Quinta-feira, 17 de Janeiro, 2019
Opinião

Informar ou depender…

por Dinis de Abreu

O título deste texto corresponde a um livro publicado nos anos 70 por Francisco Balsemão, numa altura em que já se ‘contavam espingardas’ para pôr termo ao Estado Novo, como veio a acontecer com o derrube de Marcello Caetano, em 25 de Abril de 74. 

A obra foi polémica à época e justamente considerada um ‘grito de alma’, assinada por quem começara a sua vida profissional num jornal controlado pela família - o vespertino Diário Popular - atraído pelo jornalismo e pela causa da liberdade de imprensa, que era, então, um sonho adiado.
O título encaixa, porém, na preocupação manifestada recentemente por Marcelo Rebelo de Sousa sobre se «o Estado não tem a obrigação de intervir?», confrontado com «uma situação de emergência» na imprensa e nos media em geral. 

Marcelo colaborou de perto com Francisco Balsemão, chegou a ser subdiretor do Expresso, semanário lançado pouco antes do 25 de Abril, e comungou das inquietudes do fundador do jornal, até seguir o seu próprio destino, mais político, mas sem nunca perder de vista o jornalismo.  

 

Vale a pena recordar, à distância de quase meio século, o que defendia Balsemão antes de criar o Expresso (e muito antes de existir a SIC), fazendo profissão de fé na independência dos media: «O produto-jornal ou o produto-emissão devem contribuir para o progresso da comunidade, mas só o poderão fazer se, política, financeira e tecnicamente as empresas que o fabricam tiverem assegurada a sua independência».

Tinha razão. A independência editorial só é viável, como nos ensina a experiência, desde que as empresas jornalísticas saibam preservar a sua saúde financeira, sem dependerem de mecenas privados ou de subsídios estatais a fundo perdido.  

 

Nesse livro, Balsemão reforçava ainda a sua convicção de que «depende da independência da Informação face aos poderes políticos e económicos a construção de uma sociedade livre», enunciando várias armadilhas capazes de subordinar os media aos poderes do dia.

Não lhe ocorreu um novo modelo, inventado por Viktor Orban, na Hungria, ao validar por decreto uma fundação congregando meio milhar de meios de comunicação, impressos e audiovisuais, todos abertamente aliados do poder instalado.  

Sem o menor disfarce, Orban justificou o seu gesto com o «interesse do público», uma capa que serve para tudo quando se quer amordaçar os media, seja na Hungria, na Turquia ou na Venezuela.

Algo que não lembrou a Sócrates, quando imitava o ‘chavismo’, na sua sanha contra os jornais ou as televisões que o incomodavam. 

A ideia de uma ‘fundação’, federando empresas editoriais em dificuldades, não terá passado pela cabeça de Marcelo ao interrogar-se sobre a possibilidade de uma intervenção de «emergência» do Estado. 

Mas, a julgar pelas reações de alguns responsáveis, aflitos de tesouraria, é de temer que qualquer projeto dessa natureza não fosse desprezado.  

 

Fala-se demasiado em crise e pouco em criatividade para recaptar o interesse de leitores e espetadores desavindos.

Depois, o preconceito ideológico - ou a pertença de ‘capela’ - contribuem para a uniformização dos jornais e telejornais, copiando-se uns aos outros. 

Finalmente, agravou-se a ‘tabloidização’ na imprensa, e os telejornais não lhe ficam atrás. O jornalismo está a abdicar de princípios em favor do espetáculo e de ‘fretes’ que não se explicam. 

 

Por exemplo: a TVI parece estar a especializar-se em dar ‘antena’ a quem foi condenado em tribunal, se tiver alcançado o estatuto de figura pública. 

Dantes, o arguido, lida a sentença condenatória, recolhia ao calabouço. Agora, a menos que seja um ‘pilha galinhas’, desanda para dar uma entrevista ‘exclusiva’ numa TV, sem contraditório, onde protesta a sua inocência - mesmo que a acusação seja fundamentada, ou a condenação reconfirmada por tribunais superiores.

Sócrates deu o mote, seguido agora por Orlando Figueira e Armando Vara. Este anda há dez anos a adiar a prisão. Esgotados os recursos, veio dizer candidamente na TVI que tenciona entregar-se sem esperar que o vão buscar. É preciso topete.

O atual diretor de informação da TVI, Sérgio Figueiredo, escreveu um dia no DN, preto no branco, que «gosto de Sócrates, não o escondo».   

Em várias alturas, a TVI demonstrou-o. Agora deu a mão a Vara - outro amigo confesso de Sócrates -, para tentar enxovalhar procuradores e juízes, com especial afeição por Carlos Alexandre, perante o silêncio dos entrevistadores. 

Aguardam-se os competentes ‘procedimentos’ do Conselho Superior da Magistratura e da Associação dos Juízes, ambos lestos noutras ocasiões, enquanto a TVI ensaia a nova ‘parceria’ com a Justiça. Entre o terceiro-mundismo informativo e a vassalagem editorial, escolha o leitor. Afinal, informar ou depender?...

(texto publicado originalmente no semanário “Sol”)

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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