Sexta-feira, 4 de Dezembro, 2020
Media

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"?

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."

O seu texto, que aqui citamos da Columbia Journalism Review, passa em revista a multiplicidade de esforços agora em curso no terreno do combate à desinformação. Alguns deles são financiados pelas próprias grandes plataformas tecnológicas, “como um acto desajeitado de penitência”... Outros por fundações liberais, que acham que podem restaurar confiança na credibilidade do jornalismo. 

Segundo esta linha de pensamento, deter a vaga das fake news seria “uma das poucas formas incontroversas de devolver a razão aos negócios políticos e estabilizar o navio”. (...) 

James Harkin é de opinião que aplicar fact-checking aos discursos e tweets do Presidente Trump “é uma grosseira simplificação tecnocrática do verdadeiro problema”: 

“A própria ideia de que o actual populismo é motivado por factos absurdos e trolls russos é que precisa de ser submetida a fact-checking, porque se trata de uma das mais perigosas notícias falsas do nosso tempo.” (...) 

Segundo o autor que citamos, nem os britânicos votaram no Brexit porque foram enganados por “um retórico louro” que lhes prometeu 350 milhões de libras por semana para o Serviço Nacional de Saúde, nem os americanos elegeram Trump porque alguém no Facebook disse que ele tinha a bênção do Papa. 

O problema de fundo é "uma ferida aberta nas democracias ocidentais", “um enorme fosso, que continua a crescer, entre as elites da política e dos media e as pessoas que pretendem representar”. (...) 

“Aquilo que podemos fazer é arrumar a nossa própria casa. No meio do oceano de informação que está por aí, a nossa preocupação, como jornalistas, não devia ser tanto por as pessoas acreditarem em tudo o que lêem na Internet, mas sim por poderem acabar não acreditando em coisa nenhuma.” 

“O bom jornalismo pode ajudar neste ponto. Mas entregarmos a nossa capacidade de verificação de factos nas mãos de autoridades externas não pode  - e só tornará pior ainda a perda de confiança no jornalismo.” (...)


O artigo citado, na íntegra em Columbia Journalism Review

Connosco
União Europeia implementa medidas para proteger jornalistas... Ver galeria

A Comissão Europeia quer criminalizar o discurso e o incitamento ao ódio na internet, nomeadamente contra jornalistas. A instituição justificou a medida com o aumento das “ameaças físicas e ‘online’ e ataques a jornalistas” na UE, com frequentes “campanhas de difamação e de intimidação geral e interferências politicamente motivadas”.

“Os jornalistas são alvos de assédio, discurso de ódio e campanhas de difamação, por vezes até iniciadas por actores políticos, na Europa e fora, e as mulheres jornalistas são particularmente visadas”, reforçou a Comissão Europeia, notando que, por vezes, isso conduz “à autocensura e à redução do espaço para o debate público sobre questões importantes”.

Bruxelas recordou, igualmente, que, “nos últimos anos, a Europa tem testemunhado ataques brutais aos meios de comunicação social livres”, numa alusão aos assassinatos dos jornalistas Daphne Caruana Galizia, em Malta, e de Jan Kuciak, na Eslováquia.

Por isso mesmo, a Comissão Europeia vai, também, apresentar uma recomendação sobre a segurança dos jornalistas, visando “assegurar uma melhor implementação pelos Estados-membros das normas da recomendação do Conselho da Europa”.

... E lança plano de recuperação para os "media" e fórum europeu Ver galeria

A Comissão Europeia apresentou um plano de recuperação para os “media” europeus, cujas medidas deverão ser aplicadas no primeiro semestre de 2022.

Desta forma, “a Comissão facilitará um melhor acesso ao financiamento, estimulando os empréstimos, bem como o financiamento de capital próprio”.

Estas acções deverão ser complementadas com diálogos bilaterais, de forma a “aumentar o conhecimento do mercado dos meios de comunicação social europeus entre os investidores”.

Bruxelas diz, ainda, querer “prestar apoio dedicado, sob a forma de subsídios para parcerias de colaboração com os meios de comunicação social”, para promover o jornalismo colaborativo e transfronteiriço.

Outra das medidas propostas é a criação de um fórum europeu, para envolver as partes interessadas, incluindo autoridades reguladoras, representantes de jornalistas, organismos de autorregulamentação, sociedade civil e organizações internacionais.

O Clube


Faz cinco anos que começámos este
site, desenhado por Nuno Palma, webdesigner e docente universitário, que desde então colabora connosco.

O projecto foi lançado com uma modéstia de recursos que não mudou entretanto, porque escasseiam os mecenas e os poucos que se nos juntaram também se defrontaram com orçamentos penalizados, seja pela conjuntura económica, seja, mais recentemente, pela crise sanitária. 

Neste contexto, a sobrevivência é um desafio diário, e um lustre de existência deste site é uma profissão de fé e uma teimosia.

O site constitui a respiração do CPI, fora de portas, e a nível global. Os primeiros passos foram dados sem qualquer publicidade. Aparecemos online e por aqui ficámos, procurando habilitar diariamente quem nos visita com a melhor informação sobre as actividades do Clube e o pulsar dos media e do jornalismo, sem restrições de credo, nem obediências de capela. Com rigor e independência.

Fomos recompensados. Só no último ano, de acordo com medições de audiência da Google Analytics, crescemos mais de 50% em sessões efectuadas e mais de 60% em utilizadores regulares. É algo de que nos orgulhamos.



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