Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Opinião

Informar ou depender…

por Dinis de Abreu

O título deste texto corresponde a um livro publicado nos anos 70 por Francisco Balsemão, numa altura em que já se ‘contavam espingardas’ para pôr termo ao Estado Novo, como veio a acontecer com o derrube de Marcello Caetano, em 25 de Abril de 74. 

A obra foi polémica à época e justamente considerada um ‘grito de alma’, assinada por quem começara a sua vida profissional num jornal controlado pela família - o vespertino Diário Popular - atraído pelo jornalismo e pela causa da liberdade de imprensa, que era, então, um sonho adiado.
O título encaixa, porém, na preocupação manifestada recentemente por Marcelo Rebelo de Sousa sobre se «o Estado não tem a obrigação de intervir?», confrontado com «uma situação de emergência» na imprensa e nos media em geral. 

Marcelo colaborou de perto com Francisco Balsemão, chegou a ser subdiretor do Expresso, semanário lançado pouco antes do 25 de Abril, e comungou das inquietudes do fundador do jornal, até seguir o seu próprio destino, mais político, mas sem nunca perder de vista o jornalismo.  

 

Vale a pena recordar, à distância de quase meio século, o que defendia Balsemão antes de criar o Expresso (e muito antes de existir a SIC), fazendo profissão de fé na independência dos media: «O produto-jornal ou o produto-emissão devem contribuir para o progresso da comunidade, mas só o poderão fazer se, política, financeira e tecnicamente as empresas que o fabricam tiverem assegurada a sua independência».

Tinha razão. A independência editorial só é viável, como nos ensina a experiência, desde que as empresas jornalísticas saibam preservar a sua saúde financeira, sem dependerem de mecenas privados ou de subsídios estatais a fundo perdido.  

 

Nesse livro, Balsemão reforçava ainda a sua convicção de que «depende da independência da Informação face aos poderes políticos e económicos a construção de uma sociedade livre», enunciando várias armadilhas capazes de subordinar os media aos poderes do dia.

Não lhe ocorreu um novo modelo, inventado por Viktor Orban, na Hungria, ao validar por decreto uma fundação congregando meio milhar de meios de comunicação, impressos e audiovisuais, todos abertamente aliados do poder instalado.  

Sem o menor disfarce, Orban justificou o seu gesto com o «interesse do público», uma capa que serve para tudo quando se quer amordaçar os media, seja na Hungria, na Turquia ou na Venezuela.

Algo que não lembrou a Sócrates, quando imitava o ‘chavismo’, na sua sanha contra os jornais ou as televisões que o incomodavam. 

A ideia de uma ‘fundação’, federando empresas editoriais em dificuldades, não terá passado pela cabeça de Marcelo ao interrogar-se sobre a possibilidade de uma intervenção de «emergência» do Estado. 

Mas, a julgar pelas reações de alguns responsáveis, aflitos de tesouraria, é de temer que qualquer projeto dessa natureza não fosse desprezado.  

 

Fala-se demasiado em crise e pouco em criatividade para recaptar o interesse de leitores e espetadores desavindos.

Depois, o preconceito ideológico - ou a pertença de ‘capela’ - contribuem para a uniformização dos jornais e telejornais, copiando-se uns aos outros. 

Finalmente, agravou-se a ‘tabloidização’ na imprensa, e os telejornais não lhe ficam atrás. O jornalismo está a abdicar de princípios em favor do espetáculo e de ‘fretes’ que não se explicam. 

 

Por exemplo: a TVI parece estar a especializar-se em dar ‘antena’ a quem foi condenado em tribunal, se tiver alcançado o estatuto de figura pública. 

Dantes, o arguido, lida a sentença condenatória, recolhia ao calabouço. Agora, a menos que seja um ‘pilha galinhas’, desanda para dar uma entrevista ‘exclusiva’ numa TV, sem contraditório, onde protesta a sua inocência - mesmo que a acusação seja fundamentada, ou a condenação reconfirmada por tribunais superiores.

Sócrates deu o mote, seguido agora por Orlando Figueira e Armando Vara. Este anda há dez anos a adiar a prisão. Esgotados os recursos, veio dizer candidamente na TVI que tenciona entregar-se sem esperar que o vão buscar. É preciso topete.

O atual diretor de informação da TVI, Sérgio Figueiredo, escreveu um dia no DN, preto no branco, que «gosto de Sócrates, não o escondo».   

Em várias alturas, a TVI demonstrou-o. Agora deu a mão a Vara - outro amigo confesso de Sócrates -, para tentar enxovalhar procuradores e juízes, com especial afeição por Carlos Alexandre, perante o silêncio dos entrevistadores. 

Aguardam-se os competentes ‘procedimentos’ do Conselho Superior da Magistratura e da Associação dos Juízes, ambos lestos noutras ocasiões, enquanto a TVI ensaia a nova ‘parceria’ com a Justiça. Entre o terceiro-mundismo informativo e a vassalagem editorial, escolha o leitor. Afinal, informar ou depender?...

(texto publicado originalmente no semanário “Sol”)

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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09:00 @ Lagos, Nigeria