Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Opinião

As notícias falsas e a internet

por Francisco Sarsfield Cabral

As redes sociais são, hoje, a principal fonte de informação, se não mesmo a única, para imensa gente. O combate às “fake news” tem que ser feito, não pela censura, mas pela consciencialização dos utilizadores da net.

Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil graças à utilização maciça das redes sociais. A maioria dos jornais brasileiros de referência não o apoiou, o seu tempo de propaganda eleitoral na TV era mínimo, só deu entrevistas depois de eleito, quase não saiu de casa (em parte por estar a curar-se de um ataque à facada), não realizou comícios – ou seja, tudo o contrário de uma campanha tradicional. Mas ganhou. Na esteira de Trump, mas ainda mais intensamente, Bolsonaro fez campanha através das redes sociais. E aí, embora não só da parte dele, abundaram as notícias falsas, as bem conhecidas “fake news”.

Por exemplo, Bolsonaro acusou (falsamente) o seu opositor Haddad de, quando era ministro da Educação no governo de Dilma, ter distribuído às escolas um “kit” de índole homossexual. Tratava-se de uma acusação repetida e várias vezes desmentida - mas os apoiantes de Bolsonaro apenas acreditam naquilo lhes diz o seu ídolo, ainda que não seja verdadeiro. Tal como acontece com Trump nos EUA.

Por cá tivemos um caso curioso. Apareceu na internet uma fotografia de Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, ostentando um relógio caríssimo. Como o “Diário de Notícias” relatou, tratava-se de uma foto forjada, falsa – deliberadamente lá colocada por Manuel Vilarinho Pires. O mais espantoso – mas muito revelador - é que, no Facebook e no Twitter, a imagem era acompanhada de um texto onde se dizia: “Esta notícia é, obviamente, FALSA, e destina-se a chamar a atenção para a facilidade de enganar pessoas”. Pois nem assim se evitou uma boa dose de comentários negativos, como se a foto fosse verdadeira… De pouco serve desmentir falsidades – muita gente prefere acreditar naquilo que não é verdadeiro, porque emocionalmente lhe agrada, embora falso.

Por vezes, as notícias falsas surgem fora da área política, mas têm consequências trágicas. Recentemente um homem foi morto na Colômbia por uma multidão enfurecida, que havia lido na net uma notícia - falsa - que acusava o homem de ter violado um menino em Bogotá. Na Índia várias pessoas foram mortas por causa de falsas notícias deste género.

Notícias falsas são antigas

Na política e fora dela as mentiras, os boatos caluniosos, as difamações, não são de hoje. Na Grécia, berço da democracia, as “fake news” surgiam na propaganda. No séc. XVI Maquiavel aconselhava os governantes a recorrerem ao disfarce e à mentira, na sua obra clássica “O Príncipe”. E explicava que quem queria enganar encontraria sempre quem quisesse ser enganado.

Nas primeiras décadas da história dos EUA como país independente cada político de algum relevo possuía ou influenciava um jornal. E aí surgiam as mais terríveis acusações – muitas delas falsas…- aos adversários políticos. Alexander Hamilton, um grande estadista e um dos “pais fundadores” dos EUA, foi frequentemente alvo dessas acusações. E antes, na sua qualidade de advogado, Hamilton defendeu em tribunal o diretor de um jornal de Nova York que havia sido preso por ordem do governador colonial britânico (logo, antes da independência americana, de 1776), por esse jornal haver investigado e divulgado atos de corrupção do governador. Na sua alegação de defesa, Hamilton enalteceu a livre expressão pública de verdades, ainda que incómodas para os poderosos.

Entre nós no passado recente – e no menos recente também – aconteceram inúmeras notícias falsas e campanhas difamatórias sobre políticos, desde Sá Carneiro até Marcelo Rebelo de Sousa, passando por Francisco P. Balsemão e Cavaco Silva.

A importância da internet

Mas, se as “fake news” não são novidade, a sua divulgação na internet confere-lhes uma importância inédita e assustadora. É que as redes sociais são, hoje, a principal fonte de informação, se não mesmo a única, para imensa gente. Nos EUA, segundo o Pew Research Center, quase metade dos americanos informam-se nas redes sociais. Mais grave: numerosas pessoas apenas seguem a rede social que lhes diz o que elas gostam, independentemente de ser verdade ou não.

Como é óbvio, esta situação impede qualquer debate político racional. O mais que consegue é uma lamentável troca de insultos.

Existe agora uma autêntica “indústria” de notícias falsas. Espalhados pelo mundo, milhares de pequenos grupos redigem e depois vendem notícias fantasiosas para outros países – para os EUA, por exemplo. É uma maneira de ganhar a vida…

Quando apareceu, a internet suscitou grandes esperanças de se tornar uma área onde qualquer um se poderia expressar, sem quaisquer controles ou limites. E sem assumir responsabilidades por aquilo que escreve, por muito falso ou injurioso seja. Hoje sabemos que a internet promove, não uma democratização das notícias e comentários, mas o “vale tudo”. Uma livre expressão que nada tem a ver com jornalismo, antes representa, com frequência, um desabafo de ódios e paixões.

Como combater este malefício que são as “fake news”? A resposta fácil, mas certa, é dizer: com a verdade. Decerto que quem controla uma rede social pode – e deve – eliminar discursos de ódio e de apelo à violência. Mas é muito ténue a margem para um sistema de censura. Ora atacar as “fake news” com censura é somar um erro a outro erro. No fundo, será pela educação da procura – dos utilizadores da net – e não pelo policiamento da oferta que poderemos conseguir uma gradual e progressiva libertação das “fake news”.

Mas levará tempo, claro.

 

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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