null, 26 de Maio, 2019
Mundo

Os jornalistas como alvo privilegiado das máfias

Foram mortos pela máfia, só nestes últimos dois anos, mais de 30 jornalistas, e houve pelo menos cinco tentativas de assassínio. Os números constam do mais recente relatório dos Repórteres sem Fronteiras, intitulado “Os jornalistas, ‘inimigos de estimação’ da máfia”. O autor do texto, o jornalista de investigação Frédéric Ploguin, explica que “o polvo estendeu os seus tentáculos pelo planeta, mais depressa do que todas as multinacionais reunidas, e as organizações criminosas chegam a ser mais poderosas do que os próprios Estados”.

Christophe Deloire, secretário-geral dos RSF, manifestou, durante a apresentação do relatório, a sua inquietação diante deste tipo de violência que atravessa o mundo, sublinhando que, desde o Brasil ao Japão, passando pela Itália, o crime organizado não tem fronteiras.

Se isto é verdade no continente sul-americano, onde dez jornalistas foram mortos desde o princípio do ano  - especialmente no México, pelos cartéis da droga -  o relatório chama agora a atenção para a Europa. Os dois casos mais conhecidos são os de Daphne Caruana Galizia, morta por atentado à bomba, em 2017, quando investigava a corrupção no governo de Malta, e o jovem eslovaco Jan Kuciak, morto com a sua companheira em Fevereiro de 2018. Este último preparava-se para publicar revelações sobre a ligação entre a máfia da Calábria, a ‘Ndrangueta, e membros do governo do seu país. 

Convidada a falar do seu caso, a jornalista italiana Marilú Mastrogiovanni, especializada na investigação da organização mafiosa Pavla Corona Unita, descreveu a escalada de ameaças que tem recebido: 

“Primeiro eram telefonemas anónimos, para deixar de fazer investigação. Depois, vieram deixar montes de porcarias diante da porta da redacção. Mais tarde arrombaram-na. Para conseguirem entrar, destruiram uma parede. Roubaram todos os computadores. Finalmente, incendiaram a minha casa e mataram o meu cão à paulada.” 

Ela não é caso único. Em 2017, na Itália, estavam sob medidas de protecção 196 jornalistas  - e uma dezena deles, como Roberto Saviano ou Paolo Borrometi, são escoltados noite e dia. 

Christophe Deloire explicou que que o jornalista italiano Paolo Borrometi, guardado em permanência por cinco polícias, desde que revelou os negócios das “agro-máfias” que “colonizaram a União Europeia”, não podia estar presente devido às dimensões do seu dispositivo de segurança. 

O relatório mostra como as máfias se espalharam pela Europa, nos países dos Balcãs, desde o fim da União Soviética. Mas também como os jornalistas de investigação que tratam de temas sensíveis, como a defesa do ambiente ou a evasão fiscal, são cada vez mais ameaçados pelo crime organizado em todo o mundo. 

Em Março deste ano, na índia, o jornalista Sandeep Sharma, que investigava a “máfia das areias”  - baseada em negócios de extracção em minas ilegais -  foi encontrado morto, esmagado por um camião-basculante.

 

Mais informação em L’Obs e nos RSF,  e o relatório em PDF

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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