Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Estudo

Síndrome dos "brinquedos novos" afecta jornalismo de qualidade

O jornalismo tornou-se obcecado pela inovação tecnológica e devia voltar a concentrar-se sobre a adesão da sua audiência, a escrita dos seus temas e o desenvolvimento do seu modelo de negócio. Agora sofre de uma espécie de “síndrome dos brinquedos novos”, mais interessado pelos desafios da distribuição do que pela qualidade dos conteúdos, arriscando-se a deixar os editores dependentes de plataformas tecnológicas, como o Facebook.

São estas as principais conclusões de um novo estudo realizado pelo Instituto Reuters e baseado sobre os depoimentos de 39 profissionais, incluindo grandes editores internacionais, CEO’s de empresas de media, especialistas de várias áreas de inovação e consultores de meios digitais, provenientes de 17 países.

O trabalho de campo foi feito em duas mesas-redondas separadas, organizadas no contexto de duas grandes conferências realizadas em Lisboa  - a Cimeira da Global Editors’ Network e o World News Publishing Congress, em Maio e Junho de 2018.

A autora do relatório, a investigadora Julie Posetti, estudou os desafios e os obstáculos da inovação no jornalismo, como estão a ser enfrentados, tanto pelos meios de comunicação tradicionais, como pelos “nativos digitais”. A sua observação é que os grandes meios tradicionais, de alcance global, sentem agora a necessidade de “abrandar”, e pensar de um modo mais estratégico  - o que não é tão fácil para os “nativos digitais” de menor dimensão, estes mais dependentes da inovação. 

Segundo o relatório, vários dos participantes argumentaram que a inovação está a distrair o jornalismo dos seus objectivos de fundo. 

“A 'síndrome dos brinquedos novos' desvia-nos da narrativa, e corremos o risco de esquecer aquilo que somos; esse é o maior desafio”  - afirmou Kim Bui, jornalista do diário The Arizona Republic

Outra participante, Maria Ressa, directora do Rappler.com, das Filipinas, advertiu sobre o risco de uma excessiva dependência das plataformas: 

“O motivo pelo qual o oxigénio foi sugado das nossas empresas é porque foi todo para a distribuição, e nada para o conteúdo. De que modo vamos redefinir isto, de modo a que as plataformas não nos devorem vivos?” 

Julie Posetti comenta ainda que alguns dos mais proeminentes líderes digitais estão a despertar para a consciência das “consequências indesejadas” da inovação tecnológica sobre o jornalismo  -  entre elas os ataques online visando as mulheres jornalistas, a desinformação “viral” e os riscos de segurança que colocam, aos jornalistas e às suas fontes, as brechas de privacidade incluídas na tecnologia digital.

 

O artigo aqui citado, no European Journalism Observatory, e o relatório do Reuters Institute, em PDF. Mais informação no NiemanLab

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

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Opinião
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