Sábado, 25 de Maio, 2019
Estudo

Reportagem sobre ambiente é missão arriscada para o jornalista

Fazer a cobertura das questões relacionadas com o ambiente é das coisas mais arriscadas em jornalismo. Segundo uma estimativa, foram mortos 40 repórteres em todo o mundo, entre 2005 e 2013, por este motivo  - mais dos que morreram cobrindo a guerra no Afeganistão.

Estas questões têm a ver, frequentemente, com interesses de negócios, conflitos políticos, actividades criminosas, corrupção ou insurreições contra governos. Há depois ambiguidades na distinção que se faz, em muitos países, entre “jornalistas” e “activistas”, bem como lutas a respeito dos direitos de povos indígenas à terra e aos seus recursos.

Tanto em países ricos como em fase de desenvolvimento, os jornalistas que trabalham sobre estes temas encontram-se entre fogo cruzado. Muitos sobrevivem, mas muitas vezes com traumas severos, que têm profundas consequências nas suas carreiras. É facto assente que estes repórteres têm um risco acrescido de morte, prisão, ataque, ameaças, exílio, processos judiciais ou perseguição. Esta reflexão é de Eric Freedman, docente no Knight Center for Environmental Journalism, na Universidade do Michigan, autor de um estudo recente sobre esta matéria.

Um exemplo extremo é o de Rodney Smith, um jornalista independente da Libéria, que revelou, em 2013, o envolvimento de um antigo ministro da Agricultura do seu país num esquema de corrupção que implicava utilização indevida de fundos destinados ao combate a uma infecção denominada dracunculíase (doença do verme-da-Guiné). 

Sieh acabou condenado a cinco mil anos de prisão e uma multa de 1,6 milhões de dólares por difamação. Passou três meses na pior prisão da Libéria antes de um movimento internacional de protesto ter convencido o governo a libertá-lo. 

No mesmo ano, o repórter canadiano Miles Howe foi enviado para New Brunswick, fazer a reportagem dos protestos do povo Elsipogtog contra uma exploração de gás natural pelo processo de “fractura hidráulica”: 

“Muitas vezes, eu era o único jornalista credenciado a testemunhar detenções muito violentas, incluindo de mulheres grávidas no seu terceiro trimestre e de homens atirados ao solo.” Ele próprio foi preso por diversas vezes e, durante uma manifestação, um dos guardas da Polícia Montada apontou para ele e gritou: “Esse está com eles!” 

O equipamento que tinha foi-lhe apreendido, a casa foi revistada, e finalmente propuseram-lhe um esquema de pagamento a troco de dar informação sobre “acontecimentos” futuros  - por outras palavras, tornar-se espião dos manifestantes. (...) 

Os profissionais que vivem experiências dete tipo ficam sujeitos a sofrer de stress pós-traumático, mas muitas vezes são relutantes a tratar-se. Eric Freedman cita Gowri Ananthan, do Instituto de Saúde Mental do Sri Lanka, que chama ao jornalismo “uma profissão em negação”, mesmo quando algumas vítimas reconhecem o preço que tiveram de pagar. 

Por exemplo, Howe teve problemas psicológicos graves depois das suas detenções. “O que é que isso me fez? Fez-me furioso, zangado”  - conta ele. Howe não procurou terapia até depois de ter deixado o jornalismo, mais de dois anos mais tarde, mas, em retrospectiva, lamenta não o ter feito em devido tempo. 

Outros afirmam que as suas experiências os tornaram mais empenhados nas suas missões como jornalistas. Sieh conta que a sua passagem pela prisão “elevou o nosso trabalho a um nível internacional que eu nunca teria alcançado se não tivesse sido preso; tornou-nos mais fortes, maiores e melhores”. 

Na América do Sul, os jornalistas nativos e os “etno-comunicadores” desempenham um papel cada vez mais importante na revelação de uma vasta exploração dos recursos naturais, florestas e terra. 

E apesar dos códigos profissionais apelarem a uma cobertura equilibrada e imparcial, alguns repórteres sentem-se impelidos a tomar partido nestas histórias: 

“Vimos isso claramente em Standing Rock”  - diz Tristan Ahtone, membro da direcção da Native American Journalists Association, a repeito dos protestos que se deram, a partir de Abril de 2016, na reserva de Standing Rock, no Dakota do Norte, contra o pipeline ali em construção. (...) 

“A poluição e o estrago dos recursos naturais afectam toda a gente, especialmente os membros mais pobres e vulneráveis da sociedade. O facto de os jornalistas que fazem a sua cobertura serem, também eles, vulneráveis, é profundamente preocupante. E os seus agressores agem frequentemente com impunidade.” 

“Por exemplo, não houve qualquer condenação pelo assasínio, em 2017, da jornalista colombiana de rádio Efigenia Vásquz Astudillo, que foi baleada quando fazia reportagem sobre um movimento indígena que pedia a devolução das suas terras ancestrais, transformadas em quintas, estâncias de turismo e plantações de açúcar. Como observa uma declaração do Committee to Protect Journalists, ‘O assassínio é a derradeira forma de censura’.”

 

O artigo aqui citado, na íntegra, no NiemanLab;  e o estudo realizado pelo seu autor, Eric Freedman

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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