Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Opinião

A pergunta de Persifal Marcelo

por Carlos Magno

O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.
Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a interrogar-se em público com as mesmas palavras do Presidente português?!...

O Presidente americano é um caso extremo de ódio ao jornalismo, mas a verdade é que o Presidente Macron tentou fazer o que Marcelo disse e foi insultado por quase toda a oposição no parlamento francês.

 

O assunto é delicado, mas Marcelo anda há, pelo menos, meia dúzia de anos a pensar no assunto com a inteligência estratégica que se lhe reconhece e sabe que não pode fazer disto uma nova vichyssoise. Sobretudo sendo 2019 um ano de eleições.

 

Além disso há diretivas europeias e experiências de outros países que devem ser estudadas. O relatório do grupo de peritos sobre as fake news presidido pela minha amiga holandesa Madeleine Cock Buning é um documento obrigatório. Mas acho que os grupos de media portugueses (que têm uma economia própria na geografia da língua) deviam, no plano imediato, perceber as consequências do Brexit na produção de conteúdos europeus. E aproveitar a oportunidade única para fortalecer a indústria dos meios.

 

Sublinho, no entanto que a pergunta de Marcelo é como a pergunta de Persifal. Vale por si. Não traz resposta. Interroga-se. Interroga-nos. E ao fazê-lo está a cumprir o seu dever. Se Persifal não fizer a lendária pergunta a floresta onde se perdem os cavaleiros medievais continuará seca, escura e quase desvitalizada. A pergunta de Persifal, é, por isso necessária. Porquê? Porque é que a paisagem mediática chegou a este ponto. O que é que se pode fazer para revitalizar o território da informação plural e diversificada e dar ao digital a credibilidade própria de um jornalismo moderno, maduro e profissional.

 

O regresso à natureza sagrada dos factos com a liberdade de interpretação sobre eles é o regresso às origens do melhor jornalismo que já se praticou. O problema de hoje é a promiscuidade de comentadores, analistas e toda a espécie de políticos travestidos de jornalistas que andam no meio mediático a atrapalhar o tráfego.

 

Marcelo foi um dos mais flagrantes exemplos, pode argumentar-se. E é verdade. Mas Marcelo nasceu no jornalismo. Participou em projetos, criou jornais, expôs-se.  Não se limitou a parasitar o sistema como fazem os transgénicos de políticos atuais. Marcelo conhece o problema da credibilidade. Percebeu, a partir de Belém, que não se pode brincar mais ao jornalismo. E, por isso falou. Perguntou. Porque, nesta matéria, o silêncio é crime. E o Presidente da República quer que todos respondamos.

 

 

Jornalista.  Ex-presidente da ERC e fundador de um observatório em Fake News na Universidade de Aveiro

 

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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