null, 19 de Maio, 2019
Opinião

As notícias falsas e a internet

por Francisco Sarsfield Cabral

As redes sociais são, hoje, a principal fonte de informação, se não mesmo a única, para imensa gente. O combate às “fake news” tem que ser feito, não pela censura, mas pela consciencialização dos utilizadores da net.

Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil graças à utilização maciça das redes sociais. A maioria dos jornais brasileiros de referência não o apoiou, o seu tempo de propaganda eleitoral na TV era mínimo, só deu entrevistas depois de eleito, quase não saiu de casa (em parte por estar a curar-se de um ataque à facada), não realizou comícios – ou seja, tudo o contrário de uma campanha tradicional. Mas ganhou. Na esteira de Trump, mas ainda mais intensamente, Bolsonaro fez campanha através das redes sociais. E aí, embora não só da parte dele, abundaram as notícias falsas, as bem conhecidas “fake news”.

Por exemplo, Bolsonaro acusou (falsamente) o seu opositor Haddad de, quando era ministro da Educação no governo de Dilma, ter distribuído às escolas um “kit” de índole homossexual. Tratava-se de uma acusação repetida e várias vezes desmentida - mas os apoiantes de Bolsonaro apenas acreditam naquilo lhes diz o seu ídolo, ainda que não seja verdadeiro. Tal como acontece com Trump nos EUA.

Por cá tivemos um caso curioso. Apareceu na internet uma fotografia de Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, ostentando um relógio caríssimo. Como o “Diário de Notícias” relatou, tratava-se de uma foto forjada, falsa – deliberadamente lá colocada por Manuel Vilarinho Pires. O mais espantoso – mas muito revelador - é que, no Facebook e no Twitter, a imagem era acompanhada de um texto onde se dizia: “Esta notícia é, obviamente, FALSA, e destina-se a chamar a atenção para a facilidade de enganar pessoas”. Pois nem assim se evitou uma boa dose de comentários negativos, como se a foto fosse verdadeira… De pouco serve desmentir falsidades – muita gente prefere acreditar naquilo que não é verdadeiro, porque emocionalmente lhe agrada, embora falso.

Por vezes, as notícias falsas surgem fora da área política, mas têm consequências trágicas. Recentemente um homem foi morto na Colômbia por uma multidão enfurecida, que havia lido na net uma notícia - falsa - que acusava o homem de ter violado um menino em Bogotá. Na Índia várias pessoas foram mortas por causa de falsas notícias deste género.

Notícias falsas são antigas

Na política e fora dela as mentiras, os boatos caluniosos, as difamações, não são de hoje. Na Grécia, berço da democracia, as “fake news” surgiam na propaganda. No séc. XVI Maquiavel aconselhava os governantes a recorrerem ao disfarce e à mentira, na sua obra clássica “O Príncipe”. E explicava que quem queria enganar encontraria sempre quem quisesse ser enganado.

Nas primeiras décadas da história dos EUA como país independente cada político de algum relevo possuía ou influenciava um jornal. E aí surgiam as mais terríveis acusações – muitas delas falsas…- aos adversários políticos. Alexander Hamilton, um grande estadista e um dos “pais fundadores” dos EUA, foi frequentemente alvo dessas acusações. E antes, na sua qualidade de advogado, Hamilton defendeu em tribunal o diretor de um jornal de Nova York que havia sido preso por ordem do governador colonial britânico (logo, antes da independência americana, de 1776), por esse jornal haver investigado e divulgado atos de corrupção do governador. Na sua alegação de defesa, Hamilton enalteceu a livre expressão pública de verdades, ainda que incómodas para os poderosos.

Entre nós no passado recente – e no menos recente também – aconteceram inúmeras notícias falsas e campanhas difamatórias sobre políticos, desde Sá Carneiro até Marcelo Rebelo de Sousa, passando por Francisco P. Balsemão e Cavaco Silva.

A importância da internet

Mas, se as “fake news” não são novidade, a sua divulgação na internet confere-lhes uma importância inédita e assustadora. É que as redes sociais são, hoje, a principal fonte de informação, se não mesmo a única, para imensa gente. Nos EUA, segundo o Pew Research Center, quase metade dos americanos informam-se nas redes sociais. Mais grave: numerosas pessoas apenas seguem a rede social que lhes diz o que elas gostam, independentemente de ser verdade ou não.

Como é óbvio, esta situação impede qualquer debate político racional. O mais que consegue é uma lamentável troca de insultos.

Existe agora uma autêntica “indústria” de notícias falsas. Espalhados pelo mundo, milhares de pequenos grupos redigem e depois vendem notícias fantasiosas para outros países – para os EUA, por exemplo. É uma maneira de ganhar a vida…

Quando apareceu, a internet suscitou grandes esperanças de se tornar uma área onde qualquer um se poderia expressar, sem quaisquer controles ou limites. E sem assumir responsabilidades por aquilo que escreve, por muito falso ou injurioso seja. Hoje sabemos que a internet promove, não uma democratização das notícias e comentários, mas o “vale tudo”. Uma livre expressão que nada tem a ver com jornalismo, antes representa, com frequência, um desabafo de ódios e paixões.

Como combater este malefício que são as “fake news”? A resposta fácil, mas certa, é dizer: com a verdade. Decerto que quem controla uma rede social pode – e deve – eliminar discursos de ódio e de apelo à violência. Mas é muito ténue a margem para um sistema de censura. Ora atacar as “fake news” com censura é somar um erro a outro erro. No fundo, será pela educação da procura – dos utilizadores da net – e não pelo policiamento da oferta que poderemos conseguir uma gradual e progressiva libertação das “fake news”.

Mas levará tempo, claro.

 

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Meio século depois da alunagem o valor do jornalismo científico Ver galeria

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Cinquenta anos depois, as perspectivas de colonização do Sistema Solar continuam distantes, e a cobertura de astronomia e exploração espacial teve de mudar muito. “Mas, para quem tem o coração nas estrelas, continua sendo uma actividade apaixonante.”

A reflexão é de Pablo Nogueira, jornalista e editor da Scientific American Brasil, membro da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência. No Observatório da Imprensa, com o qual mantemos um acordo de parceria.

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