Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
Mundo

Os jornalistas como alvo privilegiado das máfias

Foram mortos pela máfia, só nestes últimos dois anos, mais de 30 jornalistas, e houve pelo menos cinco tentativas de assassínio. Os números constam do mais recente relatório dos Repórteres sem Fronteiras, intitulado “Os jornalistas, ‘inimigos de estimação’ da máfia”. O autor do texto, o jornalista de investigação Frédéric Ploguin, explica que “o polvo estendeu os seus tentáculos pelo planeta, mais depressa do que todas as multinacionais reunidas, e as organizações criminosas chegam a ser mais poderosas do que os próprios Estados”.

Christophe Deloire, secretário-geral dos RSF, manifestou, durante a apresentação do relatório, a sua inquietação diante deste tipo de violência que atravessa o mundo, sublinhando que, desde o Brasil ao Japão, passando pela Itália, o crime organizado não tem fronteiras.

Se isto é verdade no continente sul-americano, onde dez jornalistas foram mortos desde o princípio do ano  - especialmente no México, pelos cartéis da droga -  o relatório chama agora a atenção para a Europa. Os dois casos mais conhecidos são os de Daphne Caruana Galizia, morta por atentado à bomba, em 2017, quando investigava a corrupção no governo de Malta, e o jovem eslovaco Jan Kuciak, morto com a sua companheira em Fevereiro de 2018. Este último preparava-se para publicar revelações sobre a ligação entre a máfia da Calábria, a ‘Ndrangueta, e membros do governo do seu país. 

Convidada a falar do seu caso, a jornalista italiana Marilú Mastrogiovanni, especializada na investigação da organização mafiosa Pavla Corona Unita, descreveu a escalada de ameaças que tem recebido: 

“Primeiro eram telefonemas anónimos, para deixar de fazer investigação. Depois, vieram deixar montes de porcarias diante da porta da redacção. Mais tarde arrombaram-na. Para conseguirem entrar, destruiram uma parede. Roubaram todos os computadores. Finalmente, incendiaram a minha casa e mataram o meu cão à paulada.” 

Ela não é caso único. Em 2017, na Itália, estavam sob medidas de protecção 196 jornalistas  - e uma dezena deles, como Roberto Saviano ou Paolo Borrometi, são escoltados noite e dia. 

Christophe Deloire explicou que que o jornalista italiano Paolo Borrometi, guardado em permanência por cinco polícias, desde que revelou os negócios das “agro-máfias” que “colonizaram a União Europeia”, não podia estar presente devido às dimensões do seu dispositivo de segurança. 

O relatório mostra como as máfias se espalharam pela Europa, nos países dos Balcãs, desde o fim da União Soviética. Mas também como os jornalistas de investigação que tratam de temas sensíveis, como a defesa do ambiente ou a evasão fiscal, são cada vez mais ameaçados pelo crime organizado em todo o mundo. 

Em Março deste ano, na índia, o jornalista Sandeep Sharma, que investigava a “máfia das areias”  - baseada em negócios de extracção em minas ilegais -  foi encontrado morto, esmagado por um camião-basculante.

 

Mais informação em L’Obs e nos RSF,  e o relatório em PDF

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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