null, 24 de Março, 2019
Media

Revista “Forbes” reforçou a redacção... com um “robot”

A Forbes já tem em fase experimental, nos Estados Unidos e na Europa, uma ferramenta que propõe aos redactores um rascunho do que podem fazer a seguir. O robot-jornalista tem nome, chama-se Bertie  - em homenagem a Bertie Charles Forbes, o fundador da revista -  e ainda não está em condições de substituir nenhum jornalista de carne e osso. Por enquanto, limita-se a reunir, a partir dos algoritmos e da inteligência artificial (que se alimentam dos dados de audiência de determinados temas, bem como do comportamento dos leitores), os elementos que podem proporcionar o tal artigo de grande leitura...

Porque a intenção, no fundo, é essa: “optimizar os processos de trabalho e aumentar a produtividade”  - o que significa, para os críticos, substituir meios humanos por máquinas “para poupar custos e maximizar benefícios”.

Segundo Miguel Ossorio Vega, que aqui citamos de Media-tics, “pode acontecer que ambas as visões estejam certas e até mesmo consigam conviver numa primeira fase. Depois se verá.”

Esta “robotização” do jornalismo está em curso e já funciona em várias agências de notícias, como a Reuters e a France-Presse, bem como em jornais como The Washington Post. Nas suas formas já adoptadas, “redige” de facto, articulando dados noticiosos sempre em actualização  - e obedecendo a programas determinados pela editoria humana dos meios onde foi instalada -  notícias simples. Dir-se-ia que é um processo mais “mecânico”. 

Aparentemente, o que está agora a ser experimentado na Forbes vai mais longe. Os 2.500 colaboradores da revista, que servem de “cobaias” ao lançamento do Bertie, recebem sugestões de trabalho e material de apoio. 

Segundo Le Figaro, que aqui citamos, é do seguinte modo que um destes colaboradores encontrou uma proposta de tema a tratar, sobre as últimas notícias da Tesla: 

“Para o ajudar, colocou ao seu dispor uma selecção de artigos, já publicados pela Forbes ou por outros meios, sobre o tema, bem como imagens seleccionadas automaticamente para o ilustrarem. Mas a inteligência artificial forneceu-lhe ainda um rascunho. O texto é impublicável nesta fase, mas constitui um bom ponto de partida para ele se lançar à escrita sem perder muito tempo.” (...) 

“Como já fizera o Huffington Post, o recurso a colaboradores externos é usado, há muito tempo, como forma de produzir rapidamente, de forma maciça e muitas vezes por baixo custo, centenas de artigos por dia.” (...) 

“A Forbes depende muito deste sistema, que está na origem de mais de metade dos artigos publicados todos os dias. Em troca, o site garante aos seus colaboradores, a partir de Fevereiro, um mínimo garantido de 250 dólares por mês. Quanto mais os internautas lerem os seus artigos, se demorarem neles e ficarem envolvidos, mais aumenta a remuneração.” 

Como afirma Randall Lane, editor da Forbes, “em 2017, mais de cem colaboradores ganharam mais de dez mil dólares, e cinco deles ultrapassaram os 200 mil dólares”. (...)

 

 

Mais informação em Media-tics  e Le Figaro

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O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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