Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Media

"Desordem da informação" põe em risco a democracia

Se as bases factuais em que assenta a governação democrática não são credíveis, os cidadãos ficam com poucos recursos ao seu dispor, em assuntos de decisão colectiva. “É então que se instalam o cinismo, a apatia e a adesão a dirigentes populistas ou autoritários, com respostas simples, e a democracia parece ser demasiado confusa, contestada ou complicada para ser seguida.”

Está a nascer uma nova “ordem da informação”, já não fundamentada nos factos e na verdade partilhada, mas “estrategicamente designada para confundir, ofender e manipular emocionalmente”. É esta a advertência de um novo relatório divulgado pela Comissão sobre Verdade, Confiança e Tecnologia, da London School of Economics, que retoma as preocupações já expostas no relatório do Conselho da Europa, de 2017, sobre a “desordem da informação”.

“Embora seja difícil demonstrar uma relação de causalidade, o crescimento das redes sociais coincide com a erosão alarmante de um apoio forte à democracia, entre os jovens eleitores nos EUA e na Europa Ocidental (que cresceram sem a ameaça existencial do fascismo ou de um regime autoritário).”

Segundo o artigo que aqui citamos, do Observatório Europeu do Jornalismo, a solução habitualmente procurada é a de promover a “literacia do jornalismo” entre os leitores dos media. Mas os projectos deste tipo pedem-lhes que se tornem, “não só consumidores críticos da informação, e árbitros da verdade entre afirmações concorrentes, mas ainda geradores de conteúdos criativos e atentos  - por outras palavras, que sejam eles próprios jornalistas”. (...) 

Acrescenta-se a isto a necessidade de “estarem atentos aos ataques de hackers, aos esquemas de phising, às violações de privacidade, às fake news, às campanhas de desinformação e à propaganda computorizada, desenvolvendo ainda a competência técnica e os recursos cognitivos para conseguirem obter valor da esfera da informação  - por outras palavras, para interagirem com os media digitais com uma competência ao nível da dos hackers”. 

O texto que citamos admite que tudo isto pode ser exigido a alguém com formação superior em jornalismo, estudos de media e comunicação, mas não está ao alcance do utente normal. O problema é que, à semelhança dos avisos sobre o aquecimento global, a “crise da informação” identificada por esta Truth, Trust and Technology Commission “não se perspectiva apenas num futuro longínquo, mas já está em cima de nós”. 

Além do referido relatório do Conselho da Europa sobre a Information Disorder, o artigo menciona, como coincidentes na mesma linha, as preocupações apontadas pelo grupo de peritos nomeado pela Comissão Europeia sobre Fake News and Online Disinformation, em Março deste ano, e a mais recente Trust and Technology Initiative da Universidade de Cambridge. Estes e outros documentos citados são acessíveis pelos links incluídos no texto. 

A questão central levantada pelo autor, Erik Bucy, docente no Departamento de Telecomunicações na Universidade de Indiana, Bloomington, é a seguinte: 

“Será que os cidadãos têm, na sua maioria, uma compreensão suficientemente desenvolvida dos procedimentos e práticas dos media de referência, para deterem uma base pessoal de conhecimentos sobre jornalismo, de cada vez que acedem a fontes enganosas ou conteúdos suspeitos?” 

Da sua experiência e investigação, o autor conclui que esse conhecimento do modo de funcionamento do jornalismo confere ao leitor uma maior capacidade de “detecção das tretas” [bullshit detection, no original] e melhora a sua motivação para procurar fontes de qualidade. 

“Distinguir entre facto e ficção e entre as tentativas de persuadir, em vez de informar, é uma tarefa cada vez mais complexa, quando o peso da verificação recai sobre o indivíduo, como sucede frequentemente em meios digitais. Mas as fake news só chegam até aí se os utentes estiverem equipados de conhecimento sobre os processos que tornam as notícias sólidas fundamentalmente diferentes da opinião e da asserção  - e souberem reconhecer alegações politicamente motivadas como aquilo que são.” (...) 

“Uma educação para media de qualidade deve ser acessível ao público a custo nominal, e conduzida por instrutores que sejam livres de tendenciosismo, mas empenhados em comunicar a função constitutiva do jornalismo na sociedade.” (...)


O artigo citado, no European Journalism Observatory, e o relatório da Truth, Trust and Technology Commission  da LSE
O relatório do Conselho da Europa sobre a Desordem da Informação

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...