que os indivíduos da classe alta têm níveis de audiência de imprensa 40% acima dos...
Graves ameaças à BBC News
Francisco Sarsfield Cabral
A BBC é, provavelmente, a referência mundial mais importante do jornalismo. Foi uma rádio muito ouvida em Portugal no tempo da ditadura, para conhecer notícias que a censura não deixava publicar. E mesmo depois do 25 de Abril, durante o chamado PREC (processo revolucionário em curso) também o recurso à BBC News por vezes dava jeito para obter uma informação não distorcida por ideologias políticas.Ora a BBC News...