Quarta-feira, 24 de Abril, 2019
Opinião

Mau jornalismo é o melhor amigo do populismo

por José Luis Ramos Pinheiro

O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais.

As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit.

Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho arruinam a reputação de pessoas ou instituições.

Claro que sempre houve intoxicação e mentiras no espaço público. Mas o ecossistema digital multiplica a mentira a uma velocidade supersónica.

Mais jornalismo e melhor jornalismo é uma das boas respostas ao perigo das ‘fake news’. Não chega – e não chega mesmo, tantas são as variáveis envolvidas. Mas não chegando, ajuda.

Para isso, o jornalismo deve distinguir-se do ‘lixo’ digital. Assumir a sua independência, escrutinar com rigor os acontecimentos, desmontar a propaganda, fazer as perguntas certas, tratar os factos com objetividade. Em vez de ‘fake news’, ‘real journalism’.

Um dos riscos do jornalismo é o de se deixar contagiar pela subjetividade, alienando o seu capital de confiança, junto do público e da sociedade.

O triunfo da subjetividade consiste, entre outros aspetos, em deixar que as visões e os preconceitos dos profissionais contaminem ‘a notícia’. Confundir factos com opinião contribui para desvalorizar e enfraquecer o jornalismo. E abre o caminho aos ‘factos alternativos’ que outros podem propor, alegando idêntica legitimidade.

Desse modo, o jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais.

Tony Blair, numa das intervenções mais interessantes na Web Summit, desmontou o Brexit e analisou os resultados das eleições intercalares nos Estados Unidos.

Insuspeito de ser um adepto de Trump, Blair explicou que de 2016 para cá, quem visse a CNN e lesse o The New York Times ficava com a sensação de que a presidência de Donald Trump ia implodir. Mas não implodiu, longe disso.

A verdade é que Trump, por quem não tenho nenhuma simpatia, continua a recolher apoios significativos na sociedade norte americana. Apesar do que tem dito e feito, dizem os críticos. Precisamente por aquilo que diz e faz, dirão os seus adeptos. Ignorar isto é ignorar a realidade.

Dito de outro modo, CNN e The New York Times, na ânsia de derrubarem Trump, transmitem um retrato que não reflete a realidade.

Sabendo-se que a Fox News é acusada de fazer o mesmo, mas num registo pró-Trump, tal significa que há muita produção jornalística inquinada.

Este é o ponto. Para adulterar a realidade deviam bastar as ‘fake news’. O jornalismo deve retratar a realidade. Detestando-a ou amando-a, mas procurando retratá-la, sempre com o mesmo rigor, independência e busca da verdade. Um jornalismo que mascara a realidade é tão ‘fake’ quanto as notícias falsas que abundam pelas redes. E se o jornalismo não retrata o país, perde-o.

Por outro lado, sendo o populismo tão enganador, é recomendável que o jornalismo seja esclarecedor. Se numa situação como a dos Estados Unidos, os jornalistas teimarem em retocar a verdade ao sabor da ideologia, estarão a dar um tiro no pé e transformarão o actual Presidente numa vítima. Não o combatem, promovem-no. Melhor serviço à causa de Trump, não há. Porque o mau jornalismo ajuda o populismo. Dá-lhe pretextos e argumentos.

No caso do Brasil é provável que venha a suceder idêntico fenómeno. Há uma espécie de central do pensamento global que já decidiu tudo sobre Bolsonaro. E que não se quer interrogar sobre as razões que levaram mais de cinquenta milhões de brasileiros a escolhê-lo como Presidente.

Por tudo aquilo que se conhece, Bolsonaro parece um personagem nada recomendável. Mas se pretenderem combatê-lo é melhor optar pelo bom jornalismo e não por campanhas baseadas na mera desinformação ou em ficções travestidas de jornalismo.

Populismo e fake news são duas caras da mesma moeda. Uma moeda má que o bom jornalismo combate e que o mau jornalismo potencia.

 

Connosco
Os sete elementos decisivos para os leitores confiarem nos Media Ver galeria

Sete elementos fundamentais foram identificados como decisivos na confiança que os leitores depositam num meio de comunicação  - e os três primeiros, votados a grande distância de todos os outros, são o equilíbrio, a honestidade e a profundidade de tratamento dos temas.

Esta recolha foi elaborada a partir de um inquérito realizado por vários media associados à TrustingNews.org, na forma de 81 entrevistas pessoais com leitores escolhidos como representantes de diversos pontos de vista.

Rob Jones, um estudante na Escola de Jornalismo do Missouri, pesquisou os temas mais presentes em todas as respostas e organizou-os no estudo agora divulgado pelo Instituto Reynolds de Jornalismo. A informação é publicada na Red Ética, da FNPI – Fundación para el Nuevo Periodismo Iberoamericano.
Quando o jornalismo procura o passado para ler o futuro Ver galeria

O futuro que foi imaginado pela literatura do passado nem sempre coincide com o que vemos hoje. Tanto pelo seu lado mais luminoso, como pelo mais sombrio, podemos reencontrar “imagens das histórias utópicas ou distópicas já contadas”.
Mas, “em tempos de esperança reduzida, em que pouco se vê além da poeira levantada pela vida agitada deste momento, as distopias têm voltado a ser mais lembradas”.

É esta a reflexão inicial de Vanessa Pedro, docente de jornalismo e pesquisadora do ObjEthos, num artigo sobre este gosto presente pelos zombies, “as histórias dos mortos-vivos, que nem se vão nos deixando em paz e nem voltam mesmo à vida como um milagre que poderia trazer esperanças de renovação”.

Neste tipo de leitura  - como acrescenta -  “o passado acaba sendo um ideal mais interessante e feliz do que o futuro”:

“E aí vemos diversos agendamentos, inclusive como pauta do Jornalismo e da sociedade de forma geral. O período da ditadura militar brasileira passa a ser idolatrado, defendido e desejado, quase festejado. (...)  Até as décadas que antecedem e sucedem a Segunda Guerra Mundial entraram na disputa, têm sido citadas, defendidas, atacadas, recontadas para serem usadas como narrativas de um mundo ideal, ou ideal para ser repelido.” (...)

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
Agenda
25
Abr
Social Media Camp
09:00 @ Victoria, Canada
27
Abr
30
Abr
Social Media Week: New York
09:00 @ Nova Iorque, EUA
02
Mai
SEO para Jornalistas
09:00 @ Cenjor,Lisboa
03
Mai
V Congresso Literacia, Media e Cidadania
09:00 @ Aveiro, Portugal