Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
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A luta contra a mentira digital e o "poço de lixo" dos comentários

A luta contra as notícias falsas é desigual: os verificadores não têm os mesmos meios dos mentirosos, embora entre estes também haja amadores. Mas é cada vez mais claro que os verdadeiros “patrões” da mentira digital são partidos políticos ou, ainda pior, Estados. É David contra Golias.

Curiosamente, os países mais “importantes” são os que mais sofrem das fake news  - talvez porque é neles que há mais para ganhar (ou perder). “Por outro lado, estes países são também os líderes na intoxicação  - dizem alguns que tendo a Rússia à cabeça, embora aquele que tem no poder um Presidente que lá chegou graças às mentiras sejam os Estados Unidos. Ainda não sabemos que papel teve nisso a Rússia, mas parece que a estratégia funcionou.” A reflexão é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, em Media-tics.

“Cortamos uma e aparece outra”  -  é a frase, citada em The New York Times, por um funcionário da Rappler, uma empresa filipina encarregada de eliminar as notícias falsas do Facebook no seu país. Traduz bem, como na história da hidra de sete cabeças, “a impotência deste novo emprego destinado a manter a verdade na Net”. (...) 

Segundo o autor do artigo que citamos, a rede social de Mark Zuckerberg tornou-se o epicentro da mentira digital. 

“A chegada de Trump à Casa Branca foi vivida em paralelo com o triunfo do Brexit nas urnas. Em ambos os casos, crê-se que a mentira desempenhou um papel essencial na hora de inclinar a balança dos votantes, que foram supostamente manipulados, sobretudo pelas redes sociais. Não são casos únicos, mas são paradigmáticos e os que forçaram o Facebook a reagir.” 

Uma dessas respostas foi a criação da Rappler, fundada nas Filipinas por Maria Ressa, ex-directora da CNN em Manila e Jakarta, na Indonésia  - portanto boa conhecedora do Sudeste Asiático. 

“Fundou-a em 2012 como um meio de comunicação centrado no entretenimento e investigação, e com o objectivo de que os mais indefesos no mundo tivessem uma voz. A realidade é que teve de se focar na limpeza das redes: o Facebook contratou a Rappler para limpar de notícias falsas as paredes dos filipinos, entre os quais 97% dos que têm acesso à Internet utlilizam aquela rede social.” 

Em Maio de 2016 foram detectadas contas falsas que divulgavam conteúdos favoráveis a Rodrigo Duterte, que ganhou as eleições presidenciais em Junho do mesmo ano. A Rappler ainda não trabalhava para o Facebook em 2016, mas a observação do que tinha acontecido nas Filipinas levou Maria Ressa e encontrar-se em Singapura, em Agosto do mesmo ano, com os executivos regionais da mesma rede. 

“Se não resolvem isto”  - advertiu -  “vão ter problemas nas próximas eleições de Novembro, nos Estados Unidos.” O resto é história, e Trump mora na Avenida da Pensilvânia. 

Talvez esta advertência tenha levado o Facebook a confiar nela na hora de implementar medidas contra as notícias falsas. Em Dezembro desse mesmo ano, a rede social eliminava uma quantidade de perfis falsos que a Rappler tinha identificado e denunciado à empresa. 

“Estamos a limpar o desastre do Facebook”  - reconhece uma funcionária, acrescentando que se trata de uma tarefa “frustrante”. Os profissionais da Rappler queixam-se de que a rede social não oferece a suficiente transparência de que precisam para levar a cabo a tarefa, a que se soma o facto de a tecnologia que está a desenvolver ainda não se encontra disponível (como a que permite verificar também o texto que aparece inscrito nas fotos e nos vídeos, geralmente usado para desinformar evitando a detecção).” 

"A isto acrescentam-se as ameaças de morte e de violação que garantem ter recebido. A Rappler chegou a avaliar a possibilidade de substituir as janelas por vidros à prova de bala e duplicou o seu pessoal de segurança." (...)

E os comentários?

 

No espaço da desinformação figuram também determinados conteúdos que não podem classificar-se como notícias, mas encaixam noutro género do jornalismo: a opinião. São os comentários a seguir às notícias, que os meios digitais usam para criar adesão e não serem acusados de censura da opinião dos utentes. 

“O problema é que as secções de comentário acabaram por se tornar poços de lixo sobre os quais flutua a bandeira da liberdade de expressão. São as bancas dos trolls, tanto dos que se dedicam a contaminar por pura diversão, como dos que o fazem recebendo remuneração e directrizes dos seus patrões  - que podem ser Estados, recorde-se.” 

Um relance pela secção de comentários de qualquer jornal dá uma ideia do que prolifera neste espaço. Negativismo, ódio e radicalização talvez sejam naturais ao ser humano e, como explica Zizi Papacharissi, docente de Comunicação na Universidade de Illinois-Chicago, a Internet torna-se “uma saída fácil para gritar e fazer-nos sentir satisfeitos por um momento”. Escrever um comentário pode ser uma forma de “descarregar frustração diante de realidades que nos inquietam”. 

“O problema está em que estes comentários dependem, ou de media que não dispõem dos recursos necessários para fazerem a sua correcta moderação, ou ficam nas mãos de gigantes como Facebook ou Disqus, que fizeram da liberdade de expressão um mantra sem excepções.” 

“É uma fissura que sabem explorar os mentirosos, já que muitos destes comentários são pura mentira, muitas vezes acrescidos de links encarregados de inocular o vírus das notícias falsas mesmo nos meios de comunicação mais sérios e fiáveis que possamos imaginar.” 

 

O artigo original aqui citado, em Media-tics

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Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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