Quinta-feira, 17 de Janeiro, 2019
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Estratégia mediática da China usa "barcos emprestados" para "autenticar" a propaganda...

Durante décadas, a estratégia de imagem da China foi defensiva, de resposta, e apontada sobretudo à sua audiência interna. O efeito mais visível era o desaparecimento de conteúdos: revistas estrangeiras com páginas arrancadas, ou as emissões da BBC que ficavam escuras quando tratavam de temas sensíveis, como o Tibete, Taiwan ou o massacre de Tienanmen.

Mas nos últimos anos a China desenvolveu uma estratégia mais sofisticada e assertiva, apontada às audiências internacionais. E Pequim está a fazê-lo com grande investimento financeiro  - que inclui cobertura jornalística patrocinada.

Um dos exemplos mais ostensivos é agora a contratação de jornalistas ocidentais para a China Global Television Network  - o ramo internacional da Televisão Central da China -  com estúdios em Chiswick, Londres. O objectivo deste esforço é, nas palavras do Presidente Xi Jinping, “contar bem a história da China”. E não faltam candidatos. A informação consta de uma reportagem extensa, em The Guardian.

No mais recente recrutamento para este efeito  - como conta o artigo que citamos -  o único problema dos avaliadores era o embaraço da escolha entre demasiados candidatos: apareceram quase seis mil para preencher 90 postos de trabalho... 

Na sua fase anterior, este esforço de expansão podia limitar-se à edição de suplementos oficiais, com espaço pago em publicações internacionais respeitadas, como The Washington Post. Podia ser também a colocação de conteúdos da China Radio International nos tempos de antena de estações independentes de todo o mundo, da Austrália à Turquia. 

A partir de 2003, quando foi revisto o documento oficial que define os objectivos políticos do Exército Popular de Libertação, a chamada “guerra mediática” tornou-se parte explícita da estratégia militar de Pequim: “O objectivo é influenciar a opinião pública exterior no sentido de modo a levar governos estrangeiros a conduzirem políticas favoráveis ao Partido Comunista Chinês.” 

Segundo Peter Mattis, que foi analista da CIA e trabalha hoje no programa sobre a China, na Jamestown Foundation, “o objectivo da promoção deste tipo de propaganda é evitar ou esvaziar decisões que possam ir contra a República Popular da China”. (...) 

Ao contrário do que se podia pensar, a actual ofensiva de propaganda de Pequim não é grosseira nem obtusa: 

“Já não se trata de uma batalha pelos clicks. É acima de tudo um combate ideológico e político, com a China determinada a aumentar o seu ‘poder de discurso’ de modo a combater aquilo que vê como décadas de imperialismo inatacado dos media ocidentais. Ao mesmo tempo, Pequim procura também deslocar o centro de gravidade para o Oriente, propagando a ideia de uma nova ordem mundial com uma China ressurgida no seu centro.” (...) 

O extenso trabalho publicado por The Guardian detém-se depois, demoradamente, numa série de exemplos de patrocínio activo de grandes redacções locais da China Global Television Network, em África como na Austrália ou noutros países, em que jornalistas locais deixam as suas próprias empresas seduzidos por melhores condições de contratação, até compreenderem a agenda subjacente. 

Quando o Dalai Lama visitou o Canadá em 2012, um jornalista na delegação da agência Xinhua em Otawa, Mark Bourrie, foi colocado numa posição delicada. Foi-lhe dito que devia usar a sua creditação parlamentar para assistir à conferência de Imprensa do dirigente tibetano, e descobrir o que se tinha passado no encontro privado com o primeiro-ministro, Stephen Harper. Quando perguntou se era informação para usar numa notícia, o chefe disse-lhe que não. 

“Nesse dia senti que éramos espiões”  - contou mais tarde. Despediu-se e mudou de profissão, trabalhando hoje como advogado. 

O seu caso não é único. Outras fontes consultadas para o trabalho aqui citado relatam situações semelhantes, em que jornalistas ao serviço de grandes meios estatais chineses são encarregados de trabalhos destinados apenas a informação interna. (...) 

O uso de estações de rádio estrangeiras para divulgarem conteúdos aprovados pelo governo chinês é uma estratégia que o presidente da China Radio International designou como jie chuan chu hai  - que significa “pedir um barco emprestado para sair para o mar”. 

Estes “barcos emprestados” estão a ser usados também na Imprensa escrita, o que acaba por conferir um sentimento geral de credibilidade do que venha neles embarcado, sobretudo se acabam por aparecer em grandes media de referência, como The New York Times, The Wall Street Journal, The Washington Post ou UK Telegraph. (...) 

“Para os dirigentes chineses, ideais do jornalismo tais como uma cobertura crítica e objectividade não são apenas hostis, mas colocam uma ameaça existencial. Uma directiva governamental agora conhecida, designada como o Documento 9, define que o objectivo último dos media ocidentais é o de ‘forçar uma abertura por onde infiltrar a nossa ideologia’.” 

“Este abismo entre valores jornalísticos foi sublinhado numa série de vídeos difundidos pela China Global Television Network neste ano, com destacados jornalistas chineses acusando os não-chineses de terem sofrido ‘lavagem cerebral’ pelos ‘valores ocidentais do jornalismo’, que são descritos como irresponsáveis e fracturantes para a sociedade.” (...) 

O texto que citmos conclui: 

“O poder do discurso é, segundo parece, um jogo de soma zero para a China, e as vozes críticas a Pequim ou são cooptadas ou silenciadas, deixadas sem plataforma ou afogadas no mar da mensagem positiva criada pelos barcos ‘tomados de empréstimo’ ou ‘comprados’ por Pequim. Enquanto os gigantes dos media ocidentais se desmoronam, o imperialismo mediático chinês está em ascensão, e a batalha final pode já não ser pelos meios de produção do jornalismo, mas pelo próprio jornalismo.” 


O artigo aqui citado, na íntegra, em The Guardian

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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