Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Mundo

Os jornalistas como alvo privilegiado das máfias

Foram mortos pela máfia, só nestes últimos dois anos, mais de 30 jornalistas, e houve pelo menos cinco tentativas de assassínio. Os números constam do mais recente relatório dos Repórteres sem Fronteiras, intitulado “Os jornalistas, ‘inimigos de estimação’ da máfia”. O autor do texto, o jornalista de investigação Frédéric Ploguin, explica que “o polvo estendeu os seus tentáculos pelo planeta, mais depressa do que todas as multinacionais reunidas, e as organizações criminosas chegam a ser mais poderosas do que os próprios Estados”.

Christophe Deloire, secretário-geral dos RSF, manifestou, durante a apresentação do relatório, a sua inquietação diante deste tipo de violência que atravessa o mundo, sublinhando que, desde o Brasil ao Japão, passando pela Itália, o crime organizado não tem fronteiras.

Se isto é verdade no continente sul-americano, onde dez jornalistas foram mortos desde o princípio do ano  - especialmente no México, pelos cartéis da droga -  o relatório chama agora a atenção para a Europa. Os dois casos mais conhecidos são os de Daphne Caruana Galizia, morta por atentado à bomba, em 2017, quando investigava a corrupção no governo de Malta, e o jovem eslovaco Jan Kuciak, morto com a sua companheira em Fevereiro de 2018. Este último preparava-se para publicar revelações sobre a ligação entre a máfia da Calábria, a ‘Ndrangueta, e membros do governo do seu país. 

Convidada a falar do seu caso, a jornalista italiana Marilú Mastrogiovanni, especializada na investigação da organização mafiosa Pavla Corona Unita, descreveu a escalada de ameaças que tem recebido: 

“Primeiro eram telefonemas anónimos, para deixar de fazer investigação. Depois, vieram deixar montes de porcarias diante da porta da redacção. Mais tarde arrombaram-na. Para conseguirem entrar, destruiram uma parede. Roubaram todos os computadores. Finalmente, incendiaram a minha casa e mataram o meu cão à paulada.” 

Ela não é caso único. Em 2017, na Itália, estavam sob medidas de protecção 196 jornalistas  - e uma dezena deles, como Roberto Saviano ou Paolo Borrometi, são escoltados noite e dia. 

Christophe Deloire explicou que que o jornalista italiano Paolo Borrometi, guardado em permanência por cinco polícias, desde que revelou os negócios das “agro-máfias” que “colonizaram a União Europeia”, não podia estar presente devido às dimensões do seu dispositivo de segurança. 

O relatório mostra como as máfias se espalharam pela Europa, nos países dos Balcãs, desde o fim da União Soviética. Mas também como os jornalistas de investigação que tratam de temas sensíveis, como a defesa do ambiente ou a evasão fiscal, são cada vez mais ameaçados pelo crime organizado em todo o mundo. 

Em Março deste ano, na índia, o jornalista Sandeep Sharma, que investigava a “máfia das areias”  - baseada em negócios de extracção em minas ilegais -  foi encontrado morto, esmagado por um camião-basculante.

 

Mais informação em L’Obs e nos RSF,  e o relatório em PDF

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

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Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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