null, 26 de Maio, 2019
Estudo

Síndrome dos "brinquedos novos" afecta jornalismo de qualidade

O jornalismo tornou-se obcecado pela inovação tecnológica e devia voltar a concentrar-se sobre a adesão da sua audiência, a escrita dos seus temas e o desenvolvimento do seu modelo de negócio. Agora sofre de uma espécie de “síndrome dos brinquedos novos”, mais interessado pelos desafios da distribuição do que pela qualidade dos conteúdos, arriscando-se a deixar os editores dependentes de plataformas tecnológicas, como o Facebook.

São estas as principais conclusões de um novo estudo realizado pelo Instituto Reuters e baseado sobre os depoimentos de 39 profissionais, incluindo grandes editores internacionais, CEO’s de empresas de media, especialistas de várias áreas de inovação e consultores de meios digitais, provenientes de 17 países.

O trabalho de campo foi feito em duas mesas-redondas separadas, organizadas no contexto de duas grandes conferências realizadas em Lisboa  - a Cimeira da Global Editors’ Network e o World News Publishing Congress, em Maio e Junho de 2018.

A autora do relatório, a investigadora Julie Posetti, estudou os desafios e os obstáculos da inovação no jornalismo, como estão a ser enfrentados, tanto pelos meios de comunicação tradicionais, como pelos “nativos digitais”. A sua observação é que os grandes meios tradicionais, de alcance global, sentem agora a necessidade de “abrandar”, e pensar de um modo mais estratégico  - o que não é tão fácil para os “nativos digitais” de menor dimensão, estes mais dependentes da inovação. 

Segundo o relatório, vários dos participantes argumentaram que a inovação está a distrair o jornalismo dos seus objectivos de fundo. 

“A 'síndrome dos brinquedos novos' desvia-nos da narrativa, e corremos o risco de esquecer aquilo que somos; esse é o maior desafio”  - afirmou Kim Bui, jornalista do diário The Arizona Republic

Outra participante, Maria Ressa, directora do Rappler.com, das Filipinas, advertiu sobre o risco de uma excessiva dependência das plataformas: 

“O motivo pelo qual o oxigénio foi sugado das nossas empresas é porque foi todo para a distribuição, e nada para o conteúdo. De que modo vamos redefinir isto, de modo a que as plataformas não nos devorem vivos?” 

Julie Posetti comenta ainda que alguns dos mais proeminentes líderes digitais estão a despertar para a consciência das “consequências indesejadas” da inovação tecnológica sobre o jornalismo  -  entre elas os ataques online visando as mulheres jornalistas, a desinformação “viral” e os riscos de segurança que colocam, aos jornalistas e às suas fontes, as brechas de privacidade incluídas na tecnologia digital.

 

O artigo aqui citado, no European Journalism Observatory, e o relatório do Reuters Institute, em PDF. Mais informação no NiemanLab

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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