Sábado, 25 de Maio, 2019
Estudo

O jornalismo recorre cada vez mais às redes sociais

É como se meio mundo seguisse regularmente os últimos tweets de Trump  -  porque os media os citam, comentam e ajudam, inadvertidamente, a espalhá-los ainda mais. O tempo em que as redes sociais só eram tratadas como fonte legítima se os jornalistas não tivessem outro acesso a acontecimentos como desastres, ou guerras civis, já passou. Agora tornaram-se parte da construção do jornalismo moderno.

Para ver até que ponto chega a utilização, pelos jornalistas, do Facebook ou do Twitter, o Observatório Europeu do Jornalismo investigou o material publicado por três grandes jornais de referência, o alemão Süddeutsche Zeitung, o britânico The Guardian e The New York Times, nos EUA. O estudo utilizou métodos computorizados, bem como análise manual, sobre um total de cerca de três milhões de artigos publicados entre 2004 e 2016.

Estudos anteriores sugeriam que o recurso às redes sociais tinha “estagnado em termos quantitativos”  - o que até era verdade, mas esse efeito de nivelamento da curva ascendente acabou. Como revela o estudo agora apresentado, “o número de citações das redes sociais aumentou visivelmente nos anos mais recentes”.

Este crescimento é mais elevado nos jornais anglo-americanos do que no Süddeutsche Zeitung, mas a tendência também se verifica neste último. O Twitter, apesar de ter uma base de utentes muito menor em todos os países, é mais popular do que o Facebook. 

O texto de apresentação, que citamos, admite que não se conhecem bem as razões para o aumento verificado, mas que vários factores podem estar envolvidos: 

“Os jornalistas mais jovens têm mais afinidade com este meio e, nos últimos anos, os gabinetes editoriais têm estado a profissionalizar a sua actividade junto das redes sociais. A crise dos modelos de negócio dos jornais  - com menos tempo para investigação e o fecho de agências -  podem estar a favorecer o recurso às redes sociais, assim como o faz um número crescente de fontes potenciais, com as celebridades, os desportistas e os políticos a utilizarem, todos eles,  as redes sociais, em alguns casos de modo excessivo.” 

“Especialmente no caso do Twitter, é possível verificar que o aumento de referências [decorre], acima de tudo, do aumento das fontes de elite citadas. Este suposto meio das massas é, essencialmente, um megafone para aqueles que já ocupavam os títulos na era pré-digital.” 

“Isto atrai os jornalistas, cuja presença, por sua vez, faz disparar a afluência de mais elites  -  e a plataforma acaba por se tornar um campo de gravidade irresistível para qualquer pessoa que procure atenção dos meios de massa, incluindo propagandistas e os interessados em teorias de conspiração.” (...) 

Sobre a questão do impacto deste uso na qualidade do jornalismo, deve ficar claro que é necessário ter cautela quando se recorre às redes sociais como meio de investigação. 

Um outro estudo, de Sascha Hölig, aponta duas tendências correntes: por um lado, a crítica cada vez mais veemente feita aos jornalistas por terem perdido contacto com a vida das pessoas vulgares; por outro, o uso generalizado do Twitter entre jornalistas e políticos como “um meio de investigação e barómetro informal da opinião publica”. (...) 

Outros estudos vão mais longe e identificam o Twitter como “reflectindo uma imagem distorcida da realidade”. (...) 

As plataformas e o jornalismo envolvem-se a níveis diferentes. “Do ponto de vista do jornalismo, é um abraço de frenemies, como Emily Bell descreve estes intermediários: amigos e inimigos num só. Para preservar a sua independência e permanecer sensível à realidade social, o jornalismo deve guardar distância  - em todas as direcções.”

 

O artigo aqui citado, na íntegra, no European Journalism Observatory.  O texto completo do estudo.

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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