Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
Opinião

Vamos pagar jornais que ninguém quer ler?

por Rui Ramos

Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa?

Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave: uma grande parte da comunicação social portuguesa é cada vez menos vista, ouvida ou lida. Por isso, quando o Presidente da República, esta semana, sugeriu que talvez o Estado pudesse “intervir” para ajudar a imprensa, deveria talvez ter sido mais preciso sobre o modo como essa ajuda se deve fazer:

porque, por exemplo, pôr os contribuintes a pagar a comunicação social através da Autoridade Tributária não é a mesma coisa que tornar essa comunicação social mais relevante. Pode até ter o efeito contrário.

O Presidente da República sabe isso, como aliás deu a entender ao mencionar a memória dos mais “velhinhos”. Mas não é preciso ser muito “velhinho”. Há trinta anos, quem acendesse a televisão, só via a televisão do Estado, quem ligasse a rádio, quase só ouvia antenas do Estado, e quem passasse pelo quiosque, tinha sobretudo títulos do Estado para ler. A experiência da “comunicação social estatizada”, depois de 1974, foi um dos maiores dramas da história da imprensa portuguesa. Durante anos, os governos mudaram directores, escolheram jornalistas, decidiram subsídios. O resultado foi, no caso da imprensa escrita, o descrédito e a morte de alguns dos mais importantes jornais portugueses. O Século, por exemplo, que passara por muitos regimes e muitas crises sempre como o maior diário nacional, desapareceu, sem audiência, à mercê de uma direcção-geral qualquer. Na comunicação social, o Estado mata tudo o que ama.

Porquê? Em primeiro lugar, porque há, na ideia de uma imprensa estatizada ou ajudada pelo Estado, uma contradição que não há noutros casos. A comunicação social, para ser relevante, precisa de independência. Mas nunca parecerá independente, por mais voltas que dê, se depender precisamente da entidade que, em qualquer sociedade, mais se queixa da imprensa: o governo.

Perguntarão: não seria possível criar mecanismos para impedir a interferência directa dos ministros nos órgãos de comunicação sob assistência? Talvez, mas o problema é que haveria sempre a “ajuda” em si (fosse qual fosse a sua modalidade), que os governos poderiam racionar, redistribuir ou ameaçar extinguir como forma de pressão. Uma imprensa forçada a passar constantemente debaixo das forcas caudinas nunca estaria à vontade.

Mas mesmo que por milagre resolvêssemos essa dificuldade, restava ainda outra. Na imprensa portuguesa, como na imprensa de outras partes do mundo, há dificuldades, mas há também sucessos. O que quer dizer que é possível viabilizar televisões, rádios ou jornais. Durante algum tempo, julgou-se que a questão era tecnológica, e que bastaria migrar para a internet. Não basta. É preciso desenvolver novas relações com clientes e com leitores, que levem uns e outros a identificar-se com as marcas e a contribuir para a sua viabilidade. Foi, por exemplo, o que o Guardian conseguiu. É verdade que não há certezas a esse respeito. Mas há uma maneira infalível de garantir que a imprensa nunca descobrirá o que fazer: é passar a ser financiada ou protegida pelo Estado, retirando-lhe motivos para mudar e melhorar. Empresas de comunicação social encostadas ao poder não seriam só pouco inovadoras, mas tenderiam a limitar em geral a inovação no sector, ao atulhar o mercado e retirar espaço a novos concorrentes. Televisões que ninguém vê, rádios que ninguém ouve, jornais que ninguém lê, mas todos pagos pelo Estado: expliquem-me como é que isso salvaria a democracia.

 

(Publicado originalmente no jornal electrónico “Observador”)

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Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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