Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Media

Jornalista alemão premiado falsificava histórias na "Der Spiegel"

Um dos mais famosos jornalistas da revista alemã Der Spiegel foi obrigado a reconhecer que tinha falsificado, metodicamente, várias reportagens ali publicadas, sendo demitido. Claas Relotius, de 33 anos, recebera em Berlim, no princípio de Dezembro, o Prémio da Melhor Reportagem do Ano por um trabalho sobre a guerra na Síria. Num extenso artigo, é agora a própria Spiegel que afirma que “todas as fontes” aí citadas são “duvidosas”, acrescentando:

“Muitas coisas são puramente imaginadas, inventadas, enganosas. Citações, locais, cenas, mesmo personagens de carne e osso. Fake!”

A revista declara que este caso é “um dos momentos mais difíceis dos seus 70 anos de história” e um choque para o conjunto dos trabalhadores da revista, fundada em 1947 e “considerada, durante muito tempo, o templo do jornalismo de investigação na Alemanha”.

Como admite a Der Spiegel, pelo menos catorze das seis dezenas de textos publicados por Claas Relotius desde 2011 seriam “parcialmente falsificados”.

Segundo Le Monde, que aqui citamos, “para explicar a necessidade de embelezar os seus textos, a fim de os tornar mais apetecíveis, Claas Relotius teria invocado o medo do fracasso”: 

“A pressão que impunha sobre mim próprio, para não me autorizar a falhar, ia crescendo à medida que tinha mais êxito”  - terá confessado à hierarquia da revista, acrescentando: “Estou doente e preciso de ajuda.” 

Apresentando um pedido de desculpas aos seus leitores, Der Spiegel anuncou a constituição de uma “comissão de três jornalistas experientes”, dois da redacção e outro do exterior, para fazer um inquérito sobre as falsificações cometidas e “propor uma melhoria dos procedimentos de autenticação no seio da redacção”. 

A preocupação alastra a outros grandes títulos alemães, porque, antes de ser integrado na redacção da Spiegel, Claas Relotius tinha trabalhado para outros jornais, como o Süddeutsche Zeitung, o Frankfurter Allgemeine Zeitung, Die Welt e Die Zeit.

 

Mais informação em Le MondeL’Express  e no Diário de Notícias

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"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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