Segunda-feira, 24 de Fevereiro, 2020
Media

A paixão da reportagem está na descoberta da verdade

Um cartaz com a frase que vem na imagem é o ponto de partida do repórter brasileiro Carlos Wagner para uma reflexão sobre a natureza e vocação do jornalismo. Com três décadas de carreira no jornal Zero Hora, dedicou-se, ao sair, “a ajudar na formação de novos repórteres, fazendo palestras, discutindo com colegas em redacções pelo interior do Brasil e escrevendo sobre  jornalismo”:

“Por conta dessas conversas, eu precisei de me actualizar em tudo que se tem escrito, falado e pesquisado sobre a nossa profissão e o destino das empresas tradicionais de comunicação. Pelo que vi, eu acredito que nunca se tenham publicado tantos trabalhos académicos, pesquisas de marketing e livros sobre o futuro da reportagem.”

Dessa experiência, e do sentimento de que, no fim das conversas, saía sempre com a sensação de ter deixado de dizer o mais importante, recolheu o tema para esta crónica publicada no Observatório da Imprensa do Brasil, onde defende que o essencial é a paixão que o repórter precisa de ter para esclarecer o desconhecido:

“Sem ela, nós somos apenas um amontoado de técnicas de como fazer jornalismo. Mas é ela que nos torna diferentes.”

Essa paixão, como Carlos Wagner a entende, pode ser definida como a “insistência de descobrir a verdade”: 

“A história reservou ao repórter a tarefa de descobrir e explicar os factos relevantes ao quotidiano das pessoas. Isso significa que nós não somos intermediários entre a fonte e o leitor. Nós produzimos conhecimento novo com o nosso trabalho.” (...) 

“O repórter não nasce com a paixão por esclarecer o desconhecido. Ele a cultiva como se fosse uma planta rara, até ela crescer e começar a dar frutos.” 

“O cartaz ‘Toda a garrafa vazia está cheia de histórias’  me fez lembrar porque resolvi  ser repórter. Foi ali, na mesa do boteco,  escutando as conversas de grandes repórteres sobre as matérias em que vi a paixão pela busca da verdade na cara deles.” 

“Lembro, enquanto as garrafas ficavam vazias sobre a mesa, o som da conversa subia. No final da noite, todos falavam ao mesmo tempo, parecia uma briga. Foi durante uma gritaria dessas que ouvi uma frase, não lembro quem disse, mas nunca a esqueci: ‘publicamos o mais próximo da verdade que conseguimos chegar’.” 

O autor acrescenta que 2019 não vai ser um ano fácil para os jornalistas brasileiros, com despedimentos e fecho de jornais:

“Seja lá qual for o rumo que o governo do Bolsonaro tomar, o certo é que vamos ter sérios problemas de acesso a informações. Ele seguirá o modelo de Trump, de usar as redes sociais para falar.” 

Mas acrescenta que, “se os grandes noticiários não divulgarem as postagens feitas pelo Presidente da República nas redes sociais, elas não repercutem”. 

E como “nem Trump nem Bolsonaro vão postar nas redes sociais factos desfavoráveis às suas administrações”, essa parte continuará a ser função do jornalismo: 

“Portanto, o governo Bolsonaro é uma garrafa cheia na mesa de jornalistas em um boteco. Logo ela vai estar vazia e restará uma história para contar. É simples assim.”

 

O artigo citado, na íntegra, no Observatório da Imprensa 
Connosco
Faleceu Vasco Pulido Valente cronista singular de imprensa Ver galeria

Faleceu o historiador, escritor, ensaísta e  cronista de imprensa, enquanto comentador político, Vasco Pulido Valente. A informação foi confirmada ao jornal “Público” e ao “Observador” por fonte familiar. 

 Vasco Pulido Valente, distinguiu-se como colunista com textos repartidos por vários jornais, e pela acidez irónica que cultivava nos seus comentários, invariavelmente cáusticos e certeiros em relação a não poucos actores do espaço político-partidário.

 O nome que o tornou célebre (e temido), era o pseudónimo de Vasco Valente Correia Guedes, que nasceu em Lisboa a 21 de Novembro de 1941. Licenciou-se em Filosofia pela Faculdade de Letras de Lisboa e tirou um doutoramento em História pela Universidade de Oxford. No final da década de 60, uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian permitiu-lhe estudar em Inglaterra, onde se doutorou, sendo um devoto de uma certa cultura académica, típica de Oxford.


Guia para um discurso jornalístico simplificado... Ver galeria

As “hard news” podem tornar-se pouco atractivas para os leitores, devido à linguagem formal e à utilização de conceitos desconhecidos pela maioria do “comum dos mortais”. 

Por muito que os jornalistas se esforcem para fazer passar a mensagem de forma clara, muitas vezes trabalham em “contra-relógio”, o que torna difícil a tarefa de escrever de maneira apelativa. Foi a pensar nesses profissionais que a jornalista Roy Peter Clark elaborou um pequeno guia, publicado na revista “Poynter”. 

Para a autora, o mais importante é escrever como quem conversa com um amigo num bar. É crucial utilizar linguagem simplificada, dar exemplos e explicar conceitos. Assim, poderá ser útil falar sobre o conteúdo, ainda que em monólogo, e só depois escrevê-lo.

O Clube


Três jornais açorianos celebram este ano aniversários redondos. O Diário dos Açores completa século e meio de existência , o que é marcante. O Jornal dos Açores perfaz cem anos, outra vitória sobre o tempo. E o Açoriano Oriental , chega aos 185 anos , uma longevidade qualificada , que o coloca entre os diários mais antigos em publicação. A todos o Clube Português de Imprensa felicita , pela resistência e pelo mérito , numa época em que floresce a falta de memória nas redações. E associa-se neste site às respectivas efemérides.
Houve tempo em que os jornais se felicitavam com júbilo, e parabenizavam os concorrentes aniversariantes. Tempos idos. Agora , ignoram-se como se houvesse um deserto à volta de cada um.
Ser diário centenário num arquipélago de pouca gente, de onde tantos emigraram, e sobreviver em confronto com a agressividade da Internet e dos audiovisuais , é proeza de vulto.
São uma lição que merece relevo, cheia de ensinamentos para outros que desistiram antes de tempo.

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Opinião
Neste primeiro semestre, três jornais açorianos comemoram uma longevidade assinalável. Conforme se regista noutros espaços deste site, o Diário dos Açores acabou de completar século e meio de existência;  em Abril, será a vez do Açoriano Oriental,  o mais antigo, soprar 185 velas; e, finalmente em Maio, o Correio dos Açores alcança o seu primeiro centenário. Em tempo de crise na Imprensa,...
O volume de investimento publicitário na imprensa tem estado em queda, mas vários estudos indicam que os leitores de jornais e revistas continuam a ser influenciados pela publicidade que encontram nas páginas das publicações que consomem regularmente. Por outro lado a análise dos dados do mais recente estudo Bareme Impresa, da Marktest, revela que os indivíduos da classe alta têm níveis de audiência de imprensa 40% acima dos...
Graves ameaças à BBC News
Francisco Sarsfield Cabral
A BBC é, provavelmente, a referência mundial mais importante do jornalismo. Foi uma rádio muito ouvida em Portugal no tempo da ditadura, para conhecer notícias que a censura não deixava publicar. E mesmo depois do 25 de Abril, durante o chamado PREC (processo revolucionário em curso) também o recurso à BBC News por vezes dava jeito para obter uma informação não distorcida por ideologias políticas.Ora a BBC News...