Segunda-feira, 16 de Dezembro, 2019
Media

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"?

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."

O seu texto, que aqui citamos da Columbia Journalism Review, passa em revista a multiplicidade de esforços agora em curso no terreno do combate à desinformação. Alguns deles são financiados pelas próprias grandes plataformas tecnológicas, “como um acto desajeitado de penitência”... Outros por fundações liberais, que acham que podem restaurar confiança na credibilidade do jornalismo. 

Segundo esta linha de pensamento, deter a vaga das fake news seria “uma das poucas formas incontroversas de devolver a razão aos negócios políticos e estabilizar o navio”. (...) 

James Harkin é de opinião que aplicar fact-checking aos discursos e tweets do Presidente Trump “é uma grosseira simplificação tecnocrática do verdadeiro problema”: 

“A própria ideia de que o actual populismo é motivado por factos absurdos e trolls russos é que precisa de ser submetida a fact-checking, porque se trata de uma das mais perigosas notícias falsas do nosso tempo.” (...) 

Segundo o autor que citamos, nem os britânicos votaram no Brexit porque foram enganados por “um retórico louro” que lhes prometeu 350 milhões de libras por semana para o Serviço Nacional de Saúde, nem os americanos elegeram Trump porque alguém no Facebook disse que ele tinha a bênção do Papa. 

O problema de fundo é "uma ferida aberta nas democracias ocidentais", “um enorme fosso, que continua a crescer, entre as elites da política e dos media e as pessoas que pretendem representar”. (...) 

“Aquilo que podemos fazer é arrumar a nossa própria casa. No meio do oceano de informação que está por aí, a nossa preocupação, como jornalistas, não devia ser tanto por as pessoas acreditarem em tudo o que lêem na Internet, mas sim por poderem acabar não acreditando em coisa nenhuma.” 

“O bom jornalismo pode ajudar neste ponto. Mas entregarmos a nossa capacidade de verificação de factos nas mãos de autoridades externas não pode  - e só tornará pior ainda a perda de confiança no jornalismo.” (...)


O artigo citado, na íntegra em Columbia Journalism Review

Connosco
A cientista Fabiola Gianotti recebeu Prémio Helena Vaz da Silva Ver galeria

O Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian acolheu novamente a cerimónia de entrega do  Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, atribuído , este ano, a Fabiola Gianotti,  cientista italiana em Física de partículas e primeira mulher nomeada directora-geral do Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN), por ter contribuido para a divulgação da cultura científica de uma forma atractiva e acessível.

Este Prémio Europeu,  instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura (CNC) em cooperação com a  Europa Nostra e o Clube Português de Imprensa (CPI)  recorda a jornalista portuguesa, escritora, activista cultural e política (1939 – 2002), e a sua notável contribuição para a divulgação do património cultural e dos ideais europeus. 

É atribuído anualmente a um cidadão europeu, cuja carreira se tenha distinguido pela difusão, defesa, e promoção do património cultural da Europa, quer através de obras literárias e musicais, quer através de reportagens, artigos, crónicas, fotografias, cartoons, documentários, filmes de ficção e programas de rádio e/ou televisão.

O Prémio conta com o apoio do Ministério da Cultura, da Fundação Calouste Gulbenkian e do Turismo de Portugal.

Controlo de informação agrava-se e contamina vários países Ver galeria

A China e a Rússia utilizam técnicas de controlo de informação invasivos, desde as comunicações privadas dos cidadãos à censura. 

O uso de sistemas tecnológicos autoritários, por actores estatais, com o objectivo de diminuir os direitos humanos fundamentais dos cidadãos é algo que ultrapassa todos os limites. 

Valentin Weber, do Programa de Bolsas de Estudo de Controlo de Informações do Fundo Aberto de Tecnologia, decidiu realizar uma análise sistemática dos seus drivers e obteve sintomáti cos resultados. 

Através da pesquisa, Valentin descobriu que, até ao momento, mais de cem países compraram, imitaram ou receberam treino em controlo de informação da China e da Rússia.

Verificou, ainda,  casos de países cujos objectivos de controlo e monitorização da informação são semelhantes, como a Venezuela, o Egipto e Myanmar. 

Na lista surgiram, também, países possivelmente menos suspeitos, nos quais a conectividade se está a expandir, como Sudão, Uganda e Zimbábue; várias democracias ocidentais, como Alemanha, França e Holanda; e até mesmo pequenas nações como Trinidad e Tobago. 

“Ao todo, foram detectados 110 países  com tecnologia de vigilância ou censura importada da Rússia ou da China”, refere o artigo da OpenTechnology Fund, publicado no Global Investigative Journalism Network.

O Clube

Este site do Clube, lançado em Novembro de 2016, e com  actividade regular desde então, tem-se afirmado tanto como roteiro do que acontece de novo na paisagem mediática, como ainda no aprofundamento do debate sobre as questões mais relevantes do jornalismo, além do acompanhamento e divulgação das iniciativas do CPI.

O resultado deste esforço tem sido notório, com a fixação de um crescente número de visitantes, oriundos de uma alargada panóplia de países, com relevo para os de língua portuguesa, facto que é muito estimulante e encorajador. 


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