Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Opinião

Mau jornalismo é o melhor amigo do populismo

por José Luis Ramos Pinheiro

O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais.

As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit.

Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho arruinam a reputação de pessoas ou instituições.

Claro que sempre houve intoxicação e mentiras no espaço público. Mas o ecossistema digital multiplica a mentira a uma velocidade supersónica.

Mais jornalismo e melhor jornalismo é uma das boas respostas ao perigo das ‘fake news’. Não chega – e não chega mesmo, tantas são as variáveis envolvidas. Mas não chegando, ajuda.

Para isso, o jornalismo deve distinguir-se do ‘lixo’ digital. Assumir a sua independência, escrutinar com rigor os acontecimentos, desmontar a propaganda, fazer as perguntas certas, tratar os factos com objetividade. Em vez de ‘fake news’, ‘real journalism’.

Um dos riscos do jornalismo é o de se deixar contagiar pela subjetividade, alienando o seu capital de confiança, junto do público e da sociedade.

O triunfo da subjetividade consiste, entre outros aspetos, em deixar que as visões e os preconceitos dos profissionais contaminem ‘a notícia’. Confundir factos com opinião contribui para desvalorizar e enfraquecer o jornalismo. E abre o caminho aos ‘factos alternativos’ que outros podem propor, alegando idêntica legitimidade.

Desse modo, o jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais.

Tony Blair, numa das intervenções mais interessantes na Web Summit, desmontou o Brexit e analisou os resultados das eleições intercalares nos Estados Unidos.

Insuspeito de ser um adepto de Trump, Blair explicou que de 2016 para cá, quem visse a CNN e lesse o The New York Times ficava com a sensação de que a presidência de Donald Trump ia implodir. Mas não implodiu, longe disso.

A verdade é que Trump, por quem não tenho nenhuma simpatia, continua a recolher apoios significativos na sociedade norte americana. Apesar do que tem dito e feito, dizem os críticos. Precisamente por aquilo que diz e faz, dirão os seus adeptos. Ignorar isto é ignorar a realidade.

Dito de outro modo, CNN e The New York Times, na ânsia de derrubarem Trump, transmitem um retrato que não reflete a realidade.

Sabendo-se que a Fox News é acusada de fazer o mesmo, mas num registo pró-Trump, tal significa que há muita produção jornalística inquinada.

Este é o ponto. Para adulterar a realidade deviam bastar as ‘fake news’. O jornalismo deve retratar a realidade. Detestando-a ou amando-a, mas procurando retratá-la, sempre com o mesmo rigor, independência e busca da verdade. Um jornalismo que mascara a realidade é tão ‘fake’ quanto as notícias falsas que abundam pelas redes. E se o jornalismo não retrata o país, perde-o.

Por outro lado, sendo o populismo tão enganador, é recomendável que o jornalismo seja esclarecedor. Se numa situação como a dos Estados Unidos, os jornalistas teimarem em retocar a verdade ao sabor da ideologia, estarão a dar um tiro no pé e transformarão o actual Presidente numa vítima. Não o combatem, promovem-no. Melhor serviço à causa de Trump, não há. Porque o mau jornalismo ajuda o populismo. Dá-lhe pretextos e argumentos.

No caso do Brasil é provável que venha a suceder idêntico fenómeno. Há uma espécie de central do pensamento global que já decidiu tudo sobre Bolsonaro. E que não se quer interrogar sobre as razões que levaram mais de cinquenta milhões de brasileiros a escolhê-lo como Presidente.

Por tudo aquilo que se conhece, Bolsonaro parece um personagem nada recomendável. Mas se pretenderem combatê-lo é melhor optar pelo bom jornalismo e não por campanhas baseadas na mera desinformação ou em ficções travestidas de jornalismo.

Populismo e fake news são duas caras da mesma moeda. Uma moeda má que o bom jornalismo combate e que o mau jornalismo potencia.

 

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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