Sexta-feira, 22 de Fevereiro, 2019
Estudo

O jornalismo recorre cada vez mais às redes sociais

É como se meio mundo seguisse regularmente os últimos tweets de Trump  -  porque os media os citam, comentam e ajudam, inadvertidamente, a espalhá-los ainda mais. O tempo em que as redes sociais só eram tratadas como fonte legítima se os jornalistas não tivessem outro acesso a acontecimentos como desastres, ou guerras civis, já passou. Agora tornaram-se parte da construção do jornalismo moderno.

Para ver até que ponto chega a utilização, pelos jornalistas, do Facebook ou do Twitter, o Observatório Europeu do Jornalismo investigou o material publicado por três grandes jornais de referência, o alemão Süddeutsche Zeitung, o britânico The Guardian e The New York Times, nos EUA. O estudo utilizou métodos computorizados, bem como análise manual, sobre um total de cerca de três milhões de artigos publicados entre 2004 e 2016.

Estudos anteriores sugeriam que o recurso às redes sociais tinha “estagnado em termos quantitativos”  - o que até era verdade, mas esse efeito de nivelamento da curva ascendente acabou. Como revela o estudo agora apresentado, “o número de citações das redes sociais aumentou visivelmente nos anos mais recentes”.

Este crescimento é mais elevado nos jornais anglo-americanos do que no Süddeutsche Zeitung, mas a tendência também se verifica neste último. O Twitter, apesar de ter uma base de utentes muito menor em todos os países, é mais popular do que o Facebook. 

O texto de apresentação, que citamos, admite que não se conhecem bem as razões para o aumento verificado, mas que vários factores podem estar envolvidos: 

“Os jornalistas mais jovens têm mais afinidade com este meio e, nos últimos anos, os gabinetes editoriais têm estado a profissionalizar a sua actividade junto das redes sociais. A crise dos modelos de negócio dos jornais  - com menos tempo para investigação e o fecho de agências -  podem estar a favorecer o recurso às redes sociais, assim como o faz um número crescente de fontes potenciais, com as celebridades, os desportistas e os políticos a utilizarem, todos eles,  as redes sociais, em alguns casos de modo excessivo.” 

“Especialmente no caso do Twitter, é possível verificar que o aumento de referências [decorre], acima de tudo, do aumento das fontes de elite citadas. Este suposto meio das massas é, essencialmente, um megafone para aqueles que já ocupavam os títulos na era pré-digital.” 

“Isto atrai os jornalistas, cuja presença, por sua vez, faz disparar a afluência de mais elites  -  e a plataforma acaba por se tornar um campo de gravidade irresistível para qualquer pessoa que procure atenção dos meios de massa, incluindo propagandistas e os interessados em teorias de conspiração.” (...) 

Sobre a questão do impacto deste uso na qualidade do jornalismo, deve ficar claro que é necessário ter cautela quando se recorre às redes sociais como meio de investigação. 

Um outro estudo, de Sascha Hölig, aponta duas tendências correntes: por um lado, a crítica cada vez mais veemente feita aos jornalistas por terem perdido contacto com a vida das pessoas vulgares; por outro, o uso generalizado do Twitter entre jornalistas e políticos como “um meio de investigação e barómetro informal da opinião publica”. (...) 

Outros estudos vão mais longe e identificam o Twitter como “reflectindo uma imagem distorcida da realidade”. (...) 

As plataformas e o jornalismo envolvem-se a níveis diferentes. “Do ponto de vista do jornalismo, é um abraço de frenemies, como Emily Bell descreve estes intermediários: amigos e inimigos num só. Para preservar a sua independência e permanecer sensível à realidade social, o jornalismo deve guardar distância  - em todas as direcções.”

 

O artigo aqui citado, na íntegra, no European Journalism Observatory.  O texto completo do estudo.

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Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

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“Esperamos respostas tão breve quanto possível, porque ainda há muitas questões”  - afirmou.
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Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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