Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Media

Quando os responsáveis de comunicação "dispensam" a Imprensa...

Há uma frase atribuída a um dirigente do regime franquista, em Espanha, que terá dito num evento oficial: “Já chegaram os jornalistas? Coitados, que venham e comam qualquer coisa.” Era a imagem que tinha a profissão, dos “pobres” que, além de submetidos a uma censura rigorosa, vinham de um estatuto social muito baixo. Nesta era digital, podemos estar a voltar a coisas piores. Já não temos censura, mas poucas vezes na História a verdade foi tão maltratada. A reflexão é de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, que começa por citar um estudo do Washington Post, segundo o qual são agora as empresas que “dispensam” a Imprensa e o no comment se tornou a resposta mais habitual.

O mesmo jornal refere uma outra frase, esta de Alan Murray, que trabalhou em The Wall Street Journal, antes de assumir a direcção da Fortune, e resume deste modo o estado de coisas: “Primeiro, não confiam em nós. Segundo, não precisam de nós.”

Como explica a seguir, a forma mais habitual hoje em dia, nos EUA, para contactar com as empresas, é mandar um e-mail a uma caixa de correio que pergunta, automaticamente, qual é o “ângulo” da história, e pede que ponha as perguntas por escrito. “Agora é assim 60% ou 70% das vezes”  - diz Joe Nocera, da Bloomberg

“Os jornalistas têm a impressão de que as empresas evitam o acesso e mantêm a Imprensa à distância. A reportagem cita uma grande lista de empresas que se negaram a responder às perguntas de um repórter. E sublinha que as tecnológicas são das que mostram pior comportamento. A consultora CEB fez um inquérito em que verificou que só 17% do tempo dos directores de comunicação é utilizado em relações com os media  - e esta percentagem está a diminuir.” 

O jornal The Washington Post destaca que os executivos de topo vivem num meio em que não é tolerado um risco como aquele que representam as histórias negativas colhidas nas redes sociais. 

Esta situação está a levar cada vez mais jornalistas para a comunicação institucional ou empresarial, como se constata também no Relatório Anual da Profissão Jornalística, elaborado pela APM - Asociación de la Prensa de Madrid

E um estudo de Cégolène Frisque, da Universidade de Nantes, revela outra coisa talvez pior, a de muitos jornalistas franceses estarem a fazer trabalhos de comunicação empresarial ao mesmo tempo que se dedicam ao jornalismo de Informação geral. 

Miguel Ormaetxea conclui o seu texto com referência a “sintomas preocupantes” no seu país, como as conferências de Imprensa sem perguntas e a apresentação de resultados por parte das grandes empresas sem ter em conta as coincidências que dificultam o trabalho dos jornalistas  -  como tem denunciado a APIE - Asociación de Periodistas de Información Económica.

 

 

O artigo citado, em Media-tics

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


ver mais >
Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...