Sábado, 20 de Abril, 2019
Memória

Para Alberto Dines, “o jornalismo era o próprio sentido da vida”

Cada história é uma vida, e algumas delas são muito especiais. “Alberto Dines foi autor e protagonista de uma dessas trajectórias incomuns: um intelectual visceral, que usou a sua inteligência e lucidez não para disputar uma partida, mas para mudar o jogo.” Sob o título “Uma vida sem ponto final”, um dos seus numerosos discípulos, Bruno Thys, evoca com a saudade de uma relação muito pessoal o percurso e obra de Alberto Dines, falecido em São Paulo em Maio deste ano.

O autor do texto que citamos valoriza uma parte da biografia menos mencionada de Alberto Dines, a que o coloca numa linhagem de judeus emigrados de uma Europa em várias convulsões:

“Dines tornou-se uma das mais cintilantes estrelas de sua geração, a primeira de judeus nascidos no Brasil. (...) Da geração de seus pais, herdou a cultura ancestral. Dines tinha sólida formação humanística e as suas raízes remontam à Haskalá, o iluminismo judaico que floresceu na Europa Ocidental nos séculos XVIII e XIX. Este movimento pregava a interacção da sabedoria judaica com a cultura europeia e produziu nomes como Einstein, Freud, Herzel e Stefan Zweig, o grande biógrafo austríaco, que, muitos anos depois, seria biografado por Dines.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

“Alberto Dines elevou o patamar da Imprensa no Brasil. Ele entendia que a credibilidade e a força dos [meios] de comunicação, notadamente dos jornais, seria tão maior quanto fosse a sua capacidade de se comparar aos concorrentes, acolher a crítica dos seus leitores e de se autocriticar. Ainda no JB, lançou os Cadernos de Jornalismo e Comunicação, voltados para a reflexão da Imprensa brasileira. Foi também idealizador da coluna Jornal dos jornais na Folha de S.Paulo, que daria origem à figura do ombudsman. Em 1996, criaria o Observatório da Imprensa, que já nasceu na Internet, também destinado ao debate sobre a actividade no país.” 

“Poucos profissionais se movimentavam com tanta personalidade e desembaraço pelos campos teóricos e práticos da profissão. Jornalismo para ele não era uma actividade, mas o próprio sentido da vida. Tinha conhecimento técnico e sensibilidade para escolher e editar, apurar, entender, processar, produzir e distribuir ou, mais modernamente, compartilhar. Fazia tudo isso com muita paixão. Para Dines, a função do jornalismo, pilar da sociedade moderna, era a de informar e de ajudar a formar o cidadão.” (...) 

Sobre o seu percurso académico, Bruno Thys recorda que Alberto Dines foi professor em universidades brasileiras, deu aulas na Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos, e criou o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, na Unicamp, que se tornou referência na América Latina. 

“Ou seja, Dines alternava sua presença no front e no quartel. Aliava visão crítica e honestidade intelectual sem filtros ideológicos, mas humanísticos. Era um ser humano com raízes profundas e muitas vezes se voltava ao passado para dirimir dúvidas do presente ou enfrentar questionamentos sobre o futuro. Costumava citar um texto de 1808 de Hipólito José da Costa, patrono da imprensa no Brasil, quando indagado sobre o papel do jornalista: ‘o primeiro dever do homem em sociedade é ser útil aos membros dela’, dizia.” (...) 

A chegar ao fim do seu texto de evocação  - e anunciando o próximo -  Bruno Thys afirma que “ainda é cedo para escrever sobre ele”: 

“A sua vida teve um ponto final, mas a sua obra é eterna. Alberto Dines foi um dos grandes nomes do jornalismo. Seu maior legado terá sido mostrar, com seu próprio exemplo, que a pauta de nossas vidas deve ser questionada e subvertida ininterruptamente e entender a evolução como uma jornada. Jamais parar de aprender.” (...)

 

 

O texto aqui citado, na íntegra, no Observatório da Imprensa do Brasil

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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