Quinta-feira, 4 de Junho, 2020
Opinião

Vamos pagar jornais que ninguém quer ler?

por Rui Ramos

Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa?

Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave: uma grande parte da comunicação social portuguesa é cada vez menos vista, ouvida ou lida. Por isso, quando o Presidente da República, esta semana, sugeriu que talvez o Estado pudesse “intervir” para ajudar a imprensa, deveria talvez ter sido mais preciso sobre o modo como essa ajuda se deve fazer:

porque, por exemplo, pôr os contribuintes a pagar a comunicação social através da Autoridade Tributária não é a mesma coisa que tornar essa comunicação social mais relevante. Pode até ter o efeito contrário.

O Presidente da República sabe isso, como aliás deu a entender ao mencionar a memória dos mais “velhinhos”. Mas não é preciso ser muito “velhinho”. Há trinta anos, quem acendesse a televisão, só via a televisão do Estado, quem ligasse a rádio, quase só ouvia antenas do Estado, e quem passasse pelo quiosque, tinha sobretudo títulos do Estado para ler. A experiência da “comunicação social estatizada”, depois de 1974, foi um dos maiores dramas da história da imprensa portuguesa. Durante anos, os governos mudaram directores, escolheram jornalistas, decidiram subsídios. O resultado foi, no caso da imprensa escrita, o descrédito e a morte de alguns dos mais importantes jornais portugueses. O Século, por exemplo, que passara por muitos regimes e muitas crises sempre como o maior diário nacional, desapareceu, sem audiência, à mercê de uma direcção-geral qualquer. Na comunicação social, o Estado mata tudo o que ama.

Porquê? Em primeiro lugar, porque há, na ideia de uma imprensa estatizada ou ajudada pelo Estado, uma contradição que não há noutros casos. A comunicação social, para ser relevante, precisa de independência. Mas nunca parecerá independente, por mais voltas que dê, se depender precisamente da entidade que, em qualquer sociedade, mais se queixa da imprensa: o governo.

Perguntarão: não seria possível criar mecanismos para impedir a interferência directa dos ministros nos órgãos de comunicação sob assistência? Talvez, mas o problema é que haveria sempre a “ajuda” em si (fosse qual fosse a sua modalidade), que os governos poderiam racionar, redistribuir ou ameaçar extinguir como forma de pressão. Uma imprensa forçada a passar constantemente debaixo das forcas caudinas nunca estaria à vontade.

Mas mesmo que por milagre resolvêssemos essa dificuldade, restava ainda outra. Na imprensa portuguesa, como na imprensa de outras partes do mundo, há dificuldades, mas há também sucessos. O que quer dizer que é possível viabilizar televisões, rádios ou jornais. Durante algum tempo, julgou-se que a questão era tecnológica, e que bastaria migrar para a internet. Não basta. É preciso desenvolver novas relações com clientes e com leitores, que levem uns e outros a identificar-se com as marcas e a contribuir para a sua viabilidade. Foi, por exemplo, o que o Guardian conseguiu. É verdade que não há certezas a esse respeito. Mas há uma maneira infalível de garantir que a imprensa nunca descobrirá o que fazer: é passar a ser financiada ou protegida pelo Estado, retirando-lhe motivos para mudar e melhorar. Empresas de comunicação social encostadas ao poder não seriam só pouco inovadoras, mas tenderiam a limitar em geral a inovação no sector, ao atulhar o mercado e retirar espaço a novos concorrentes. Televisões que ninguém vê, rádios que ninguém ouve, jornais que ninguém lê, mas todos pagos pelo Estado: expliquem-me como é que isso salvaria a democracia.

 

(Publicado originalmente no jornal electrónico “Observador”)

Connosco
O paradoxo no Brasil entre a ética jornalística e a ética empresarial Ver galeria

Os jornalistas brasileiros estão a ser confrontados com novos obstáculos, impostos à profissão pela Covid-19. É o caso teletrabalho,  que veio alterar, profundamente, o “modus operandi” das redacções e da investigação jornalística. 

Há, contudo, outras questões, ainda mais preocupantes, a serem discutidas por estes profissionais, como é o caso da ética jornalística, reiterou Silvia Meirelles Leite num artigo publicado na revista “objETHOS” e reproduzido no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

De acordo com a autora, enquanto os jornalistas continuam a desempenhar as suas funções e a manter a população informada, as empresas detentoras dos “media” têm de garantir apoios financeiros.

Isto leva a que, não raramente, a televisão pública seja obrigada a suprimir certas peças jornalísticas. Caso contrário, este serviço deixaria de receber financiamento governamental.

A cobertura do coronavírus reforçou a credibilidade jornalística Ver galeria

A pandemia de Covid-19 afectou praticamente todos os sectores da sociedade e influenciou a vida dos cidadãos, um pouco por todo o mundo.

Assim, os jornalistas têm vindo a assumir um papel essencial, mantendo a  população informada sobre os impactos da doença, bem como sobre as suas mutações.

Desta forma, os “media” tradicionais voltaram a merecer a atenção e “lealdade” do público, que deixou de informar-se através das redes sociais que são, tendencialmente, uma plataforma de desinformação,

considerou o jornalista Michel Ribeiro num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Perante a actual crise sanitária, recorda o autor, o jornalismo televisivo conquistou uma audiência significativa e os jornais “online” registaram um tráfego sem precedentes. Da mesma forma, mais consumidores decidiram assinar fontes de informação fidedignas e ouvir rádio para se manterem informados.

O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas