Sábado, 20 de Abril, 2019
Prémio

Bettany Hughes, Prémio Europeu Helena Vaz da Silva a comunicar história e património cultural

A historiadora britânica Bettany Hughes, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hughes como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte e cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

A cerimónia, realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, foi o ponto alto desta iniciativa do Centro Nacional de Cultura, em cooperação com a “Europa Nostra”  - que representa em Portugal -  e em parceria com o Clube Português de Imprensa. 

Na sua alocução de agradecimento pelo Prémio, Bettany Hughes declarou-se “muito emocionada” e honrada pelo privilégio, lembrando que tinha razões “profundamente pessoais” para se sentir assim em Lisboa, porque foi aqui (em Sintra) que veio passar a sua lua-de-mel. 

Evocou Helena Vaz da Silva como “uma mulher extraordinária” e, também por esse motivo, declarou que iria sublinhar, na sua intervenção, o papel da mulher no ADN da História da Cultura e da Civilização.  

Sobre o seu próprio percurso, recordou que, nos anos 80, a História “não estava muito na moda, era considerada ultrapassada, irrelevante”. Quando pensou que a televisão seria o meio para fazer a sua divulgação, e procurou um produtor para lhe comunicar a importância desse projecto (já nos anos 90), ele disse-lhe  três coisas: 

“Primeiro, que ninguém está hoje interessado na História; em segundo lugar, que ninguém vê História pela televisão; e em terceiro, que ninguém quer receber lições de uma mulher. E eu fiquei furiosa e decidi que ia provar-lhe que estava errado.” 

 Na sua apresentação da laureada, também Guilherme d’Oliveira Martins recordou Helena Vaz da Silva como “um exemplo bem presente quando falamos do património e da memória como realidades vivas”: 

“Num tempo em que há nuvens negras no horizonte, no tocante a uma perspectiva humanista de cooperação humana e social  – numa ameaçadora articulação dos riscos das mudanças climáticas, da saúde, da segurança alimentar, de protecção do planeta e dos perigos inerentes à ciber-segurança –  torna-se necessário encontrar respostas capazes de articular a coesão social, a sustentabilidade humana e as novas dimensões do conhecimento.” 

Maria Calado, Presidente do Centro Nacional de Cultura, bem como do Júri do Prémio Helena Vaz da Silva, sublinhou que Bettany Hughes é a primeira mulher a receber este prémio: 

“Figura multifacetada, historiadora por formação, é professora universitária e autora. Mas é, sobretudo, grande comunicadora que actua no espaço público, informando com rigor, atratividade e sucesso, sobre os mais diversos aspectos da cultura, da história, da filosofia e da ciência.” 

Dinis de Abreu, Presidente do CPI, enumerou o elenco dos anteriores premiados com o galardão que traz o nome de Helena Vaz da Silva e, a concluir, afirmou que ela “nunca recuou  - e não é demais repeti-lo -, ao defender todas as causas em que acreditou. E foram muitas, estranhas ao ‘carimbo’  tão em voga do ‘politicamente correcto’. Devemos-lhe esse exemplo e a coragem. Ela foi, sem dúvida, o grito da Cultura”. 

O Prémio da União Europeia para o Património Cultural distinguiu, em Portugal, o Projecto de Reabilitação do Jardim Botânico do Palácio Nacional de Queluz  - também vencedor do Prémio “Escolha do Público” -  que foi apresentado por Nuno Oliveira, director técnico do Património Natural. 

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que não pôde estar presente por se encontrar na Cimeira Ibero-Americana, na Guatemala, enviou uma mensagem de vídeo, evocando Helena Vaz da Silva como “querida amiga, que comigo trabalhou”, e como “jornalista, política e mulher da Cultura”. Dirigiu-se em inglês à historiadora Bettany Hughes, a quem agradeceu e cumprimentou pela sua obra em defesa dos ideais europeus, sendo deste modo “um exemplo para todos nós”. 

A condução dos trabalhos foi feita por Sneska Quaedvlieg-Mihailovic, secretária-geral da Europa Nostra.

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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