Sábado, 11 de Julho, 2020
Memória

Para Alberto Dines, “o jornalismo era o próprio sentido da vida”

Cada história é uma vida, e algumas delas são muito especiais. “Alberto Dines foi autor e protagonista de uma dessas trajectórias incomuns: um intelectual visceral, que usou a sua inteligência e lucidez não para disputar uma partida, mas para mudar o jogo.” Sob o título “Uma vida sem ponto final”, um dos seus numerosos discípulos, Bruno Thys, evoca com a saudade de uma relação muito pessoal o percurso e obra de Alberto Dines, falecido em São Paulo em Maio deste ano.

O autor do texto que citamos valoriza uma parte da biografia menos mencionada de Alberto Dines, a que o coloca numa linhagem de judeus emigrados de uma Europa em várias convulsões:

“Dines tornou-se uma das mais cintilantes estrelas de sua geração, a primeira de judeus nascidos no Brasil. (...) Da geração de seus pais, herdou a cultura ancestral. Dines tinha sólida formação humanística e as suas raízes remontam à Haskalá, o iluminismo judaico que floresceu na Europa Ocidental nos séculos XVIII e XIX. Este movimento pregava a interacção da sabedoria judaica com a cultura europeia e produziu nomes como Einstein, Freud, Herzel e Stefan Zweig, o grande biógrafo austríaco, que, muitos anos depois, seria biografado por Dines.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

“Alberto Dines elevou o patamar da Imprensa no Brasil. Ele entendia que a credibilidade e a força dos [meios] de comunicação, notadamente dos jornais, seria tão maior quanto fosse a sua capacidade de se comparar aos concorrentes, acolher a crítica dos seus leitores e de se autocriticar. Ainda no JB, lançou os Cadernos de Jornalismo e Comunicação, voltados para a reflexão da Imprensa brasileira. Foi também idealizador da coluna Jornal dos jornais na Folha de S.Paulo, que daria origem à figura do ombudsman. Em 1996, criaria o Observatório da Imprensa, que já nasceu na Internet, também destinado ao debate sobre a actividade no país.” 

“Poucos profissionais se movimentavam com tanta personalidade e desembaraço pelos campos teóricos e práticos da profissão. Jornalismo para ele não era uma actividade, mas o próprio sentido da vida. Tinha conhecimento técnico e sensibilidade para escolher e editar, apurar, entender, processar, produzir e distribuir ou, mais modernamente, compartilhar. Fazia tudo isso com muita paixão. Para Dines, a função do jornalismo, pilar da sociedade moderna, era a de informar e de ajudar a formar o cidadão.” (...) 

Sobre o seu percurso académico, Bruno Thys recorda que Alberto Dines foi professor em universidades brasileiras, deu aulas na Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos, e criou o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, na Unicamp, que se tornou referência na América Latina. 

“Ou seja, Dines alternava sua presença no front e no quartel. Aliava visão crítica e honestidade intelectual sem filtros ideológicos, mas humanísticos. Era um ser humano com raízes profundas e muitas vezes se voltava ao passado para dirimir dúvidas do presente ou enfrentar questionamentos sobre o futuro. Costumava citar um texto de 1808 de Hipólito José da Costa, patrono da imprensa no Brasil, quando indagado sobre o papel do jornalista: ‘o primeiro dever do homem em sociedade é ser útil aos membros dela’, dizia.” (...) 

A chegar ao fim do seu texto de evocação  - e anunciando o próximo -  Bruno Thys afirma que “ainda é cedo para escrever sobre ele”: 

“A sua vida teve um ponto final, mas a sua obra é eterna. Alberto Dines foi um dos grandes nomes do jornalismo. Seu maior legado terá sido mostrar, com seu próprio exemplo, que a pauta de nossas vidas deve ser questionada e subvertida ininterruptamente e entender a evolução como uma jornada. Jamais parar de aprender.” (...)

 

 

O texto aqui citado, na íntegra, no Observatório da Imprensa do Brasil

Connosco
Quando há códigos éticos associados ao jornalismo Ver galeria

O jornalismo está em constante mudança e, como tal, os códigos éticos associados à profissão deve ser actualizados, em permanência.


Há, contudo, alguns elementos que se vão mantendo, mais ou menos, constantes, como as ideologias associadas aos jornais.

Confrontado com este cenário, Pedro Pablo Bermúdez, um estudante colombiano de jornalismo, decidiu questionar os colaboradores da Fundación Gabo quanto à sua opinião sobre os posicionamentos políticos da imprensa e dos jornalistas.

Feita a consulta, alguns jornalistas da Fundação exprimiram os seus pontos de vista.

Assim, para a jornalista Mónica González, a isenção da imprensa é uma utopia. Assim, os jornais devem tentar ser o mais transparentes possível sobre a sua posição ideológica, para que os leitores consigam distinguir uma notícia de uma falácia construída em detrimento da oposição.

Da mesma forma, as empresas mediáticas deverão revelar quais as suas fontes de financiamento e o nome dos seus investidores.


Agradecer a assinatura como forma de sensibilizar leitores Ver galeria

O modelo de negócio dos “media” está a mudar e cada vez mais títulos estão a optar pela implementação de um plano de subscrição.

Como tal, os editores procuram, naturalmente, conquistar um número crescente de leitores, que pagam, regularmente, pelo consumo dos seus conteúdos.

Ora, um estudo da Citizens and Technology Lab sugere que a forma ideal de alcançar esse objectivo passa, simplesmente, por agradecer aos subscritores pela sua contribuição.

Os responsáveis por este estudo analisaram as interacções no “site” Wikipedia, que depende de uma comunidade internacional, disposta a manter a plataforma actualizada, a custo zero. 


O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Agenda
27
Jul
Jornalismo ético como garantia de democracia
09:30 @ Universidade de Madrid
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague