Sábado, 17 de Agosto, 2019
Opinião

Mau jornalismo é o melhor amigo do populismo

por José Luis Ramos Pinheiro

O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais.

As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit.

Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho arruinam a reputação de pessoas ou instituições.

Claro que sempre houve intoxicação e mentiras no espaço público. Mas o ecossistema digital multiplica a mentira a uma velocidade supersónica.

Mais jornalismo e melhor jornalismo é uma das boas respostas ao perigo das ‘fake news’. Não chega – e não chega mesmo, tantas são as variáveis envolvidas. Mas não chegando, ajuda.

Para isso, o jornalismo deve distinguir-se do ‘lixo’ digital. Assumir a sua independência, escrutinar com rigor os acontecimentos, desmontar a propaganda, fazer as perguntas certas, tratar os factos com objetividade. Em vez de ‘fake news’, ‘real journalism’.

Um dos riscos do jornalismo é o de se deixar contagiar pela subjetividade, alienando o seu capital de confiança, junto do público e da sociedade.

O triunfo da subjetividade consiste, entre outros aspetos, em deixar que as visões e os preconceitos dos profissionais contaminem ‘a notícia’. Confundir factos com opinião contribui para desvalorizar e enfraquecer o jornalismo. E abre o caminho aos ‘factos alternativos’ que outros podem propor, alegando idêntica legitimidade.

Desse modo, o jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais.

Tony Blair, numa das intervenções mais interessantes na Web Summit, desmontou o Brexit e analisou os resultados das eleições intercalares nos Estados Unidos.

Insuspeito de ser um adepto de Trump, Blair explicou que de 2016 para cá, quem visse a CNN e lesse o The New York Times ficava com a sensação de que a presidência de Donald Trump ia implodir. Mas não implodiu, longe disso.

A verdade é que Trump, por quem não tenho nenhuma simpatia, continua a recolher apoios significativos na sociedade norte americana. Apesar do que tem dito e feito, dizem os críticos. Precisamente por aquilo que diz e faz, dirão os seus adeptos. Ignorar isto é ignorar a realidade.

Dito de outro modo, CNN e The New York Times, na ânsia de derrubarem Trump, transmitem um retrato que não reflete a realidade.

Sabendo-se que a Fox News é acusada de fazer o mesmo, mas num registo pró-Trump, tal significa que há muita produção jornalística inquinada.

Este é o ponto. Para adulterar a realidade deviam bastar as ‘fake news’. O jornalismo deve retratar a realidade. Detestando-a ou amando-a, mas procurando retratá-la, sempre com o mesmo rigor, independência e busca da verdade. Um jornalismo que mascara a realidade é tão ‘fake’ quanto as notícias falsas que abundam pelas redes. E se o jornalismo não retrata o país, perde-o.

Por outro lado, sendo o populismo tão enganador, é recomendável que o jornalismo seja esclarecedor. Se numa situação como a dos Estados Unidos, os jornalistas teimarem em retocar a verdade ao sabor da ideologia, estarão a dar um tiro no pé e transformarão o actual Presidente numa vítima. Não o combatem, promovem-no. Melhor serviço à causa de Trump, não há. Porque o mau jornalismo ajuda o populismo. Dá-lhe pretextos e argumentos.

No caso do Brasil é provável que venha a suceder idêntico fenómeno. Há uma espécie de central do pensamento global que já decidiu tudo sobre Bolsonaro. E que não se quer interrogar sobre as razões que levaram mais de cinquenta milhões de brasileiros a escolhê-lo como Presidente.

Por tudo aquilo que se conhece, Bolsonaro parece um personagem nada recomendável. Mas se pretenderem combatê-lo é melhor optar pelo bom jornalismo e não por campanhas baseadas na mera desinformação ou em ficções travestidas de jornalismo.

Populismo e fake news são duas caras da mesma moeda. Uma moeda má que o bom jornalismo combate e que o mau jornalismo potencia.

 

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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