null, 26 de Maio, 2019
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A luta contra a mentira digital e o "poço de lixo" dos comentários

A luta contra as notícias falsas é desigual: os verificadores não têm os mesmos meios dos mentirosos, embora entre estes também haja amadores. Mas é cada vez mais claro que os verdadeiros “patrões” da mentira digital são partidos políticos ou, ainda pior, Estados. É David contra Golias.

Curiosamente, os países mais “importantes” são os que mais sofrem das fake news  - talvez porque é neles que há mais para ganhar (ou perder). “Por outro lado, estes países são também os líderes na intoxicação  - dizem alguns que tendo a Rússia à cabeça, embora aquele que tem no poder um Presidente que lá chegou graças às mentiras sejam os Estados Unidos. Ainda não sabemos que papel teve nisso a Rússia, mas parece que a estratégia funcionou.” A reflexão é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, em Media-tics.

“Cortamos uma e aparece outra”  -  é a frase, citada em The New York Times, por um funcionário da Rappler, uma empresa filipina encarregada de eliminar as notícias falsas do Facebook no seu país. Traduz bem, como na história da hidra de sete cabeças, “a impotência deste novo emprego destinado a manter a verdade na Net”. (...) 

Segundo o autor do artigo que citamos, a rede social de Mark Zuckerberg tornou-se o epicentro da mentira digital. 

“A chegada de Trump à Casa Branca foi vivida em paralelo com o triunfo do Brexit nas urnas. Em ambos os casos, crê-se que a mentira desempenhou um papel essencial na hora de inclinar a balança dos votantes, que foram supostamente manipulados, sobretudo pelas redes sociais. Não são casos únicos, mas são paradigmáticos e os que forçaram o Facebook a reagir.” 

Uma dessas respostas foi a criação da Rappler, fundada nas Filipinas por Maria Ressa, ex-directora da CNN em Manila e Jakarta, na Indonésia  - portanto boa conhecedora do Sudeste Asiático. 

“Fundou-a em 2012 como um meio de comunicação centrado no entretenimento e investigação, e com o objectivo de que os mais indefesos no mundo tivessem uma voz. A realidade é que teve de se focar na limpeza das redes: o Facebook contratou a Rappler para limpar de notícias falsas as paredes dos filipinos, entre os quais 97% dos que têm acesso à Internet utlilizam aquela rede social.” 

Em Maio de 2016 foram detectadas contas falsas que divulgavam conteúdos favoráveis a Rodrigo Duterte, que ganhou as eleições presidenciais em Junho do mesmo ano. A Rappler ainda não trabalhava para o Facebook em 2016, mas a observação do que tinha acontecido nas Filipinas levou Maria Ressa e encontrar-se em Singapura, em Agosto do mesmo ano, com os executivos regionais da mesma rede. 

“Se não resolvem isto”  - advertiu -  “vão ter problemas nas próximas eleições de Novembro, nos Estados Unidos.” O resto é história, e Trump mora na Avenida da Pensilvânia. 

Talvez esta advertência tenha levado o Facebook a confiar nela na hora de implementar medidas contra as notícias falsas. Em Dezembro desse mesmo ano, a rede social eliminava uma quantidade de perfis falsos que a Rappler tinha identificado e denunciado à empresa. 

“Estamos a limpar o desastre do Facebook”  - reconhece uma funcionária, acrescentando que se trata de uma tarefa “frustrante”. Os profissionais da Rappler queixam-se de que a rede social não oferece a suficiente transparência de que precisam para levar a cabo a tarefa, a que se soma o facto de a tecnologia que está a desenvolver ainda não se encontra disponível (como a que permite verificar também o texto que aparece inscrito nas fotos e nos vídeos, geralmente usado para desinformar evitando a detecção).” 

"A isto acrescentam-se as ameaças de morte e de violação que garantem ter recebido. A Rappler chegou a avaliar a possibilidade de substituir as janelas por vidros à prova de bala e duplicou o seu pessoal de segurança." (...)

E os comentários?

 

No espaço da desinformação figuram também determinados conteúdos que não podem classificar-se como notícias, mas encaixam noutro género do jornalismo: a opinião. São os comentários a seguir às notícias, que os meios digitais usam para criar adesão e não serem acusados de censura da opinião dos utentes. 

“O problema é que as secções de comentário acabaram por se tornar poços de lixo sobre os quais flutua a bandeira da liberdade de expressão. São as bancas dos trolls, tanto dos que se dedicam a contaminar por pura diversão, como dos que o fazem recebendo remuneração e directrizes dos seus patrões  - que podem ser Estados, recorde-se.” 

Um relance pela secção de comentários de qualquer jornal dá uma ideia do que prolifera neste espaço. Negativismo, ódio e radicalização talvez sejam naturais ao ser humano e, como explica Zizi Papacharissi, docente de Comunicação na Universidade de Illinois-Chicago, a Internet torna-se “uma saída fácil para gritar e fazer-nos sentir satisfeitos por um momento”. Escrever um comentário pode ser uma forma de “descarregar frustração diante de realidades que nos inquietam”. 

“O problema está em que estes comentários dependem, ou de media que não dispõem dos recursos necessários para fazerem a sua correcta moderação, ou ficam nas mãos de gigantes como Facebook ou Disqus, que fizeram da liberdade de expressão um mantra sem excepções.” 

“É uma fissura que sabem explorar os mentirosos, já que muitos destes comentários são pura mentira, muitas vezes acrescidos de links encarregados de inocular o vírus das notícias falsas mesmo nos meios de comunicação mais sérios e fiáveis que possamos imaginar.” 

 

O artigo original aqui citado, em Media-tics

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Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

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Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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