Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
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Estratégia mediática da China usa "barcos emprestados" para "autenticar" a propaganda...

Durante décadas, a estratégia de imagem da China foi defensiva, de resposta, e apontada sobretudo à sua audiência interna. O efeito mais visível era o desaparecimento de conteúdos: revistas estrangeiras com páginas arrancadas, ou as emissões da BBC que ficavam escuras quando tratavam de temas sensíveis, como o Tibete, Taiwan ou o massacre de Tienanmen.

Mas nos últimos anos a China desenvolveu uma estratégia mais sofisticada e assertiva, apontada às audiências internacionais. E Pequim está a fazê-lo com grande investimento financeiro  - que inclui cobertura jornalística patrocinada.

Um dos exemplos mais ostensivos é agora a contratação de jornalistas ocidentais para a China Global Television Network  - o ramo internacional da Televisão Central da China -  com estúdios em Chiswick, Londres. O objectivo deste esforço é, nas palavras do Presidente Xi Jinping, “contar bem a história da China”. E não faltam candidatos. A informação consta de uma reportagem extensa, em The Guardian.

No mais recente recrutamento para este efeito  - como conta o artigo que citamos -  o único problema dos avaliadores era o embaraço da escolha entre demasiados candidatos: apareceram quase seis mil para preencher 90 postos de trabalho... 

Na sua fase anterior, este esforço de expansão podia limitar-se à edição de suplementos oficiais, com espaço pago em publicações internacionais respeitadas, como The Washington Post. Podia ser também a colocação de conteúdos da China Radio International nos tempos de antena de estações independentes de todo o mundo, da Austrália à Turquia. 

A partir de 2003, quando foi revisto o documento oficial que define os objectivos políticos do Exército Popular de Libertação, a chamada “guerra mediática” tornou-se parte explícita da estratégia militar de Pequim: “O objectivo é influenciar a opinião pública exterior no sentido de modo a levar governos estrangeiros a conduzirem políticas favoráveis ao Partido Comunista Chinês.” 

Segundo Peter Mattis, que foi analista da CIA e trabalha hoje no programa sobre a China, na Jamestown Foundation, “o objectivo da promoção deste tipo de propaganda é evitar ou esvaziar decisões que possam ir contra a República Popular da China”. (...) 

Ao contrário do que se podia pensar, a actual ofensiva de propaganda de Pequim não é grosseira nem obtusa: 

“Já não se trata de uma batalha pelos clicks. É acima de tudo um combate ideológico e político, com a China determinada a aumentar o seu ‘poder de discurso’ de modo a combater aquilo que vê como décadas de imperialismo inatacado dos media ocidentais. Ao mesmo tempo, Pequim procura também deslocar o centro de gravidade para o Oriente, propagando a ideia de uma nova ordem mundial com uma China ressurgida no seu centro.” (...) 

O extenso trabalho publicado por The Guardian detém-se depois, demoradamente, numa série de exemplos de patrocínio activo de grandes redacções locais da China Global Television Network, em África como na Austrália ou noutros países, em que jornalistas locais deixam as suas próprias empresas seduzidos por melhores condições de contratação, até compreenderem a agenda subjacente. 

Quando o Dalai Lama visitou o Canadá em 2012, um jornalista na delegação da agência Xinhua em Otawa, Mark Bourrie, foi colocado numa posição delicada. Foi-lhe dito que devia usar a sua creditação parlamentar para assistir à conferência de Imprensa do dirigente tibetano, e descobrir o que se tinha passado no encontro privado com o primeiro-ministro, Stephen Harper. Quando perguntou se era informação para usar numa notícia, o chefe disse-lhe que não. 

“Nesse dia senti que éramos espiões”  - contou mais tarde. Despediu-se e mudou de profissão, trabalhando hoje como advogado. 

O seu caso não é único. Outras fontes consultadas para o trabalho aqui citado relatam situações semelhantes, em que jornalistas ao serviço de grandes meios estatais chineses são encarregados de trabalhos destinados apenas a informação interna. (...) 

O uso de estações de rádio estrangeiras para divulgarem conteúdos aprovados pelo governo chinês é uma estratégia que o presidente da China Radio International designou como jie chuan chu hai  - que significa “pedir um barco emprestado para sair para o mar”. 

Estes “barcos emprestados” estão a ser usados também na Imprensa escrita, o que acaba por conferir um sentimento geral de credibilidade do que venha neles embarcado, sobretudo se acabam por aparecer em grandes media de referência, como The New York Times, The Wall Street Journal, The Washington Post ou UK Telegraph. (...) 

“Para os dirigentes chineses, ideais do jornalismo tais como uma cobertura crítica e objectividade não são apenas hostis, mas colocam uma ameaça existencial. Uma directiva governamental agora conhecida, designada como o Documento 9, define que o objectivo último dos media ocidentais é o de ‘forçar uma abertura por onde infiltrar a nossa ideologia’.” 

“Este abismo entre valores jornalísticos foi sublinhado numa série de vídeos difundidos pela China Global Television Network neste ano, com destacados jornalistas chineses acusando os não-chineses de terem sofrido ‘lavagem cerebral’ pelos ‘valores ocidentais do jornalismo’, que são descritos como irresponsáveis e fracturantes para a sociedade.” (...) 

O texto que citmos conclui: 

“O poder do discurso é, segundo parece, um jogo de soma zero para a China, e as vozes críticas a Pequim ou são cooptadas ou silenciadas, deixadas sem plataforma ou afogadas no mar da mensagem positiva criada pelos barcos ‘tomados de empréstimo’ ou ‘comprados’ por Pequim. Enquanto os gigantes dos media ocidentais se desmoronam, o imperialismo mediático chinês está em ascensão, e a batalha final pode já não ser pelos meios de produção do jornalismo, mas pelo próprio jornalismo.” 


O artigo aqui citado, na íntegra, em The Guardian

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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The Children’s Media Conference
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21
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09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigeria