null, 24 de Março, 2019
Estudo

O jornalismo digital em 2019 entre as assinaturas e o mecenato...

Os modelos de assinatura e “pertença” aos meios de comunicação vão estar mais em foco no que respeita ao seu sustento económico, neste ano que começa. O jornalismo de qualidade vai precisar de mais investimento, enquanto o uso das redes sociais vai decair, tanto entre os próprios media como entre os utentes. São estas algumas das conclusões destacadas na apresentação do mais recente relatório do Instituto Reuters, intitulado “Tendências e Previsões sobre Jornalismo, Media e Tecnologia, para 2019”.

Mais de metade (52%) dos inquiridos admitem que as assinaturas e a “membrasia” [membership, no original] serão mais procuradas como fonte de receita, em 2019, em comparação com os 27% pela exposição de publicidade. Há também uma aceitação crescente de que determinadas formas de fornecimento de jornalismo de qualidade vão precisar de ser subsidiadas, com 29% esperando ver mais apoio de fundações e organizações não lucrativas, e 18% esperando que as plataformas tecnológicas contribuam mais.

Quanto a estas, são menos de metade (43%) os que hoje admitem, entre os media, que o Facebook é “importante” ou “extremamente importante”. E espera-se também que, entre os próprios consumidores, cresça o número dos que deixam as redes sociais, em parte por sentirem que se trata de “perder tempo online”.

Esta mais recente edição do Digital News Project do Reuters Institute for the Study of Journalism é baseada num inquérito junto de duas centenas de administradores, editores de topo e dirigentes de meios digitais, consultados em 29 países.

Nic Newman, o principal autor do relatório, afirma que 2019 “será o ano em que a regulação das plataformas vai começar a ‘morder’, no seguimento da crescente preocupação com a desinformação, a privacidade e o poder do mercado”: 

“Entretanto, a divulgação de conteúdos falsos, enganosos e extremistas vai continuar a fragilizar democracias por todo o mundo, com provável incidência em eleições polarizadas na Índia, na Indonésia e na Europa.” 

“O jornalismo vai continuar a ser ferido por abalos estruturais que já levaram a quebras significativas das receitas da publicidade. Os editores estão a voltar-se para as assinaturas, para fazerem a diferença, mas os limites deste caminho vão tornar-se visíveis em 2019. Tudo junto, estas tendências vão provavelmente conduzir à maior vaga de despedimentos no jornalismo desde há anos, enfraquecendo ainda mais a capacidade de chamar à responsabilidade políticos populistas e poderosos dirigentes económicos.” (...) 

Segundo Ben de Pear, editor do Channel4 News, no Reino Unido, “vai ser um ano crucial, em que as plataformas das redes sociais vão ter de provar que se preocupam com a verdade e com o financiamento de um jornalismo sério, ou então serem obrigadas a fazê-lo por medidas regulatórias”. 

Entre outras previsões destacadas neste relatório, afirma-se que vai haver mais interesse em indicadores de confiança para validarem as notícias, tais como news nutrition labels que possam ajudar os consumidores a decidirem o quê e em quem podem confiar. 

As grandes plataformas estão a tomar as suas próprias medidas contra a desinformação, mas esta está a deslocar-se para redes fechadas e grupos comunitários, tornando-se mais difícil de controlar. 

Um jornalismo mais reflexivo (slow news) emerge, com novas empresas de media como a Tortoise [Tartaruga], do Reino Unido, ou o jornal holandês De Correspondent expandindo-se para os Estados Unidos. “São vistos como um antídoto à actual fartura de um noticiário rápido, ligeiro e reactivo. Mas quantos irão aderir a ele  - e pagá-lo?” 

“O crescimento das paywalls está a afastar mais pessoas de um jornalismo de qualidade, e a tornar mais difícil a navegação na Internet. Vai aumentar, este ano, a irritação dos consumidores, conduzindo a uma combinação de maior afastamento das notícias e à adopção de software de bloqueio das paywalls.” (...)

 

 

A apresentação e o relatório do Reuters Institute, em PDF

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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