Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
Opinião

O Estado e os “media”: cuidado com as perversidades

por Francisco Sarsfield Cabral

Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime.

A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais gente se informar, não através dos “media” tradicionais (televisão, rádio, jornais), mas nas redes sociais. Aí as notícias e os comentários são frequentemente anónimos e não estão sujeitos às regras deontológicas dos jornalistas nem sequer às leis civis gerais (de difamação, por exemplo). E como a tendência aponta para que cada pessoa apenas consulte a rede social que lhe agrada, o debate público fica seriamente diminuído, afectando a qualidade da democracia – onde ela existe.

Esta evolução já levou ao encerramento de inúmeros jornais e outros “media” e à diminuição drástica do número de jornalistas nas redações, o que naturalmente limita a capacidade desses meios de comunicação para investigarem a verdade e para fazerem reportagens caras.

Como já tenho dito, o “Washington Post” (comprado em 2013 por Jeff Bezos, fundador da Amazon, mas mantendo uma apreciável independência editorial, na crítica a Trump nomeadamente) nos dias de hoje já não teria capacidade para fazer aquilo que fez em 1974: levar à saída de Nixon da Casa Branca, por causa do escândalo do Watergate, que o jornal investigou durante meses. 

Praticamente todos os “media” agora têm “sites” na net. Alguns jornais, como o britânico “Independent,” desistiram da edição em papel, passando a publicar-se apenas na net. Em Portugal, o centenário “Diário de Notícias” só publica em papel a edição de domingo. Outros jornais nascem na net e alguns conseguem sobreviver. É o caso, entre nós, do “Observador”. O problema é que o volume de publicidade canalizado para jornais eletrónicos é muito inferior ao que era antes dirigido a jornais em papel. Por outro lado, há grandes hesitações quanto aos conteúdos em jornais eletrónicos que devem ser de acesso gratuito e aqueles que devem ser pagos.

Vários jornais, como o “New York Times” e o “Guardian”, apelam aos seus leitores para que assinem as suas edições eletrónicas, uma forma de os ajudarem financeiramente a sobreviver. Mas a eficácia desse apelo tem limites. No fundo, ninguém sabe – em Portugal e no mundo – como ultrapassar a crise da comunicação social.

O Presidente Marcelo falou numa “intervenção transversal, a nível parlamentar, que correspondesse a um acordo de regime”, para aliviar o estrangulamento financeiro da comunicação social. Na sequência das palavras do Presidente, a professora da Universidade do Minho, Felisbela Lopes, apontou, no “Jornal de Notícias”, alguns benefícios fiscais e outras medidas da parte do Estado.

Só que me parece perigoso para a independência do jornalismo meter os políticos no sector. Desde logo, na escolha de quem e em que medida seria beneficiário de isenções ou reduções fiscais. Todos os “media”, incluindo jornais regionais e locais? A própria Felisbela Lopes refere que muitos “media” regionais “estão hoje dependentes das vontades políticas do poder local e isso gera naturalmente algumas perversidades”.

Ora, a nível local ou nacional, parece-me extremamente difícil evitar “perversidades” quando o Estado intervém. Tivemos essa experiência em Portugal. Não gostaria de a ver repetida.

 

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Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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