null, 24 de Março, 2019
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Estratégia mediática da China usa "barcos emprestados" para "autenticar" a propaganda...

Durante décadas, a estratégia de imagem da China foi defensiva, de resposta, e apontada sobretudo à sua audiência interna. O efeito mais visível era o desaparecimento de conteúdos: revistas estrangeiras com páginas arrancadas, ou as emissões da BBC que ficavam escuras quando tratavam de temas sensíveis, como o Tibete, Taiwan ou o massacre de Tienanmen.

Mas nos últimos anos a China desenvolveu uma estratégia mais sofisticada e assertiva, apontada às audiências internacionais. E Pequim está a fazê-lo com grande investimento financeiro  - que inclui cobertura jornalística patrocinada.

Um dos exemplos mais ostensivos é agora a contratação de jornalistas ocidentais para a China Global Television Network  - o ramo internacional da Televisão Central da China -  com estúdios em Chiswick, Londres. O objectivo deste esforço é, nas palavras do Presidente Xi Jinping, “contar bem a história da China”. E não faltam candidatos. A informação consta de uma reportagem extensa, em The Guardian.

No mais recente recrutamento para este efeito  - como conta o artigo que citamos -  o único problema dos avaliadores era o embaraço da escolha entre demasiados candidatos: apareceram quase seis mil para preencher 90 postos de trabalho... 

Na sua fase anterior, este esforço de expansão podia limitar-se à edição de suplementos oficiais, com espaço pago em publicações internacionais respeitadas, como The Washington Post. Podia ser também a colocação de conteúdos da China Radio International nos tempos de antena de estações independentes de todo o mundo, da Austrália à Turquia. 

A partir de 2003, quando foi revisto o documento oficial que define os objectivos políticos do Exército Popular de Libertação, a chamada “guerra mediática” tornou-se parte explícita da estratégia militar de Pequim: “O objectivo é influenciar a opinião pública exterior no sentido de modo a levar governos estrangeiros a conduzirem políticas favoráveis ao Partido Comunista Chinês.” 

Segundo Peter Mattis, que foi analista da CIA e trabalha hoje no programa sobre a China, na Jamestown Foundation, “o objectivo da promoção deste tipo de propaganda é evitar ou esvaziar decisões que possam ir contra a República Popular da China”. (...) 

Ao contrário do que se podia pensar, a actual ofensiva de propaganda de Pequim não é grosseira nem obtusa: 

“Já não se trata de uma batalha pelos clicks. É acima de tudo um combate ideológico e político, com a China determinada a aumentar o seu ‘poder de discurso’ de modo a combater aquilo que vê como décadas de imperialismo inatacado dos media ocidentais. Ao mesmo tempo, Pequim procura também deslocar o centro de gravidade para o Oriente, propagando a ideia de uma nova ordem mundial com uma China ressurgida no seu centro.” (...) 

O extenso trabalho publicado por The Guardian detém-se depois, demoradamente, numa série de exemplos de patrocínio activo de grandes redacções locais da China Global Television Network, em África como na Austrália ou noutros países, em que jornalistas locais deixam as suas próprias empresas seduzidos por melhores condições de contratação, até compreenderem a agenda subjacente. 

Quando o Dalai Lama visitou o Canadá em 2012, um jornalista na delegação da agência Xinhua em Otawa, Mark Bourrie, foi colocado numa posição delicada. Foi-lhe dito que devia usar a sua creditação parlamentar para assistir à conferência de Imprensa do dirigente tibetano, e descobrir o que se tinha passado no encontro privado com o primeiro-ministro, Stephen Harper. Quando perguntou se era informação para usar numa notícia, o chefe disse-lhe que não. 

“Nesse dia senti que éramos espiões”  - contou mais tarde. Despediu-se e mudou de profissão, trabalhando hoje como advogado. 

O seu caso não é único. Outras fontes consultadas para o trabalho aqui citado relatam situações semelhantes, em que jornalistas ao serviço de grandes meios estatais chineses são encarregados de trabalhos destinados apenas a informação interna. (...) 

O uso de estações de rádio estrangeiras para divulgarem conteúdos aprovados pelo governo chinês é uma estratégia que o presidente da China Radio International designou como jie chuan chu hai  - que significa “pedir um barco emprestado para sair para o mar”. 

Estes “barcos emprestados” estão a ser usados também na Imprensa escrita, o que acaba por conferir um sentimento geral de credibilidade do que venha neles embarcado, sobretudo se acabam por aparecer em grandes media de referência, como The New York Times, The Wall Street Journal, The Washington Post ou UK Telegraph. (...) 

“Para os dirigentes chineses, ideais do jornalismo tais como uma cobertura crítica e objectividade não são apenas hostis, mas colocam uma ameaça existencial. Uma directiva governamental agora conhecida, designada como o Documento 9, define que o objectivo último dos media ocidentais é o de ‘forçar uma abertura por onde infiltrar a nossa ideologia’.” 

“Este abismo entre valores jornalísticos foi sublinhado numa série de vídeos difundidos pela China Global Television Network neste ano, com destacados jornalistas chineses acusando os não-chineses de terem sofrido ‘lavagem cerebral’ pelos ‘valores ocidentais do jornalismo’, que são descritos como irresponsáveis e fracturantes para a sociedade.” (...) 

O texto que citmos conclui: 

“O poder do discurso é, segundo parece, um jogo de soma zero para a China, e as vozes críticas a Pequim ou são cooptadas ou silenciadas, deixadas sem plataforma ou afogadas no mar da mensagem positiva criada pelos barcos ‘tomados de empréstimo’ ou ‘comprados’ por Pequim. Enquanto os gigantes dos media ocidentais se desmoronam, o imperialismo mediático chinês está em ascensão, e a batalha final pode já não ser pelos meios de produção do jornalismo, mas pelo próprio jornalismo.” 


O artigo aqui citado, na íntegra, em The Guardian

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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