Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Fórum

Nova palavra do ano passa a ser “desinformação” - não intencional...

“Desinformação” (misinformation) é a palavra do ano, prosseguindo uma evolução que coloca a questão da verdade  - divulgada ou traída -  no centro dos problemas da comunicação digital. Em 2016, o Dicionário de Oxford tinha escolhido post-truth, a “pós-verdade”. No ano seguinte, o Dicionário Collins votou em fake-news, habitualmente traduzida por “notícias falsas”  - mas significando, de facto, notícias “fictícias”. Agora, o Dictionary.com, um dicionário online fundado em Maio de 1995, escolheu misinformation  - aqui traduzida por “desinformação” à falta de melhor, mas com uma nuance proposta pelos autores:

Assim, misinformation é uma informação falsa mas não intencional, partilhada por pessoas que acreditam no seu conteúdo, enquanto disinformation é intencionalmente enganosa. A notícia é de Daniel Funke, investigador de fact-checking no Poynter Institute.

 “A explosão recente de desinformação e o vocabulário crescente de que nos servimos para a compreender aparecem cada vez mais no trabalho nos nossos lexicógrafos”  - afirma Jane Solomon, linguista no Dictionary.com. “Nos últimos anos temos estado a definir palavras e a actualizar termos relacionados com a evolução do entendimento de desinformação.” (...) 

A empresa cita vários acontecimentos que contribuíram para a escolha de “desinformação” como palavra do ano. Entre eles figuram o continuado papel desempenhado pelo Facebook na divulgação de notícias enganosas, o crescimento da teoria de conspiração QAnon, os boatos espalhados pelo WhatsApp que levaram a motins violentos na Índia e a desinformação generalizada durante as eleições brasileiras. 

O texto desenvolvido no site de Dictionary.com procura esclarecer a diferença entre o sentido das duas palavras, na língua inglesa: 

O termo disinformation designa uma “informação deliberadamente enganosa ou tendenciosa, uma narrativa ou factos manipulados, e propaganda”. Assim, a diferença entre os dois termos tem a ver com a intenção.

“Quando as pessoas espalham misinformation, frequentemente acreditam na informação que estão a partilhar. Por contraste, a disinformation é espalhada com a intenção de enganar os outros. (...) Tudo depende de quem faz a partilha, e por que motivo.”

Para complicar as coisas, “se um político espalha estrategicamente informação que sabe ser falsa, na forma de artigos, fotos, ou outra, isso é disinformation. Mas quando um indivíduo a encontra, acredita nela e a partilha, está a fazer misinformation.” (...)

O texto que citamos, de Dictionary.com, recorda ainda que os que se dedicam a combater a desinformação expõem-se a ser atacados online:

Claire Ward, co-fundadora e directora do site de combate à desinformação First Dratf, contou à Columbia Journalism Review que os jornalistas que aí trabalham não assinam os seus tabalhos, por causa da ameaça de agressão online. “De cada vez que uma pessoa tenta dizer  - ‘Isto não é verdade!’ -  arranja uma quantidade de inimigos.” [haters, no original]

“Num mundo cheio de desinformação, é fácil recusar os factos que não confirmam os nossos próprios pontos de vista.”

 

O artigo original, no poynter.org, e a exposição em dictionary.com, que abre com um vídeo explicativo

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


ver mais >
Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...