Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Fórum

A luta contra a mentira digital e o "poço de lixo" dos comentários

A luta contra as notícias falsas é desigual: os verificadores não têm os mesmos meios dos mentirosos, embora entre estes também haja amadores. Mas é cada vez mais claro que os verdadeiros “patrões” da mentira digital são partidos políticos ou, ainda pior, Estados. É David contra Golias.

Curiosamente, os países mais “importantes” são os que mais sofrem das fake news  - talvez porque é neles que há mais para ganhar (ou perder). “Por outro lado, estes países são também os líderes na intoxicação  - dizem alguns que tendo a Rússia à cabeça, embora aquele que tem no poder um Presidente que lá chegou graças às mentiras sejam os Estados Unidos. Ainda não sabemos que papel teve nisso a Rússia, mas parece que a estratégia funcionou.” A reflexão é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, em Media-tics.

“Cortamos uma e aparece outra”  -  é a frase, citada em The New York Times, por um funcionário da Rappler, uma empresa filipina encarregada de eliminar as notícias falsas do Facebook no seu país. Traduz bem, como na história da hidra de sete cabeças, “a impotência deste novo emprego destinado a manter a verdade na Net”. (...) 

Segundo o autor do artigo que citamos, a rede social de Mark Zuckerberg tornou-se o epicentro da mentira digital. 

“A chegada de Trump à Casa Branca foi vivida em paralelo com o triunfo do Brexit nas urnas. Em ambos os casos, crê-se que a mentira desempenhou um papel essencial na hora de inclinar a balança dos votantes, que foram supostamente manipulados, sobretudo pelas redes sociais. Não são casos únicos, mas são paradigmáticos e os que forçaram o Facebook a reagir.” 

Uma dessas respostas foi a criação da Rappler, fundada nas Filipinas por Maria Ressa, ex-directora da CNN em Manila e Jakarta, na Indonésia  - portanto boa conhecedora do Sudeste Asiático. 

“Fundou-a em 2012 como um meio de comunicação centrado no entretenimento e investigação, e com o objectivo de que os mais indefesos no mundo tivessem uma voz. A realidade é que teve de se focar na limpeza das redes: o Facebook contratou a Rappler para limpar de notícias falsas as paredes dos filipinos, entre os quais 97% dos que têm acesso à Internet utlilizam aquela rede social.” 

Em Maio de 2016 foram detectadas contas falsas que divulgavam conteúdos favoráveis a Rodrigo Duterte, que ganhou as eleições presidenciais em Junho do mesmo ano. A Rappler ainda não trabalhava para o Facebook em 2016, mas a observação do que tinha acontecido nas Filipinas levou Maria Ressa e encontrar-se em Singapura, em Agosto do mesmo ano, com os executivos regionais da mesma rede. 

“Se não resolvem isto”  - advertiu -  “vão ter problemas nas próximas eleições de Novembro, nos Estados Unidos.” O resto é história, e Trump mora na Avenida da Pensilvânia. 

Talvez esta advertência tenha levado o Facebook a confiar nela na hora de implementar medidas contra as notícias falsas. Em Dezembro desse mesmo ano, a rede social eliminava uma quantidade de perfis falsos que a Rappler tinha identificado e denunciado à empresa. 

“Estamos a limpar o desastre do Facebook”  - reconhece uma funcionária, acrescentando que se trata de uma tarefa “frustrante”. Os profissionais da Rappler queixam-se de que a rede social não oferece a suficiente transparência de que precisam para levar a cabo a tarefa, a que se soma o facto de a tecnologia que está a desenvolver ainda não se encontra disponível (como a que permite verificar também o texto que aparece inscrito nas fotos e nos vídeos, geralmente usado para desinformar evitando a detecção).” 

"A isto acrescentam-se as ameaças de morte e de violação que garantem ter recebido. A Rappler chegou a avaliar a possibilidade de substituir as janelas por vidros à prova de bala e duplicou o seu pessoal de segurança." (...)

E os comentários?

 

No espaço da desinformação figuram também determinados conteúdos que não podem classificar-se como notícias, mas encaixam noutro género do jornalismo: a opinião. São os comentários a seguir às notícias, que os meios digitais usam para criar adesão e não serem acusados de censura da opinião dos utentes. 

“O problema é que as secções de comentário acabaram por se tornar poços de lixo sobre os quais flutua a bandeira da liberdade de expressão. São as bancas dos trolls, tanto dos que se dedicam a contaminar por pura diversão, como dos que o fazem recebendo remuneração e directrizes dos seus patrões  - que podem ser Estados, recorde-se.” 

Um relance pela secção de comentários de qualquer jornal dá uma ideia do que prolifera neste espaço. Negativismo, ódio e radicalização talvez sejam naturais ao ser humano e, como explica Zizi Papacharissi, docente de Comunicação na Universidade de Illinois-Chicago, a Internet torna-se “uma saída fácil para gritar e fazer-nos sentir satisfeitos por um momento”. Escrever um comentário pode ser uma forma de “descarregar frustração diante de realidades que nos inquietam”. 

“O problema está em que estes comentários dependem, ou de media que não dispõem dos recursos necessários para fazerem a sua correcta moderação, ou ficam nas mãos de gigantes como Facebook ou Disqus, que fizeram da liberdade de expressão um mantra sem excepções.” 

“É uma fissura que sabem explorar os mentirosos, já que muitos destes comentários são pura mentira, muitas vezes acrescidos de links encarregados de inocular o vírus das notícias falsas mesmo nos meios de comunicação mais sérios e fiáveis que possamos imaginar.” 

 

O artigo original aqui citado, em Media-tics

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


ver mais >
Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...