Sexta-feira, 22 de Fevereiro, 2019
Opinião

As notícias falsas e a internet

por Francisco Sarsfield Cabral

As redes sociais são, hoje, a principal fonte de informação, se não mesmo a única, para imensa gente. O combate às “fake news” tem que ser feito, não pela censura, mas pela consciencialização dos utilizadores da net.

Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil graças à utilização maciça das redes sociais. A maioria dos jornais brasileiros de referência não o apoiou, o seu tempo de propaganda eleitoral na TV era mínimo, só deu entrevistas depois de eleito, quase não saiu de casa (em parte por estar a curar-se de um ataque à facada), não realizou comícios – ou seja, tudo o contrário de uma campanha tradicional. Mas ganhou. Na esteira de Trump, mas ainda mais intensamente, Bolsonaro fez campanha através das redes sociais. E aí, embora não só da parte dele, abundaram as notícias falsas, as bem conhecidas “fake news”.

Por exemplo, Bolsonaro acusou (falsamente) o seu opositor Haddad de, quando era ministro da Educação no governo de Dilma, ter distribuído às escolas um “kit” de índole homossexual. Tratava-se de uma acusação repetida e várias vezes desmentida - mas os apoiantes de Bolsonaro apenas acreditam naquilo lhes diz o seu ídolo, ainda que não seja verdadeiro. Tal como acontece com Trump nos EUA.

Por cá tivemos um caso curioso. Apareceu na internet uma fotografia de Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, ostentando um relógio caríssimo. Como o “Diário de Notícias” relatou, tratava-se de uma foto forjada, falsa – deliberadamente lá colocada por Manuel Vilarinho Pires. O mais espantoso – mas muito revelador - é que, no Facebook e no Twitter, a imagem era acompanhada de um texto onde se dizia: “Esta notícia é, obviamente, FALSA, e destina-se a chamar a atenção para a facilidade de enganar pessoas”. Pois nem assim se evitou uma boa dose de comentários negativos, como se a foto fosse verdadeira… De pouco serve desmentir falsidades – muita gente prefere acreditar naquilo que não é verdadeiro, porque emocionalmente lhe agrada, embora falso.

Por vezes, as notícias falsas surgem fora da área política, mas têm consequências trágicas. Recentemente um homem foi morto na Colômbia por uma multidão enfurecida, que havia lido na net uma notícia - falsa - que acusava o homem de ter violado um menino em Bogotá. Na Índia várias pessoas foram mortas por causa de falsas notícias deste género.

Notícias falsas são antigas

Na política e fora dela as mentiras, os boatos caluniosos, as difamações, não são de hoje. Na Grécia, berço da democracia, as “fake news” surgiam na propaganda. No séc. XVI Maquiavel aconselhava os governantes a recorrerem ao disfarce e à mentira, na sua obra clássica “O Príncipe”. E explicava que quem queria enganar encontraria sempre quem quisesse ser enganado.

Nas primeiras décadas da história dos EUA como país independente cada político de algum relevo possuía ou influenciava um jornal. E aí surgiam as mais terríveis acusações – muitas delas falsas…- aos adversários políticos. Alexander Hamilton, um grande estadista e um dos “pais fundadores” dos EUA, foi frequentemente alvo dessas acusações. E antes, na sua qualidade de advogado, Hamilton defendeu em tribunal o diretor de um jornal de Nova York que havia sido preso por ordem do governador colonial britânico (logo, antes da independência americana, de 1776), por esse jornal haver investigado e divulgado atos de corrupção do governador. Na sua alegação de defesa, Hamilton enalteceu a livre expressão pública de verdades, ainda que incómodas para os poderosos.

Entre nós no passado recente – e no menos recente também – aconteceram inúmeras notícias falsas e campanhas difamatórias sobre políticos, desde Sá Carneiro até Marcelo Rebelo de Sousa, passando por Francisco P. Balsemão e Cavaco Silva.

A importância da internet

Mas, se as “fake news” não são novidade, a sua divulgação na internet confere-lhes uma importância inédita e assustadora. É que as redes sociais são, hoje, a principal fonte de informação, se não mesmo a única, para imensa gente. Nos EUA, segundo o Pew Research Center, quase metade dos americanos informam-se nas redes sociais. Mais grave: numerosas pessoas apenas seguem a rede social que lhes diz o que elas gostam, independentemente de ser verdade ou não.

Como é óbvio, esta situação impede qualquer debate político racional. O mais que consegue é uma lamentável troca de insultos.

Existe agora uma autêntica “indústria” de notícias falsas. Espalhados pelo mundo, milhares de pequenos grupos redigem e depois vendem notícias fantasiosas para outros países – para os EUA, por exemplo. É uma maneira de ganhar a vida…

Quando apareceu, a internet suscitou grandes esperanças de se tornar uma área onde qualquer um se poderia expressar, sem quaisquer controles ou limites. E sem assumir responsabilidades por aquilo que escreve, por muito falso ou injurioso seja. Hoje sabemos que a internet promove, não uma democratização das notícias e comentários, mas o “vale tudo”. Uma livre expressão que nada tem a ver com jornalismo, antes representa, com frequência, um desabafo de ódios e paixões.

Como combater este malefício que são as “fake news”? A resposta fácil, mas certa, é dizer: com a verdade. Decerto que quem controla uma rede social pode – e deve – eliminar discursos de ódio e de apelo à violência. Mas é muito ténue a margem para um sistema de censura. Ora atacar as “fake news” com censura é somar um erro a outro erro. No fundo, será pela educação da procura – dos utilizadores da net – e não pelo policiamento da oferta que poderemos conseguir uma gradual e progressiva libertação das “fake news”.

Mas levará tempo, claro.

 

Connosco
Expressiva manifestação em Bratislava evocando jornalista morto Ver galeria
“Esperamos respostas tão breve quanto possível, porque ainda há muitas questões”  - afirmou.
Prémios do World Press Photo 2019 já têm candidatos escolhidos... Ver galeria

Um fotojornalista português, Mário Cruz, da Agência Lusa, figura entre os nomeados para o World Press Photo 2019, o mais prestigiado prémio de fotojornalismo do mundo, cuja identidade e trabalhos a concurso foram agora conhecidos. A Fundação organizadora introduziu também uma nova categoria a ser premiada, a História do Ano, destinada a “fotógrafos cuja criatividade e habilidades visuais produziram uma história com excelente edição e sequenciamento, que captura ou representa um evento ou assunto de grande importância jornalística”.

A imagem de Mário Cruz, intitulada “Viver entre o que foi deixado para trás”, mostra uma criança recolhendo material reciclável, deitada num colchão cercado por lixo, enquanto flutua no rio Pasig, em Manila, nas Filipinas.

Os vencedores do concurso serão conhecidos na cerimónia marcada para 11 de Abril, em Amesterdão, na Holanda.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
Agenda
26
Fev
Digital Summit Seattle
09:00 @ Seattle, EUA
02
Mar
LinkedIn para Jornalistas
09:00 @ Cenjor, Lisboa
04
Mar
Simpósio de Radiodifusão Digital da ABU
09:00 @ Kuala Lumpur, Malásia