Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
Opinião

Mau jornalismo é o melhor amigo do populismo

por José Luis Ramos Pinheiro

O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais.

As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit.

Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho arruinam a reputação de pessoas ou instituições.

Claro que sempre houve intoxicação e mentiras no espaço público. Mas o ecossistema digital multiplica a mentira a uma velocidade supersónica.

Mais jornalismo e melhor jornalismo é uma das boas respostas ao perigo das ‘fake news’. Não chega – e não chega mesmo, tantas são as variáveis envolvidas. Mas não chegando, ajuda.

Para isso, o jornalismo deve distinguir-se do ‘lixo’ digital. Assumir a sua independência, escrutinar com rigor os acontecimentos, desmontar a propaganda, fazer as perguntas certas, tratar os factos com objetividade. Em vez de ‘fake news’, ‘real journalism’.

Um dos riscos do jornalismo é o de se deixar contagiar pela subjetividade, alienando o seu capital de confiança, junto do público e da sociedade.

O triunfo da subjetividade consiste, entre outros aspetos, em deixar que as visões e os preconceitos dos profissionais contaminem ‘a notícia’. Confundir factos com opinião contribui para desvalorizar e enfraquecer o jornalismo. E abre o caminho aos ‘factos alternativos’ que outros podem propor, alegando idêntica legitimidade.

Desse modo, o jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais.

Tony Blair, numa das intervenções mais interessantes na Web Summit, desmontou o Brexit e analisou os resultados das eleições intercalares nos Estados Unidos.

Insuspeito de ser um adepto de Trump, Blair explicou que de 2016 para cá, quem visse a CNN e lesse o The New York Times ficava com a sensação de que a presidência de Donald Trump ia implodir. Mas não implodiu, longe disso.

A verdade é que Trump, por quem não tenho nenhuma simpatia, continua a recolher apoios significativos na sociedade norte americana. Apesar do que tem dito e feito, dizem os críticos. Precisamente por aquilo que diz e faz, dirão os seus adeptos. Ignorar isto é ignorar a realidade.

Dito de outro modo, CNN e The New York Times, na ânsia de derrubarem Trump, transmitem um retrato que não reflete a realidade.

Sabendo-se que a Fox News é acusada de fazer o mesmo, mas num registo pró-Trump, tal significa que há muita produção jornalística inquinada.

Este é o ponto. Para adulterar a realidade deviam bastar as ‘fake news’. O jornalismo deve retratar a realidade. Detestando-a ou amando-a, mas procurando retratá-la, sempre com o mesmo rigor, independência e busca da verdade. Um jornalismo que mascara a realidade é tão ‘fake’ quanto as notícias falsas que abundam pelas redes. E se o jornalismo não retrata o país, perde-o.

Por outro lado, sendo o populismo tão enganador, é recomendável que o jornalismo seja esclarecedor. Se numa situação como a dos Estados Unidos, os jornalistas teimarem em retocar a verdade ao sabor da ideologia, estarão a dar um tiro no pé e transformarão o actual Presidente numa vítima. Não o combatem, promovem-no. Melhor serviço à causa de Trump, não há. Porque o mau jornalismo ajuda o populismo. Dá-lhe pretextos e argumentos.

No caso do Brasil é provável que venha a suceder idêntico fenómeno. Há uma espécie de central do pensamento global que já decidiu tudo sobre Bolsonaro. E que não se quer interrogar sobre as razões que levaram mais de cinquenta milhões de brasileiros a escolhê-lo como Presidente.

Por tudo aquilo que se conhece, Bolsonaro parece um personagem nada recomendável. Mas se pretenderem combatê-lo é melhor optar pelo bom jornalismo e não por campanhas baseadas na mera desinformação ou em ficções travestidas de jornalismo.

Populismo e fake news são duas caras da mesma moeda. Uma moeda má que o bom jornalismo combate e que o mau jornalismo potencia.

 

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Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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