Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Media

Agravou-se o declínio global da liberdade de expressão e o perigo do exercício do jornalismo

A liberdade de expressão encontra-se no seu ponto mais baixo desde há dez anos, afirma a organização britânica de defesa dos direitos humanos Article 19  - o que significa que a prática do jornalismo se tornou mais perigosa. Pelo menos 78 jornalistas foram mortos em serviço durante o ano de 2017, e 326 metidos na prisão, mas a organização reconhece que a recolha de dados peca por defeito na identificação de todos os casos de violência contra os jornalistas.

“O preço a pagar pela defesa do direito à liberdade de expressão e informação tornou-se extremamente elevado: morte, prisão e medo tomam grandes proporções diante de comunicadores e activistas por todo o mundo, e o espaço para comunicação e debate significativos está sob cerco”  -  afirmou Thomas Hughes, o director-executivo de Article 19, sobre os dados revelados pelo seu mais recente relatório.

Um dos indicadores de medida utilizados pela organização mostra que “a liberdade de expressão está em declínio desde há dez anos, e que esta degradação acelerou nos últimos três anos”  - disse ainda Thomas Hughes. “Trata-se de um fenómeno global, com muitas violações a acontecer em países onde a liberdade de expressão era tradicionalmente protegida.” 

O relatório identifica 48 países onde este declínio foi verificado, entre os anos de 2014 e 2017. A organização conclui que a hostilidade  contra os media está a tornar-se “normal” em todo o mundo, com a proliferação de “homens fortes” populistas, que fazem eco da linguagem do Presidente dos EUA e denigrem os jornalistas simplesmente pelo trabalho que fazem. 

Há evidência crescente de que a sua atitude encoraja outros, da Hungria às Filipinas, à Albânia e ao Canadá. O relatório recorda que, em pouco mais de um ano, foram mortos repórteres na Bulgária, Eslováquia, Rússia e Malta. 

O diário britânico The Guardian, que aqui citamos, complementa os dados da Article 19 com os do Committee to Protect Journalists, segundo o qual 2018 não vai revelar-se como tendo sido melhor para os jornalistas. O caso de Jamal Kashoggi, morto por forças de segurança sauditas em Istambul, é apenas um entre 31 jornalistas assassinados neste ano. 

A Dinamarca surge em primeiro lugar na classificação de liberdade de expressão e informação da Article 19, juntamente com a Noruega, Suíça, Alemanha e Finlândia. 

“Houve declínio substancial na capacidade dos jornalistas fazerem o seu trabalho no Iémen, Burundi, Roménia, Zanzibar e na Turquia  - onde os repórteres admitem em privado que se abstêm de escrever sobre o Presidente Recep Tayyip Erdogan, pelo receio de consequências judiciais.”  (...)

 

 

Mais informação em The Guardian  e a síntese do relatório no site da Article 19

 

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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