Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Estudo

Reportagem sobre ambiente é missão arriscada para o jornalista

Fazer a cobertura das questões relacionadas com o ambiente é das coisas mais arriscadas em jornalismo. Segundo uma estimativa, foram mortos 40 repórteres em todo o mundo, entre 2005 e 2013, por este motivo  - mais dos que morreram cobrindo a guerra no Afeganistão.

Estas questões têm a ver, frequentemente, com interesses de negócios, conflitos políticos, actividades criminosas, corrupção ou insurreições contra governos. Há depois ambiguidades na distinção que se faz, em muitos países, entre “jornalistas” e “activistas”, bem como lutas a respeito dos direitos de povos indígenas à terra e aos seus recursos.

Tanto em países ricos como em fase de desenvolvimento, os jornalistas que trabalham sobre estes temas encontram-se entre fogo cruzado. Muitos sobrevivem, mas muitas vezes com traumas severos, que têm profundas consequências nas suas carreiras. É facto assente que estes repórteres têm um risco acrescido de morte, prisão, ataque, ameaças, exílio, processos judiciais ou perseguição. Esta reflexão é de Eric Freedman, docente no Knight Center for Environmental Journalism, na Universidade do Michigan, autor de um estudo recente sobre esta matéria.

Um exemplo extremo é o de Rodney Smith, um jornalista independente da Libéria, que revelou, em 2013, o envolvimento de um antigo ministro da Agricultura do seu país num esquema de corrupção que implicava utilização indevida de fundos destinados ao combate a uma infecção denominada dracunculíase (doença do verme-da-Guiné). 

Sieh acabou condenado a cinco mil anos de prisão e uma multa de 1,6 milhões de dólares por difamação. Passou três meses na pior prisão da Libéria antes de um movimento internacional de protesto ter convencido o governo a libertá-lo. 

No mesmo ano, o repórter canadiano Miles Howe foi enviado para New Brunswick, fazer a reportagem dos protestos do povo Elsipogtog contra uma exploração de gás natural pelo processo de “fractura hidráulica”: 

“Muitas vezes, eu era o único jornalista credenciado a testemunhar detenções muito violentas, incluindo de mulheres grávidas no seu terceiro trimestre e de homens atirados ao solo.” Ele próprio foi preso por diversas vezes e, durante uma manifestação, um dos guardas da Polícia Montada apontou para ele e gritou: “Esse está com eles!” 

O equipamento que tinha foi-lhe apreendido, a casa foi revistada, e finalmente propuseram-lhe um esquema de pagamento a troco de dar informação sobre “acontecimentos” futuros  - por outras palavras, tornar-se espião dos manifestantes. (...) 

Os profissionais que vivem experiências dete tipo ficam sujeitos a sofrer de stress pós-traumático, mas muitas vezes são relutantes a tratar-se. Eric Freedman cita Gowri Ananthan, do Instituto de Saúde Mental do Sri Lanka, que chama ao jornalismo “uma profissão em negação”, mesmo quando algumas vítimas reconhecem o preço que tiveram de pagar. 

Por exemplo, Howe teve problemas psicológicos graves depois das suas detenções. “O que é que isso me fez? Fez-me furioso, zangado”  - conta ele. Howe não procurou terapia até depois de ter deixado o jornalismo, mais de dois anos mais tarde, mas, em retrospectiva, lamenta não o ter feito em devido tempo. 

Outros afirmam que as suas experiências os tornaram mais empenhados nas suas missões como jornalistas. Sieh conta que a sua passagem pela prisão “elevou o nosso trabalho a um nível internacional que eu nunca teria alcançado se não tivesse sido preso; tornou-nos mais fortes, maiores e melhores”. 

Na América do Sul, os jornalistas nativos e os “etno-comunicadores” desempenham um papel cada vez mais importante na revelação de uma vasta exploração dos recursos naturais, florestas e terra. 

E apesar dos códigos profissionais apelarem a uma cobertura equilibrada e imparcial, alguns repórteres sentem-se impelidos a tomar partido nestas histórias: 

“Vimos isso claramente em Standing Rock”  - diz Tristan Ahtone, membro da direcção da Native American Journalists Association, a repeito dos protestos que se deram, a partir de Abril de 2016, na reserva de Standing Rock, no Dakota do Norte, contra o pipeline ali em construção. (...) 

“A poluição e o estrago dos recursos naturais afectam toda a gente, especialmente os membros mais pobres e vulneráveis da sociedade. O facto de os jornalistas que fazem a sua cobertura serem, também eles, vulneráveis, é profundamente preocupante. E os seus agressores agem frequentemente com impunidade.” 

“Por exemplo, não houve qualquer condenação pelo assasínio, em 2017, da jornalista colombiana de rádio Efigenia Vásquz Astudillo, que foi baleada quando fazia reportagem sobre um movimento indígena que pedia a devolução das suas terras ancestrais, transformadas em quintas, estâncias de turismo e plantações de açúcar. Como observa uma declaração do Committee to Protect Journalists, ‘O assassínio é a derradeira forma de censura’.”

 

O artigo aqui citado, na íntegra, no NiemanLab;  e o estudo realizado pelo seu autor, Eric Freedman

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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