Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Media

... e as perspectivas contraditórias para os Media em 2019

Depois de uma década de crise económica que fustigou de modo especialmente duro os meios de comunicação, o ponto em que se encontram é de perda de credibilidade, de exposição à concorrência de novos actores digitais e a uma disrupção tecnológica que “fulminou os modelos de negócio tradicionais, sem dar em troca uma alternativa viável e sustentável”.

Há, no entanto, motivos de esperança neste novo ano, segundo James Hewes, director executivo da FIPP – Federação Internacional da Imprensa Periódica. Por exemplo entre as revistas, que estão a ganhar uma espécie de “segunda vida”, como produtos para “saborear tranquilamente”; ou na opção pelas assinaturas, que podem ter êxito mesmo nos media digitais.

Em qualquer caso, “os consumidores estão cada vez mais conscientes do valor do jornalismo e estão dispostos a pagar por ele”, mas exigindo à partida que lhes seja apresentado “conteúdo de alta qualidade e único”.

O ponto de partida é que, como reflecte Miguel Ossorio Vega em Media-tics, “tudo o que podia correr mal, correu mal”. Agora, mesmo que o ritmo da queda das receitas recolhidas pelos meios impressos esteja a abrandar, ela vai continuar  - o que aumenta a pressão sobre os custos, levando os editores a mudanças de estratégia e de estrutura. 

Um dos efeitos, segundo James Hewes, é a “consolidação” entre marcas, que significa a morte de uns títulos para que outros tenham espaço. 

Segundo conta, começou em Janeiro de 2017, quando a Hubert Burda anunciou a compra da Immediate Media, e agora “está sempre a acontecer”: 

“Todas as semanas há uma nova aquisição. E vai continuar. O abrandamento na indústria, que temos vindo a experimentar nestes últimos 20 anos, conduziu a um abalo de expulsão” [shake-out, no original]. (...) 

“Em quase todos os mercados do mundo existem sectores editoriais independentes e prósperos, frequentemente centrados no papel, que surgem das brechas deixadas pela morte de títulos mais antigos”  -  acrescenta James Hewes. 

A sobrevivência dos media dependerá sempre da sua capacidade de gerarem receitas, e a aposta já não é tanto na publicidade como nos conteúdos pagos. 

“O que os editores esqueceram é que sempre foram bons a vender assinaturas”, tendo agora pensado, por alguma razão desconhecida, que não podiam fazê-lo na era digital. (...) 

Outro ponto necessário é tratar com inteligência as estratégias multi-plataforma: 

“O erro de muitos editores foi o de criar um conjunto de conteúdos e distribuí-lo por todas as plataformas. Mas isto não funciona, porque cada plataforma vem com o seu próprio conjunto de requisitos únicos, e os conteúdos devem ser criados dentro desse espaço.” (...) 

Outro problema ainda foi o de desvalorizar o talento em proveito de soluções de baixo custo: 

“O mercado de trabalho está cada vez mais competitivo, especialmente para os jovens com talento digital”  - diz Hewes. “Se queres que a tua empresa tenha êxito, tens de criar a cultura correcta e empregar o melhor talento.” (...)

 

Mais informação em Media-tics  e no site da FIPP - Fédération Internationale de la Presse Périodique (título original em francês)

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
Sejam de direita ou de esquerda, há uma verdadeira inflação de políticos no activo - ou supostamente retirados - ,  “vestidos” de comentadores residentes nas televisões, com farto proveito. Alguns deles acumulam mesmo os “plateaux” com os microfones  da rádio ou as colunas de jornais, demonstrando  uma invejável capacidade de desdobramento. O objectivo comum a todos é, naturalmente,  pastorearem...
Ao longo do último ano os jornais britânicos The Times e The Sunday Times têm desenvolvido esforços consideráveis para conseguir manter os assinantes digitais que foram angariando ao longo do tempo. A renovação das assinaturas digitais é uma das crónicas dores de cabeça que os editores de publicações enfrentam, tanto mais que estudos recentes comprovam que uma sólida base de assinantes e leitores...
“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
Lançar notícias falsas sobre adversários políticos ou outros existe há séculos. Mas a internet deu às mentiras uma capacidade de difusão nunca antes vista.  Divulgar no espaço público notícias falsas (“fake news”) é hoje um problema que, com razão, preocupa muita gente. Mas não se pode considerar que este seja um problema novo. Claro que a internet e as redes sociais proporcionam...
Agenda
02
Jul
The Children’s Media Conference
16:00 @ Sheffield,Reino Unido
21
Ago
Edinburgh TV Festival
09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigeria