Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Prémio

Bettany Hughes, Prémio Europeu Helena Vaz da Silva a comunicar história e património cultural

A historiadora britânica Bettany Hughes, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hughes como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte e cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

A cerimónia, realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, foi o ponto alto desta iniciativa do Centro Nacional de Cultura, em cooperação com a “Europa Nostra”  - que representa em Portugal -  e em parceria com o Clube Português de Imprensa. 

Na sua alocução de agradecimento pelo Prémio, Bettany Hughes declarou-se “muito emocionada” e honrada pelo privilégio, lembrando que tinha razões “profundamente pessoais” para se sentir assim em Lisboa, porque foi aqui (em Sintra) que veio passar a sua lua-de-mel. 

Evocou Helena Vaz da Silva como “uma mulher extraordinária” e, também por esse motivo, declarou que iria sublinhar, na sua intervenção, o papel da mulher no ADN da História da Cultura e da Civilização.  

Sobre o seu próprio percurso, recordou que, nos anos 80, a História “não estava muito na moda, era considerada ultrapassada, irrelevante”. Quando pensou que a televisão seria o meio para fazer a sua divulgação, e procurou um produtor para lhe comunicar a importância desse projecto (já nos anos 90), ele disse-lhe  três coisas: 

“Primeiro, que ninguém está hoje interessado na História; em segundo lugar, que ninguém vê História pela televisão; e em terceiro, que ninguém quer receber lições de uma mulher. E eu fiquei furiosa e decidi que ia provar-lhe que estava errado.” 

 Na sua apresentação da laureada, também Guilherme d’Oliveira Martins recordou Helena Vaz da Silva como “um exemplo bem presente quando falamos do património e da memória como realidades vivas”: 

“Num tempo em que há nuvens negras no horizonte, no tocante a uma perspectiva humanista de cooperação humana e social  – numa ameaçadora articulação dos riscos das mudanças climáticas, da saúde, da segurança alimentar, de protecção do planeta e dos perigos inerentes à ciber-segurança –  torna-se necessário encontrar respostas capazes de articular a coesão social, a sustentabilidade humana e as novas dimensões do conhecimento.” 

Maria Calado, Presidente do Centro Nacional de Cultura, bem como do Júri do Prémio Helena Vaz da Silva, sublinhou que Bettany Hughes é a primeira mulher a receber este prémio: 

“Figura multifacetada, historiadora por formação, é professora universitária e autora. Mas é, sobretudo, grande comunicadora que actua no espaço público, informando com rigor, atratividade e sucesso, sobre os mais diversos aspectos da cultura, da história, da filosofia e da ciência.” 

Dinis de Abreu, Presidente do CPI, enumerou o elenco dos anteriores premiados com o galardão que traz o nome de Helena Vaz da Silva e, a concluir, afirmou que ela “nunca recuou  - e não é demais repeti-lo -, ao defender todas as causas em que acreditou. E foram muitas, estranhas ao ‘carimbo’  tão em voga do ‘politicamente correcto’. Devemos-lhe esse exemplo e a coragem. Ela foi, sem dúvida, o grito da Cultura”. 

O Prémio da União Europeia para o Património Cultural distinguiu, em Portugal, o Projecto de Reabilitação do Jardim Botânico do Palácio Nacional de Queluz  - também vencedor do Prémio “Escolha do Público” -  que foi apresentado por Nuno Oliveira, director técnico do Património Natural. 

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que não pôde estar presente por se encontrar na Cimeira Ibero-Americana, na Guatemala, enviou uma mensagem de vídeo, evocando Helena Vaz da Silva como “querida amiga, que comigo trabalhou”, e como “jornalista, política e mulher da Cultura”. Dirigiu-se em inglês à historiadora Bettany Hughes, a quem agradeceu e cumprimentou pela sua obra em defesa dos ideais europeus, sendo deste modo “um exemplo para todos nós”. 

A condução dos trabalhos foi feita por Sneska Quaedvlieg-Mihailovic, secretária-geral da Europa Nostra.

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


ver mais >
Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...