Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
Media

"Desordem da informação" põe em risco a democracia

Se as bases factuais em que assenta a governação democrática não são credíveis, os cidadãos ficam com poucos recursos ao seu dispor, em assuntos de decisão colectiva. “É então que se instalam o cinismo, a apatia e a adesão a dirigentes populistas ou autoritários, com respostas simples, e a democracia parece ser demasiado confusa, contestada ou complicada para ser seguida.”

Está a nascer uma nova “ordem da informação”, já não fundamentada nos factos e na verdade partilhada, mas “estrategicamente designada para confundir, ofender e manipular emocionalmente”. É esta a advertência de um novo relatório divulgado pela Comissão sobre Verdade, Confiança e Tecnologia, da London School of Economics, que retoma as preocupações já expostas no relatório do Conselho da Europa, de 2017, sobre a “desordem da informação”.

“Embora seja difícil demonstrar uma relação de causalidade, o crescimento das redes sociais coincide com a erosão alarmante de um apoio forte à democracia, entre os jovens eleitores nos EUA e na Europa Ocidental (que cresceram sem a ameaça existencial do fascismo ou de um regime autoritário).”

Segundo o artigo que aqui citamos, do Observatório Europeu do Jornalismo, a solução habitualmente procurada é a de promover a “literacia do jornalismo” entre os leitores dos media. Mas os projectos deste tipo pedem-lhes que se tornem, “não só consumidores críticos da informação, e árbitros da verdade entre afirmações concorrentes, mas ainda geradores de conteúdos criativos e atentos  - por outras palavras, que sejam eles próprios jornalistas”. (...) 

Acrescenta-se a isto a necessidade de “estarem atentos aos ataques de hackers, aos esquemas de phising, às violações de privacidade, às fake news, às campanhas de desinformação e à propaganda computorizada, desenvolvendo ainda a competência técnica e os recursos cognitivos para conseguirem obter valor da esfera da informação  - por outras palavras, para interagirem com os media digitais com uma competência ao nível da dos hackers”. 

O texto que citamos admite que tudo isto pode ser exigido a alguém com formação superior em jornalismo, estudos de media e comunicação, mas não está ao alcance do utente normal. O problema é que, à semelhança dos avisos sobre o aquecimento global, a “crise da informação” identificada por esta Truth, Trust and Technology Commission “não se perspectiva apenas num futuro longínquo, mas já está em cima de nós”. 

Além do referido relatório do Conselho da Europa sobre a Information Disorder, o artigo menciona, como coincidentes na mesma linha, as preocupações apontadas pelo grupo de peritos nomeado pela Comissão Europeia sobre Fake News and Online Disinformation, em Março deste ano, e a mais recente Trust and Technology Initiative da Universidade de Cambridge. Estes e outros documentos citados são acessíveis pelos links incluídos no texto. 

A questão central levantada pelo autor, Erik Bucy, docente no Departamento de Telecomunicações na Universidade de Indiana, Bloomington, é a seguinte: 

“Será que os cidadãos têm, na sua maioria, uma compreensão suficientemente desenvolvida dos procedimentos e práticas dos media de referência, para deterem uma base pessoal de conhecimentos sobre jornalismo, de cada vez que acedem a fontes enganosas ou conteúdos suspeitos?” 

Da sua experiência e investigação, o autor conclui que esse conhecimento do modo de funcionamento do jornalismo confere ao leitor uma maior capacidade de “detecção das tretas” [bullshit detection, no original] e melhora a sua motivação para procurar fontes de qualidade. 

“Distinguir entre facto e ficção e entre as tentativas de persuadir, em vez de informar, é uma tarefa cada vez mais complexa, quando o peso da verificação recai sobre o indivíduo, como sucede frequentemente em meios digitais. Mas as fake news só chegam até aí se os utentes estiverem equipados de conhecimento sobre os processos que tornam as notícias sólidas fundamentalmente diferentes da opinião e da asserção  - e souberem reconhecer alegações politicamente motivadas como aquilo que são.” (...) 

“Uma educação para media de qualidade deve ser acessível ao público a custo nominal, e conduzida por instrutores que sejam livres de tendenciosismo, mas empenhados em comunicar a função constitutiva do jornalismo na sociedade.” (...)


O artigo citado, no European Journalism Observatory, e o relatório da Truth, Trust and Technology Commission  da LSE
O relatório do Conselho da Europa sobre a Desordem da Informação

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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