Quarta-feira, 23 de Outubro, 2019
Mundo

O grande drama da Internet é promover o "idiota da aldeia"

Antes do advento do espaço virtual, os “anti-intelectuais” estavam dispersos, não tinham noção da sua força e até se sentiam envergonhados. Mas tudo mudou com a Internet. Como afirmou Umberto Eco, “as redes sociais concederam o direito à palavra a uma ‘legião de imbecis’ que antes falavam apenas ‘num bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a colectividade”. Desse modo, conclui Eco, o grande drama da Internet é que ela pomoveu o “idiota da aldeia” a portador da verdade.

A reflexão é de Francisco Fernandes Ladeira, docente no IFES – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo, publicada no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O autor começa por referir determinados conceitos ultrapassados pelo conhecimento científico, mas recuperados por grupos que se mostram activos nas redes sociais: 

“Não por acaso, ideias absolutamente esdrúxulas como a chamada ‘Terra Plana’ tem ganhado um número cada vez maior de adeptos. Para os ‘terraplanistas’, o nosso planeta não é esférico, mas plano, com o formato de um disco circular. De acordo com essa ‘teoria’, não existe gravidade, o Polo Norte está localizado no centro do planeta e as estrelas estão ‘presas’ ao céu. Sendo assim, basta um mouse e um computador pessoal para que qualquer indivíduo possa ‘refutar’ teorias científicas corroboradas há séculos por importantes pensadores como Copérnico, Newton, Einstein.” (...) 

“No terreno pedagógico, os ‘anti-intelectuais’ (que nunca pisaram em uma sala de aula, excepto, é claro, como alunos) querem extirpar Paulo Freire das escolas, porém acreditam que as instituições de ensino brasileiras não respeitam os valores tradicionais da família, pois são responsáveis por promover a ‘ideologia de género’, o ‘cientificismo’ e a ‘doutrinação comunista’. No tocante à história do Brasil, a moda entre os ‘anti-intelectuais’ é ser ‘politicamente incorreto’ e negar acontecimentos como o massacre de indígenas durante o período colonial, a escravidão de negros e o golpe militar de 1964.” (...) 

Tendo citado alguns outros exemplos, o autor conclui: 

“Certa vez, Nélson Rodrigues disse que os idiotas tomariam conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos. Pois bem, os idiotas podem (ainda) não ter dominado o mundo, mas, certamente, estão dominando as redes sociais.”

 

 

O artigo aqui citado, na íntegra no Observatório da Imprensa

Connosco
Jornalistas deverão estar prevenidos para identificar e corrigir notícias falsas... Ver galeria

Existem várias lacunas na pesquisa de desinformação política e os debates contínuos sobre o que constitui as fake news e a sua classificação acabam por ser uma distracção, desviando as atenções das “questões críticas” relacionadas com o problema.

É importante reconhecer que as fake news existem, que estamos expostos a essas falsas informações, mas, se quisermos combatê-las, é indispensável procurar a sua origem, a sua forma de disseminação e analisar as consequências sociais e políticas.

É, ainda, imprescindível que os jornalistas estejam preparados e informados para não colaborarem na propagação deste tipo de informação.

Por vezes, o objectivo que se esconde em algumas fake news é que os media acabem por disseminá-las, acelerando a sua difusão. Por esse motivo, foi identificado o chamado “ponto de inflexão”, que representa o momento em que a história deixa de ser partilhada exclusivamente em “nichos” e acaba por atingir uma dimensão maior, alcançando várias comunidades. 

A jornalista Laura Hazard Owen abordou o tema num texto publicado no NiemanLab, no qual também faz referências à melhor forma de reconhecer os de conteúdos manipulados.

Suspensão de acordo do “Brexit” dividiu a imprensa britânica Ver galeria

Suspensa a aprovação do acordo no Parlamento britânico até que haja a regulamentação apropriada, a imprensa londrina apresentou-se dividida em relação ao Brexit.

Por um lado, a esperança de evitar um “não acordo” e uma saída abrupta, por outro a exaltação em relação à votação. 

Os media ingleses evidenciaram posições antagónicas em relação aos últimos acontecimentos e isso foi claro pela forma como abordaram a situação. 

Enquanto que o Sunday Express assumiu uma postura pró-Brexit e foi mais hostil com os deputados, acusando-os de atrasarem o processo, o Independent preferiu focar-se nas ruas, onde perto de um milhão de cidadãos se manifestaram para exigir que lhes seja dada a palavra final. Por sua vez, o Observer realçou a derrota do primeiro ministro, que se viu forçado a suspender a aprovação do acordo.

Le Monde publicou, entretanto, um texto no qual é feita uma análise dos media britânicos neste contexto.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
Ainda a nova legislatura não começou e já surgiu o primeiro caso político em torno da RTP. Infelizmente foi causado pelo comportamento recente da Direcção de Informação da estação em relação a um dos programas dessa área com maior audiência, o “Sexta às 9”, de Sandra Felgueiras, que regularmente apresenta investigações sobre casos da actualidade nacional.   O...
O chamado “jornalismo de causas “  voltou a estar na moda. E sobram os temas:  a “emergência climática”,   assumida por António Guterres enquanto secretário geral da ONU,  numa capa caricata da “Time”;  o “feito” de uma adolescente nórdica,   que atravessou o Atlântico num veleiro de luxo -  a pretexto de assim  reduzir o impacto ambiental -, para participar...
As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
J.-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de...
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