Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Opinião

O Estado e os “media”: cuidado com as perversidades

por Francisco Sarsfield Cabral

Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime.

A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais gente se informar, não através dos “media” tradicionais (televisão, rádio, jornais), mas nas redes sociais. Aí as notícias e os comentários são frequentemente anónimos e não estão sujeitos às regras deontológicas dos jornalistas nem sequer às leis civis gerais (de difamação, por exemplo). E como a tendência aponta para que cada pessoa apenas consulte a rede social que lhe agrada, o debate público fica seriamente diminuído, afectando a qualidade da democracia – onde ela existe.

Esta evolução já levou ao encerramento de inúmeros jornais e outros “media” e à diminuição drástica do número de jornalistas nas redações, o que naturalmente limita a capacidade desses meios de comunicação para investigarem a verdade e para fazerem reportagens caras.

Como já tenho dito, o “Washington Post” (comprado em 2013 por Jeff Bezos, fundador da Amazon, mas mantendo uma apreciável independência editorial, na crítica a Trump nomeadamente) nos dias de hoje já não teria capacidade para fazer aquilo que fez em 1974: levar à saída de Nixon da Casa Branca, por causa do escândalo do Watergate, que o jornal investigou durante meses. 

Praticamente todos os “media” agora têm “sites” na net. Alguns jornais, como o britânico “Independent,” desistiram da edição em papel, passando a publicar-se apenas na net. Em Portugal, o centenário “Diário de Notícias” só publica em papel a edição de domingo. Outros jornais nascem na net e alguns conseguem sobreviver. É o caso, entre nós, do “Observador”. O problema é que o volume de publicidade canalizado para jornais eletrónicos é muito inferior ao que era antes dirigido a jornais em papel. Por outro lado, há grandes hesitações quanto aos conteúdos em jornais eletrónicos que devem ser de acesso gratuito e aqueles que devem ser pagos.

Vários jornais, como o “New York Times” e o “Guardian”, apelam aos seus leitores para que assinem as suas edições eletrónicas, uma forma de os ajudarem financeiramente a sobreviver. Mas a eficácia desse apelo tem limites. No fundo, ninguém sabe – em Portugal e no mundo – como ultrapassar a crise da comunicação social.

O Presidente Marcelo falou numa “intervenção transversal, a nível parlamentar, que correspondesse a um acordo de regime”, para aliviar o estrangulamento financeiro da comunicação social. Na sequência das palavras do Presidente, a professora da Universidade do Minho, Felisbela Lopes, apontou, no “Jornal de Notícias”, alguns benefícios fiscais e outras medidas da parte do Estado.

Só que me parece perigoso para a independência do jornalismo meter os políticos no sector. Desde logo, na escolha de quem e em que medida seria beneficiário de isenções ou reduções fiscais. Todos os “media”, incluindo jornais regionais e locais? A própria Felisbela Lopes refere que muitos “media” regionais “estão hoje dependentes das vontades políticas do poder local e isso gera naturalmente algumas perversidades”.

Ora, a nível local ou nacional, parece-me extremamente difícil evitar “perversidades” quando o Estado intervém. Tivemos essa experiência em Portugal. Não gostaria de a ver repetida.

 

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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