Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Media

UNESCO publica manual contra a desinformação, para jornalistas

O séc. XXI está a assistir à “armamentização” da informação a uma escala sem precedentes, mas o jornalismo pode contra-atacar. É nestes termos que é apresentado um documento agora tornado disponível pela UNESCO, concebido como um guia prático para editores, jornalistas no terreno e docentes, intitulado Journalism, ‘Fake News’ & Disinformation.

“Este novo manual baseia-se nas percepções e conselhos de especialistas de todo o mundo para lançar luz sobre a poluição da informação e explicar de que modo pode o jornalismo contra-atacar”  - explica Guy Berger, director do departamento de Liberdade de Expressão e Desenvolvimento dos Media da UNESCO.

Segundo a apresentação do texto, que aqui citamos da International Journalists’ Network, trata-se de um guia que descreve as melhores práticas a seguir numa variedade de tópicos, desde regras básicas de fact-checking e verificção das redes sociais até à literacia para os media e o combate à agressão online.

Os docentes de jornalismo podem servir-se dos sete módulos nele desenvolvidos como estrutura de um currículo a usar em aulas, com destaques, exercícios, trabalhos e leituras propostas. 

Os referidos módulos são:  -  Verdade, Confiança e Jornalismo: porque são importantes;  -  Reflexão sobre a “desordem da informação”;  -  Mudanças no jornalismo: a tecnologia digital, as redes sociais e a desinformação;  -  Combate à desinformação pela Literacia para os Media;  -  “Fact checking”;  6  -  Verificação das redes sociais;  -  Combate à agressão online: quando jornalistas e fontes são alvos de ataque. 

“A presente crise da desinformação exige competências avançadas de combate”  - afirma a co-editora do manual, Julie Posetti, do Instituto Reuters, na Universidade de Oxford: 

“Estas implicam a necessidade de ferramentas de alto nível para verificar as fontes, textos, vídeos e imagens das redes sociais, bem como de estratégias de combate ao assédio online, que é cada vez mais obra de campanhas orquestradas de desinformação, apontadas contrra os jornalistas.” 

Julie Posetti foi também co-autora, no início de 2018, do “Breve Guia sobre a História das ‘Fake News’ e Desinformação”, elaborado para o IJN. Segundo explica, estas práticas existem desde a antiga Roma, mas o que é novo hoje “é a velocidade a que circula a desinformação por meio das redes sociais”: 

“A capacidade de qualquer propagandista divulgar material que imita enganosamente o jornalismo, distorce a verdade ou fabrica de alto a baixo palavras e actos, é hoje ilimitada”  - afirmou. 

Sobre o combate às fake news, o documento cita o exemplo criativo de um teste interactivo, usado nas páginas do diário britânico The Guardian, em que são apresentadas diversas afirmações, redigidas pelos jornalistas da casa, entre as quais o leitor deverá idenficar as que são flagrantemente enganosas. 

O Instituto Reuters promove um debate público, em painel, para assinalar o lançamento deste manual pela UNESCO, estando presente, entre outros especialistas, Julie Posetti.

 

O texto aqui citado, no site da IJNet;  e o manual lançado pela UNESCO

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
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