Segunda-feira, 19 de Agosto, 2019
Jantares-debate

Decálogo de Eduardo Marçal Grilo: "Os extremismos estão a tomar conta da Europa"

Falando sobre “os grandes desafios” que temos de enfrentar na próxima década, Eduardo Marçal Grilo advertiu que “os extremismos estão a tomar conta da Europa”:

“Julgo que é mais importante, para o futuro da Europa, a médio-longo prazo, o que se vai passar nas eleições de Maio do que nas de Outubro. Ou seja, são mais importantes as eleições europeias, a nível europeu, do que as legislativas aqui em Portugal.”

A reflexão de Marçal Grilo foi proferida no contexto do jantar-debate de 22 de Novembro, que inaugura o novo ciclo sob o título “Portugal: que País vai a votos?”  -  organizado pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

O orador, socorrendo-se de um decálogo de temas, sublinhou o risco “dos extremismos e do apagamento dos partidos moderados e reformistas”, acrescentando que “os extremismos trouxeram sempre às sociedades onde se implantaram problemas acrescidos, de confronto e de violência. E sobretudo transformando a política numa coisa que hoje se nota muito: é que já praticamente não há adversários: há inimigos.”

O nosso convidado introduziu a sua palestra afirmando que, “como português e como europeu, e olhando para os grandes desafios e as grandes questões que se nos colocam, eu antevejo que é na Europa, e no projecto da construção de uma Europa unida, que devem residir as nossas maiores esperanças, mas também as nossas maiores preocupações”.

 

Marçal Grilo identificou então uma sequência de “dez grandes desafios para a próxima década”, que apresentou pela seguinte ordem:

Procura da paz. “Este é um desafio a que todos temos de prestar enorme atenção e prioridade. A Europa vive há mais de 70 anos num clima de paz, mas não nos devemos esquecer que os Balcãs não tiveram essa paz, teve sobretudo o centro da Europa. (...) O mundo precisa seguramente de uma reforma das Nações Unidas, precisa que os Estados Unidos se clarifiquem, que esta América Trump, ou America First, se defina melhor, ou que nós a consigamos compreender um pouco melhor  - se é que o Presidente Trump é compreensível...  E a ideia que eu tenho é que, na procura da paz, a Europa tem que ser um conjunto coerente.”
“A Europa vai perdendo peso, quer do ponto de vista demográfico, quer da sua relevância económica, mas   perderá muito mais se a Europa se desunir, ou pior ainda, se desintegrar aquilo que se chama a União Europeia.” (...) 


O segundo desafio é o das migrações, que “são hoje uma constante, dividem os povos mais desfavorecidos deste mundo próspero em que nós vivemos, com duas grandes fronteiras, a do Mediterrâneo e a do México. E esta matéria tem sido um dos factores de maior desintegração em termos europeus. Nós portugueses, com esta enorme capacidade de acolhimento, que temos tido (mas também favorecidos pela situação geográfica), temos de continuar a perceber duas coisas”:

“Que não é possível resolver, nem enfrentar o problema das migrações, de todos aqueles que nos procuram, sem que haja uma estratégia comum, o que reforça a ideia de uma Europa unida e organizada. O segundo é o de que também não é possível combater as migrações (...) se não desenvolvermos as sociedades africanas. A Europa tem que ter uma contribuição significativa para o desenvolvimento dos países e das sociedades africanas, e só fazendo crescer estas economias nós podemos, em certa medida, travar este fluxo migratório que vem para a costa europeia do Mediterrâneo.”

O terceiro é o da digitalização das economias e da vida das sociedades modernas. Sobre este tema, Marçal Grilo chamou a atenção para o facto de que a chamada “sociedade 4.0” levanta problemas sérios sobre “a formação de uma mão-de-obra qualificada e preparada para enfrentar os novos desafios, os apoios a todos os que se vêem numa situação de desemprego forçado, o diálogo entre governo, empresas e sindicatos como forma de ir ao encontro de soluções para esta forma de mudança estrutural e, finalmente, a adopção de políticas sociais que protejam os mais desfavorecidos e excluídos”. (...) Lembrou ainda que “Portugal tem um tecido económico muito frágil, em que 97% ou 98% é constituído por micro, pequenas e médias empresas”, e que há “um aspecto que os últimos indicadores revelam: é que as novas empresas estão a provocar uma maior desigualdade na sociedade”:

“As novas tecnologias e empresas, as start-ups, não tanto as empresas clássicas quando adoptam as novas tecnologias, mas as iniciativas mais modernas, sobretudo nas tecnologias mais avançadas, estão a provocar um aumento da desigualdade, sobretudo salarial.”

Seguidamente apelou à defesa dos “valores que caracterizam as sociedades ocidentais, designadamente nos países europeus e nos Estados Unidos”: a democracia, a liberdade de associação, os direitos e liberdades individuais, a solidariedade, o respeito pelos outros, a convivência entre raças, culturas e religiões e a tolerância.

Marçal Grilo sublinhou que “a defesa destes valores não passa apenas pela sua prática no dia a dia, mas sobretudo por uma educação para os valores”, propondo que esta tivesse em conta uma formação em três pilares: “os conhecimentos clássicos, as línguas, a matemática, a História, a filosofia, as artes, a música, tudo o que tem a ver com o conhecimento; o segundo pilar, que tem a ver com os comportamentos  - a responsabilidade, a autonomia, o pensamento independente, a capacidade de liderar, o trabalho em grupo; e finalmente os valores, os que identifiquei há pouco, mas sobretudo o do respeito entre todos, o sentido ético, que se perdeu completamente”…

“Se há factor que influenciou a crise, depois de 2007, 2008, foi a falta de sentido ético de todos aqueles que produziram aquelas centenas de milhares de produtos que foram lançados pelo mundo, e que lançaram o mundo naquela confusão imensa.” (...)  O orador concluiu este ponto com um apelo à defesa e promoção da língua e da literatura portuguesa no mundo.


O quinto desafio é o dos perigos que se manifestam nas democracias representativas. “O que aconteceu com a Cambridge Analytica, quer no que respeita ao Brexit quer à eleição do Presidente Trump, mostra duas coisas: que a democracia representativa é hoje manipulada  - é possível manipulá-la de tal forma que nós conseguimos, através dos hackers, dos ciber-ataques, pela utilização do Big Data, das redes sociais, etc.  - somos capazes de pôr os eleitores a votar, pensando que estão a votar naquilo que os defende. E isto é apenas um pequeno e inicial exemplo do que poderá acontecer em sistemas eleitorais futuros.”

Marçal Grilo deixou uma interrogação sobre “para onde vai a democracia representativa” e “como podemos aperfeiçoar os nossos regimes democráticos, para garantir a representatividade dos diversos sectores de opinião”.

Sobre os extremismos e “o apagamento dos partidos moderados e reformistas”, o orador fez uma breve descrição do surgimento dos movimentos nacionalistas e independentistas por toda a Europa, nas últimas décadas, sublinhando:

“Portugal é uma espécie de excepção. Nós mantemos aqui uma configuração partidária com uma enorme estabilidade. Se olharmos para as eleições de 1975, e substituirmos a CDE pelo Bloco de Esquerda, temos praticamente o mesmo panorama. Até quando? Veremos.” (...) 

O desafio das alterações climáticas. Sobre esta matéria, o nosso convidado afirmou que “estamos a introduzir um dano tal no nosso planeta”, com todas as formas de poluição conhecidas, que, também neste ponto, “só uma Europa unida será capaz de cumprir os Acordos de Paris; ninguém terá capacidade, por si só, de lutar contra esta degradação do ambiente a que estamos a assistir por todo o mundo”. (...)

 
Marçal Grilo falou, a seguir, das fontes energéticas, sobre a necessária transição das energias fósseis para as renováveis:

“O carvão está a perder peso, o gás natural e o petróleo manterão durante alguns anos uma tendência ainda de crescimento, mas é a utilização das energias renováveis, eólica, a solar, a biomassa, que têm vindo a ganhar peso na produção e consumo de energia. Mas estamos ainda muito longe de atingir um patamar que permita conjugar o desenvolvimento crescente económico, e o bem-estar das populações, com o enquadramento ambiental que assegure a qualidade do ar, dos oceanos, dos lagos e dos rios, que seja garante do equilíbrio do planeta em que vivemos.”

O combate ao terrorismo. O orador comparou os tipos de terrorismo a que assistimos nas últimas décadas, desde os que representavam  “uma espécie de luta pela independência (o IRA e a ETA), depois movimentos como Baader-Meinhof e Brigadas Vermelhas, de acção armada contra o sistema capitalista”, até ao actual terorismo islâmico, que “é diferente porque funciona não racionalmente, é descentralizado, opera por grupos espalhados praticamente por todo o mundo”.

E assenta em três factores: no jogo da imagem, (o que importa é o que a TV mostra, e as redes sociais), no medo, e na procura da alteração dos comportamentos:

“Eles querem dizer: nós somos capazes de vos fazer viver de uma forma diferente.”

Sobre este ponto, Marçal Grilo chamou a atenção para “as muitas fragilidades da Europa” nesta matéria, sobretudo com o Brexit  - referindo-se à qualidade dos sistemas de informação britânicos, que o resto da Europa não terá ao mesmo nível.

A concluir, Marçal Grilo falou da necessária “concepção de um novo modelo para o projecto de construção de uma Europa Unida”, citando Helmut Kohl, que em 1991 disse que “a união monetária sem unidade política será a longo prazo insustentável”:

“Eu não sei se isto é verdade hoje… A ideia que tenho é de que nós teremos que repensar o modelo de integração europeia. A próxima década vai trazer uma grande imprevisibildade  -  se há coisa que se possa prever é a imprevisibilidade, mas a Europa tem que se estruturar e tem que se consolidar como um projecto para que nós sejamos capazes de enfrentar todos estes desafios.”   

“Tudo isto passa por uma Europa muito mais articulada, e muito menos uma Europa em que a única coisa que importa são os fundos…Os países que vieram do que impropriamente se chamava a Europa de Leste, e mesmo ainda aqui em Portugal, o que importa são os fundos.”  (...)

 

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

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Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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