Quarta-feira, 24 de Abril, 2019
Opinião

O Estado e os “media”: cuidado com as perversidades

por Francisco Sarsfield Cabral

Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime.

A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais gente se informar, não através dos “media” tradicionais (televisão, rádio, jornais), mas nas redes sociais. Aí as notícias e os comentários são frequentemente anónimos e não estão sujeitos às regras deontológicas dos jornalistas nem sequer às leis civis gerais (de difamação, por exemplo). E como a tendência aponta para que cada pessoa apenas consulte a rede social que lhe agrada, o debate público fica seriamente diminuído, afectando a qualidade da democracia – onde ela existe.

Esta evolução já levou ao encerramento de inúmeros jornais e outros “media” e à diminuição drástica do número de jornalistas nas redações, o que naturalmente limita a capacidade desses meios de comunicação para investigarem a verdade e para fazerem reportagens caras.

Como já tenho dito, o “Washington Post” (comprado em 2013 por Jeff Bezos, fundador da Amazon, mas mantendo uma apreciável independência editorial, na crítica a Trump nomeadamente) nos dias de hoje já não teria capacidade para fazer aquilo que fez em 1974: levar à saída de Nixon da Casa Branca, por causa do escândalo do Watergate, que o jornal investigou durante meses. 

Praticamente todos os “media” agora têm “sites” na net. Alguns jornais, como o britânico “Independent,” desistiram da edição em papel, passando a publicar-se apenas na net. Em Portugal, o centenário “Diário de Notícias” só publica em papel a edição de domingo. Outros jornais nascem na net e alguns conseguem sobreviver. É o caso, entre nós, do “Observador”. O problema é que o volume de publicidade canalizado para jornais eletrónicos é muito inferior ao que era antes dirigido a jornais em papel. Por outro lado, há grandes hesitações quanto aos conteúdos em jornais eletrónicos que devem ser de acesso gratuito e aqueles que devem ser pagos.

Vários jornais, como o “New York Times” e o “Guardian”, apelam aos seus leitores para que assinem as suas edições eletrónicas, uma forma de os ajudarem financeiramente a sobreviver. Mas a eficácia desse apelo tem limites. No fundo, ninguém sabe – em Portugal e no mundo – como ultrapassar a crise da comunicação social.

O Presidente Marcelo falou numa “intervenção transversal, a nível parlamentar, que correspondesse a um acordo de regime”, para aliviar o estrangulamento financeiro da comunicação social. Na sequência das palavras do Presidente, a professora da Universidade do Minho, Felisbela Lopes, apontou, no “Jornal de Notícias”, alguns benefícios fiscais e outras medidas da parte do Estado.

Só que me parece perigoso para a independência do jornalismo meter os políticos no sector. Desde logo, na escolha de quem e em que medida seria beneficiário de isenções ou reduções fiscais. Todos os “media”, incluindo jornais regionais e locais? A própria Felisbela Lopes refere que muitos “media” regionais “estão hoje dependentes das vontades políticas do poder local e isso gera naturalmente algumas perversidades”.

Ora, a nível local ou nacional, parece-me extremamente difícil evitar “perversidades” quando o Estado intervém. Tivemos essa experiência em Portugal. Não gostaria de a ver repetida.

 

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Os sete elementos decisivos para os leitores confiarem nos Media Ver galeria

Sete elementos fundamentais foram identificados como decisivos na confiança que os leitores depositam num meio de comunicação  - e os três primeiros, votados a grande distância de todos os outros, são o equilíbrio, a honestidade e a profundidade de tratamento dos temas.

Esta recolha foi elaborada a partir de um inquérito realizado por vários media associados à TrustingNews.org, na forma de 81 entrevistas pessoais com leitores escolhidos como representantes de diversos pontos de vista.

Rob Jones, um estudante na Escola de Jornalismo do Missouri, pesquisou os temas mais presentes em todas as respostas e organizou-os no estudo agora divulgado pelo Instituto Reynolds de Jornalismo. A informação é publicada na Red Ética, da FNPI – Fundación para el Nuevo Periodismo Iberoamericano.
Quando o jornalismo procura o passado para ler o futuro Ver galeria

O futuro que foi imaginado pela literatura do passado nem sempre coincide com o que vemos hoje. Tanto pelo seu lado mais luminoso, como pelo mais sombrio, podemos reencontrar “imagens das histórias utópicas ou distópicas já contadas”.
Mas, “em tempos de esperança reduzida, em que pouco se vê além da poeira levantada pela vida agitada deste momento, as distopias têm voltado a ser mais lembradas”.

É esta a reflexão inicial de Vanessa Pedro, docente de jornalismo e pesquisadora do ObjEthos, num artigo sobre este gosto presente pelos zombies, “as histórias dos mortos-vivos, que nem se vão nos deixando em paz e nem voltam mesmo à vida como um milagre que poderia trazer esperanças de renovação”.

Neste tipo de leitura  - como acrescenta -  “o passado acaba sendo um ideal mais interessante e feliz do que o futuro”:

“E aí vemos diversos agendamentos, inclusive como pauta do Jornalismo e da sociedade de forma geral. O período da ditadura militar brasileira passa a ser idolatrado, defendido e desejado, quase festejado. (...)  Até as décadas que antecedem e sucedem a Segunda Guerra Mundial entraram na disputa, têm sido citadas, defendidas, atacadas, recontadas para serem usadas como narrativas de um mundo ideal, ou ideal para ser repelido.” (...)

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

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Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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