null, 24 de Março, 2019
Opinião

Informar ou depender…

por Dinis de Abreu

O título deste texto corresponde a um livro publicado nos anos 70 por Francisco Balsemão, numa altura em que já se ‘contavam espingardas’ para pôr termo ao Estado Novo, como veio a acontecer com o derrube de Marcello Caetano, em 25 de Abril de 74. 

A obra foi polémica à época e justamente considerada um ‘grito de alma’, assinada por quem começara a sua vida profissional num jornal controlado pela família - o vespertino Diário Popular - atraído pelo jornalismo e pela causa da liberdade de imprensa, que era, então, um sonho adiado.
O título encaixa, porém, na preocupação manifestada recentemente por Marcelo Rebelo de Sousa sobre se «o Estado não tem a obrigação de intervir?», confrontado com «uma situação de emergência» na imprensa e nos media em geral. 

Marcelo colaborou de perto com Francisco Balsemão, chegou a ser subdiretor do Expresso, semanário lançado pouco antes do 25 de Abril, e comungou das inquietudes do fundador do jornal, até seguir o seu próprio destino, mais político, mas sem nunca perder de vista o jornalismo.  

 

Vale a pena recordar, à distância de quase meio século, o que defendia Balsemão antes de criar o Expresso (e muito antes de existir a SIC), fazendo profissão de fé na independência dos media: «O produto-jornal ou o produto-emissão devem contribuir para o progresso da comunidade, mas só o poderão fazer se, política, financeira e tecnicamente as empresas que o fabricam tiverem assegurada a sua independência».

Tinha razão. A independência editorial só é viável, como nos ensina a experiência, desde que as empresas jornalísticas saibam preservar a sua saúde financeira, sem dependerem de mecenas privados ou de subsídios estatais a fundo perdido.  

 

Nesse livro, Balsemão reforçava ainda a sua convicção de que «depende da independência da Informação face aos poderes políticos e económicos a construção de uma sociedade livre», enunciando várias armadilhas capazes de subordinar os media aos poderes do dia.

Não lhe ocorreu um novo modelo, inventado por Viktor Orban, na Hungria, ao validar por decreto uma fundação congregando meio milhar de meios de comunicação, impressos e audiovisuais, todos abertamente aliados do poder instalado.  

Sem o menor disfarce, Orban justificou o seu gesto com o «interesse do público», uma capa que serve para tudo quando se quer amordaçar os media, seja na Hungria, na Turquia ou na Venezuela.

Algo que não lembrou a Sócrates, quando imitava o ‘chavismo’, na sua sanha contra os jornais ou as televisões que o incomodavam. 

A ideia de uma ‘fundação’, federando empresas editoriais em dificuldades, não terá passado pela cabeça de Marcelo ao interrogar-se sobre a possibilidade de uma intervenção de «emergência» do Estado. 

Mas, a julgar pelas reações de alguns responsáveis, aflitos de tesouraria, é de temer que qualquer projeto dessa natureza não fosse desprezado.  

 

Fala-se demasiado em crise e pouco em criatividade para recaptar o interesse de leitores e espetadores desavindos.

Depois, o preconceito ideológico - ou a pertença de ‘capela’ - contribuem para a uniformização dos jornais e telejornais, copiando-se uns aos outros. 

Finalmente, agravou-se a ‘tabloidização’ na imprensa, e os telejornais não lhe ficam atrás. O jornalismo está a abdicar de princípios em favor do espetáculo e de ‘fretes’ que não se explicam. 

 

Por exemplo: a TVI parece estar a especializar-se em dar ‘antena’ a quem foi condenado em tribunal, se tiver alcançado o estatuto de figura pública. 

Dantes, o arguido, lida a sentença condenatória, recolhia ao calabouço. Agora, a menos que seja um ‘pilha galinhas’, desanda para dar uma entrevista ‘exclusiva’ numa TV, sem contraditório, onde protesta a sua inocência - mesmo que a acusação seja fundamentada, ou a condenação reconfirmada por tribunais superiores.

Sócrates deu o mote, seguido agora por Orlando Figueira e Armando Vara. Este anda há dez anos a adiar a prisão. Esgotados os recursos, veio dizer candidamente na TVI que tenciona entregar-se sem esperar que o vão buscar. É preciso topete.

O atual diretor de informação da TVI, Sérgio Figueiredo, escreveu um dia no DN, preto no branco, que «gosto de Sócrates, não o escondo».   

Em várias alturas, a TVI demonstrou-o. Agora deu a mão a Vara - outro amigo confesso de Sócrates -, para tentar enxovalhar procuradores e juízes, com especial afeição por Carlos Alexandre, perante o silêncio dos entrevistadores. 

Aguardam-se os competentes ‘procedimentos’ do Conselho Superior da Magistratura e da Associação dos Juízes, ambos lestos noutras ocasiões, enquanto a TVI ensaia a nova ‘parceria’ com a Justiça. Entre o terceiro-mundismo informativo e a vassalagem editorial, escolha o leitor. Afinal, informar ou depender?...

(texto publicado originalmente no semanário “Sol”)

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

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Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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