Sexta-feira, 17 de Janeiro, 2020
Media

O papel e o digital podem unir-se com vantagem do leitor

Citando a frase famosa atribuída a Mark Twain, os boatos sobre a morte dos jornais em papel foram muito exagerados. É verdade que as publicações digitais cresceram muitíssimo nos últimos anos, mas 58% dos assinantes ainda se descrevem como sendo em primeiro lugar leitores do impresso, e 60% a 80% das receitas dos media ainda vêm das edições impressas. Também é certo que os assinantes print-first são mais velhos, mas isso não significa que entre os mais jovens não haja quem esteja disposto a pagar pelo impresso.

A reflexão é de Ana Lobb, da plataforma MPP Global, que acrescenta: "Os editores estão, de modo inteligente, a assumir uma abordagem centrada nos utentes, para conquistarem novos assinantes e aprofundarem a sua relação com os que existem. Muitos tiram proveito dos dados que já têm e descobrem que não têm de escolher entre o impresso e o digital."

A solução pode passar por uma combinação dos meios: "Se um assinante quer uma assinatura digital do seu diário, mas ainda gosta do jornal em papel aos domingos, isso é fácil de tratar."

Segundo a autora do texto que citamos, “a importância do impresso não devia ser subestimada ou negligenciada”: 

“O perfil dos assinantes varia muitíssimo, mesmo na mesma publicação, e todos procuram experiências diferentes, na base daquilo que são, onde estão e que aparelhos usam ao longo do dia. Com mais informação do que alguma vez tiveram a respeito das audiências, e do modo como são consumidores dos media, os editores deviam considerar todas as opções para manterem os seus assinantes envolvidos com ofertas personalizadas.” (...) 

“Não é surpresa que os assinantes print-first e os que preferem o digital têm modos diferentes de se relacionarem com os conteúdos, e têm diferentes expectativas. Muitos dos primeiros são mais velhos e, de modo geral, fizeram assinatura para vários anos. Mas estes também se envolvem no digital, e até partilham conteúdos mais vezes do que os assinantes do digital.”

“Dito isto, os do digital-first ainda têm interesse no impresso. É por este motivo que vários editores digitais introduziram, nos últimos anos, revistas impressas, e alguns editores recentes introduziram novas publicações print-first, em pequenas quantidades. Até o Facebook lançou uma revista impressa intitulada Grow.” (...) 

A autora recorda alguns exemplos recentes de sucesso, ligados a grandes títulos bem conhecidos:  a assinatura de uma publicação impressa para crianças, por The New York Times; a síntese semanal, impressa, em The Guardian, pensada para poupar a sobrecarga do papel diário, mantendo “a satisfação e facilidade da leitura de um jornal em papel”; ou a mistura do Financial Times, que junta a oferta do impresso e do digital por um preço baixo. 

E outros editores propõem outras misturas, em que os assinantes podem escolher os vídeos, podcasts e conteúdos especiais, por exemplo de desporto ou de artes, para criarem a assinatura que lhes convém. 

A editora Amedia, na Noruega, é o exemplo de quem compreendeu a importância do impresso para a sua audiência de leitores locais:

“Nós fizémos uma proposta de valor: se quer o jornal entregue à sua porta todas as manhãs, pode tê-lo. Se não quiser, não é obrigado. Cada assinante do impresso é também do digital, portanto adquire esse valor e tem acesso a todos os canais digitais que usamos, porque simplificámos radicalmente a avaliação de custo dos nossos produtos e os preços que oferecemos.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra na FIPPInternational Federation of the Periodical Press

Connosco
Jornalistas sobem ao palco para contar as suas histórias ... Ver galeria

Os jornais deixaram de estar devidamente enraizados no seu lugar, os jornalistas não interagem com a comunidade e as comunidades de leitores estão a desintegrar-se. Uma nova tendência mediática está, contudo, a aproximar, novamente, os jornalistas das audiências. 

A imprensa de alguns países - como a Finlândia, Espanha e França -, está a começar a apostar num formato de "notícias ao vivo", onde os jornalistas estão, literalmente, em cima do palco e conversam com o público sobre as suas histórias, reportagens e vivências, o que está a ajudar o jornalismo a combater a crise de credibilidade. 

O público está pronto a conhecer a pesquisa preliminar dos jornalistas, que se mostram dispostos a partilhar os desenvolvimentos das suas histórias. Ouvir os jornalistas em “carne e osso” humaniza tanto as histórias quanto os escritores e levanta o véu sobre as práticas da redacção. Os participantes dos eventos ficam satisfeitos por terem a oportunidade de fazer perguntas, participar numa discussão e potencialmente influenciar a estratégia editorial.

Em Helsínquia, por exemplo, a “performance” do principal jornal diário está, habitualmente, esgotada. Em Madrid, o "Diário Vivo" oferece "uma noite única em que os jornalistas contam histórias verdadeiras, íntimas e universais pela primeira vez". O público compromete-se a não gravar o evento e, na Finlândia, reúne-se com os jornalistas para "tomar um copo", depois de saírem de cena.


Leitores franceses com reservas em relação aos “media” Ver galeria

Um estudo anual realizado para o diário francês "La Croix", revelou que há um decréscimo no interesse pela actualidade e que os leitores confiam cada vez menos nos "media".

Segundo a pesquisa, apenas 59% dos franceses segue as notícias com interesse "muito elevado" ou "elevado", 41% dizem que estão "muito pouco" ou "bastante pouco" interessados. Esta é a maior queda registada desde que este tipo de inquérito começou a ser realizado, em 1987, o que confirma uma certa apatia.

A confiança nos "media" continua extremamente baixa. Apenas 50% dos franceses considera que as notícias transmitidas na rádio são credíveis e a credibilidade em relação ao conteúdo televisivo é de apenas 40%. Os jornais têm a confiança de 46% das leitores e a internet é considerada o meio de informação menos fidedigno.

O fenómeno parece estar ligado, em parte, ao número de canais de informação, que se multiplica pelas redes sociais, e às notícias que muitas vezes provocam ansiedade e medo.


O Clube

Ao retomar a regularidade de actualização deste site, no inicio de outra década, achámos oportuno proceder ao  balanço do vasto material arquivado, designadamente, em textos de reflexão sobre a forma como está a ser exercido o jornalismo,  no contexto de um período extremamente exigente  para os novos e velhos  “media”.

O resultado dessa pesquisa retrospectiva foi muito estimulante, a ponto de termos sentido  ser um imperativo partilhá-la, no essencial,  com quem nos acompanha mais de perto, sendo, no entanto,  recém-chegados. 


ver mais >
Opinião
Apoiar a comunicação social
Francisco Sarsfield Cabral
O Presidente da República voltou a falar na necessidade de o Estado tomar medidas de apoio à comunicação social. Marcelo Rebelo de Sousa discursava na apresentação de um programa do “Público” para dar a estudantes universitários acesso gratuito a assinaturas daquele jornal, com o apoio de entidades privadas que pagam metade dos custos envolvidos. O Presidente entende, e bem, que o Estado tem responsabilidades neste campo e...
A “tabloidizacão” dos media portugueses parece imparável, com as televisões na dianteira, privadas e pública, sejam os canais generalistas ou temáticos. A obsessão pelos “casos” que puxem ao drama, ao pasmo ou à lágrima, tomou conta dos telejornais e da Imprensa. A frenética disputa das audiências nas TVs e a queda continuada das vendas nos jornais são, normalmente, apontadas...
Ainda a nova legislatura não começou e já surgiu o primeiro caso político em torno da RTP. Infelizmente foi causado pelo comportamento recente da Direcção de Informação da estação em relação a um dos programas dessa área com maior audiência, o “Sexta às 9”, de Sandra Felgueiras, que regularmente apresenta investigações sobre casos da actualidade nacional.   O...